quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Estocada ou Não Estocada, Eis a Questão.

“Aquele que quer que lhe dêem, tem de dar.”
S. Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena
*


1. Primeiro, li isto:

“Assim, sabendo-se como se sabe, do licenciamento em curso de algumas novas superfícies comerciais, todas elas apetrechadas com bons parques de estacionamento, é a altura mais do que oportuna para a Câmara apoiar o comércio tradicional.

[…]

Finalmente, mas não menos importante, uma requalificação do Toural sem parque de estacionamento, para além de significar a estocada final no comércio tradicional local, implicará necessariamente ser o nosso Município, isto é todos nós, a suportar os custos da referida intervenção. Pelo contrário, a concessão da concepção, construção e exploração de um parque de estacionamento no Toural significará, para além de uma ajuda primorosa e completa ao comércio local, um alívio completo na bolsa de todos, já que a entidade ganhadora suportará não só o custo do parque mas também de toda a intervenção nesse mesmo espaço.”

2. Depois, li mais isto:

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Guimarães (ACIG), Luciano Baltar, acredita que o impacto que a abertura de dois novos shoppings em Guimarães terá no comércio tradicional será reduzido.

E já não percebo nada.

Por não perceber, pergunto: quando aquele a quem compete a defesa dos interesses dos comerciantes diz o que diz, em 2, que interesses defenderá quem diz o que diz em 1?**

E pergunto mais: com base em que informações, privilegiadas, claro, é que, o que escreve em 1, explica, tão bem explicadinho, o modelo de negócio da intervenção prevista para o Toural, invocando uma “entidade ganhadora”, que “suportará não só o custo do parque mas também de toda a intervenção nesse mesmo espaço”, quando o responsável político por ideia tão subterrânea afirma que os projectos apresentados só serão realidade se obtivermos comparticipação do QREN. O orçamento municipal não chega?

E ouso mesmo perguntar: que nevoenta “entidade ganhadora” será aquela? Ganhou o quê? E quando? E como? E a quem?

Confesso que já me enjoa toda esta conversa sobre o Toural, mas, já agora, se não for muito o incómodo, será que alguém se dá à maçada de me responder?


* Citação furtada daqui.

** Aqui, na caixa de comentários, pressenti uma leve insinuação quanto à eventualidade de haver "proveito próprio" envolvido no assunto. Mas eu cá não insinuo, só pergunto. Porque há interrogações que me fazem espécie.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Um Caso de Sucesso e Incompreensão

Não costumo falar de futebol e não será hoje que o farei. Falarei de revolta perante a injustiça, a ingratidão e a arbitrariedade.

Quando o contrataram, deram-lhe uma missão: colocar o Sporting de Braga no lugar que é seu por direito próprio e que lhe andava a escapar nos últimos anos. Era o homem certo, no lugar certo. Tem vindo a cumprir escrupulosamente, e com inegável sucesso, a missão de que o incumbiram. Agora que pôs o clube no bom caminho e está quase a atingir o objectivo que lhe colocaram, já se movimentam para correr com ele. Estes bragueses não sabem o que querem, é o que é! Já não consigo conter a indignação que me invade perante tamanha e tão insidiosa malvadez.

Deixem Manuel Machado trabalhar!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Direito de Resposta


Ao cirandarmos por aí, à procura de alguma coisa para ler e matar o tédio, enquanto fazemos horas (nós aqui não perdemos tempo: produzimo-lo à medida das necessidades) para a sopa, demos a volta pelos sítios do costume, desaguando em Lisboa, como de costume, em dia de enxurrada, e fomos de Arrastão no enxurro. Nós aqui tão sossegados, a contar moscas e a cuspir cascas de tremoços, e já chegamos ao umbigo de Portugal. Porreiro, pá, diríamos nós se fôssemos o tal engenheiro e estivéssemos a abraçar aquele a quem a esposa afectuosa chama, com enlevo, o cherne e que por aqui é conhecido como o senhor que, depois de mobilar a sede do MRPP com os trastes que roubou na Faculdade de Direito, chegou a presidente da Comissão Europeia. Mas não somos. Portanto, não dizemos, mas estamos desvanecidos, gratificados, vingados e, até mesmo, um tanto ou quanto injustiçados. Porém, sentimos que são justos os reparos que lá deixaram na caixa de comentários: em Guimarães não tomamos bicas, tomamos juízo, ben-u-rons, penicilina e guronsans, conforme as necessidades. Em Guimarães somos diferentes, comemos as bicas, com as suas duas maminhas. E chamamos-lhes um pão.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Uma Iniciativa Inovadora

LEGENDA: Cerimónia comemorativa dos 179 anos, 4 meses e 26 dias do nascimento do gravador Molarinho. Na fotografia, da esquerda para a direita, os Presidentes das Juntas da Oliveira, de S. Paio e, por exclusão de partes, de S. Sebastião. Na ocasião, o homenageado, José Arnaldo Nogueira Molarinho (no medalhão, em segundo plano), manifestou-se muito sensibilizado com a gentileza de tão dinâmicos, empreendedores e indispensáveis autarcas, tendo confessado ao repórter do Guimarães Digital que não estava à espera de tal lembrança. Para ampliar, clique no ramo de flores.

Não tenho a menor atracção por números redondos, curvos ou semicurvos, terminados em 0 ou 5. Embirro com efemérides. Detesto aniversários. Abomino cinquentenários. Maldigo centenários. Impaciento-me com sesquicentenários. Fujo de milenários. Aborreço-me de morte com bodas: as de prata, as de ouro, as de diamante, as de platina ou as de casamento. A não ser pelo arredondado dos números, não vejo qual o sentido de se celebrarem os 50, os 75 ou os 100 anos do nascimento ou da morte de alguém. Ninguém faz nada de assinalável no dia em que nasce. Raros são os que o fizeram no dia em que morreram. Julgo preferível assinalar a passagem dos 104 anos, 3 meses e 14 dias sobre a data em que um escritor escreveu uma página memorável, do que o centenário da sua morte (isto é, do dia a partir do qual não voltou a escrever nem mais uma linha). Vem isto a propósito de ter percebido que não sou o único a padecer de alergia às efemérides, tais como têm sido concebidas até aqui. Inaugurando uma prática que se saúda, e dando mostras de uma insuperável visão estratégica, as três Juntas de Freguesia do centro urbano de Guimarães juntaram-se, no passado dia 15 de Fevereiro, para assinalarem a passagem dos 180 anos do nascimento do gravador Molarinho (que veio ao mundo num dia qualquer, para o caso não importa qual*), no preciso dia em que passam 101 anos sobre a sua morte (será que no ano passado se esqueceram do centenário?, estarão neste momento a perguntar os leitores. Não senhor, meus senhores: simplesmente, resistiram, com indomável tenacidade, à tentação de o assinalar**).

* Um senhor que tinha a mania das efemérides diz que foi a 25 de Setembro de 1828.

** O mesmo senhor assinala que o ourives faleceu no dia 15 de Fevereiro de 1907.

Este Post Contém Cenas Eventualmente Chocantes

Versão do Café Toural para o cartaz da exposição Cranach, da Royal Academy of Arts de Londres. À gargantilha com que foi vestida originalmente pelo pintor, acrescentámos um discreto wonderbra de cetim purpureado e uma folha de parra da casta roriz, a condizer (para ampliar e observar com mais pormenor, introduza o dedo no umbigo da senhora e, depois, clique).

Lord Byron, escritor inglês que passou por Portugal, descreveu os portugueses como uma subespécie que só tinha serventia para a escravatura (ele lá teria as suas razões para assim descrever, que o meu tio Benevides, um insaciável romântico, que também descrevia, costumava classificar como manifestações de dor de corno). J. P. Oliveira Martins, escritor português que passou por Inglaterra, descreveu os ingleses como a última reminiscência do homem das cavernas. Eu, que sempre fui um indeciso, nunca soube a quem dar razão, se a Byron, se a Martins, se aos dois, se a nenhum. Agora começo a dar razão a Martins, ao saber que na Inglaterra ainda há, mesmo, homens das cavernas – os do underground –, que, em defesa da moral e dos bons costumes, proibiram a afixação de anúncios de uma exposição com obras de Lucas Cranach, o Velho, onde se reproduz uma inofensiva pintura clássica com quase seis séculos.

PS: a imagem que vai aí acima é um contributo, a título gracioso, do Café Toural aos responsáveis da Royal Academy of Arts, que se lamentaram por não terem previsto “um plano B com a Vénus vestida”.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ai Portugal, Portugal! 2.0

Que país é este onde a simples publicação de um decreto tanto pode esperar mais de um ano como mais de um século?

[Saber mais: a criatura e o decreto criador]

Amanhã É O Primeiro Dia...

...Do Resto Da Vida da Fundação Martins Sarmento!


Foi hoje publicado, em Diário da República, o Decreto-Lei n.º 24/2008 de 8 de Fevereiro, que institui a dita e lhe aprova os estatutos! Entra em vigor amanhã!

Longa vida! Muitos sucessos!

Se precisarem de alguma coisinha deste vosso humilde servidor... façam o favor de dizer...

Quem quiser conferir, pode fazê-lo aqui.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Ai, Portugal, Portugal!

Não sei se projectou ou se não projectou. Não sei se assinou o que não projectou só porque quem projectou não podia assinar porque fiscalizava as obras que projectava mas não assinava. Não sei. E não é essa ignorância que me incomoda. O que me que incomoda e assombra, o que me atormenta e mortifica, o que me dói e tira o sono, é vê-lo insistir que aquilo são criações suas. Para que abismos caminha o país cujo destino está entregue ao autor de mamarrachos assim medonhos?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Terrorismo Político e Cabidela

Hoje o galo, o galo maldito, começou a cantar ainda mais cedo e ainda mais estrídulo. Tomei a resolução que antes já tinha tomado tantas vezes, mas que nunca consumara. De hoje não passa! Levantei-me, na cozinha peguei numa malga e na garrafa do vinagre. De faca afiada na mão, fui ao galinheiro. Pressentindo os meus propósitos galicidas, o cantador irritante desatou a cacarejar e a correr em todas as direcções, em círculos. Ao fim de trinta e sete minutos de perseguição, apanhei-o com um mergulho à Jesus, e, zás!, cortei-lhe o pescoço. Pendurei-o no estendal, pelas patas, com a malga por baixo, com boa quantia de vinagre, para a apanhar o sangue. Agora, ia poder dormir descansado e sonhar com a cabidela. No caminho de regresso a casa, com o instrumento da vingança na mão, vindos sabe-se lá de onde, saltaram-me em cima três, ou cinco, ou dezassete gorilas fardados de preto com as caras tapadas com passa-montanhas. Polícia, quieto! Num ápice, fiquei estendido de borco, com as mãos algemadas atrás das costas, e uma bota fincada no meu pescoço. Perguntaram-me o nome. Respondi. Ouço: É ele! Ao ver todas aquelas HK MP5 K apontadas ao meu pobre canastro, desato a encomendar a minha alma a deus e ao diabo. Se soubesse que matar um galo era crime tão grave, há muito que me teria deixado de cabidelas. Tartamelei uns gargarejos, na vã esperança de lhes explicar de onde vinha, de faca em sangue na mão. Alguém foi confirmar e confirmou. É verdade, chefe, está lá o galo. Vejo depois descerem da minha casa outros tantos gorilas de preto e caras tapadas. Tudo limpo, chefe, não encontrámos nada. Tiraram-me as algemas e, assim como apareceram, desapareceram. Com os motores dos carros a afastarem-se, levantei-me, espavorido, abismado e aturdido. Encontrei a casa de pantanas, tudo remexido.

Fiquei ali, sentado, horas a fio, a tentar perceber se estava acordado ou no meio de um pesadelo. Só agora encontrei uma explicação. Vinha nos jornais da terra. Cito um, com perdão pela falta de vírgulas:

O vereador começou por justificar que os projectos estavam ainda em fase de discussão pública, pelo que não se justificava qualquer parecer. Mas, perante a contestação da resposta por parte da vereadora que a recolocou atirando “como pode haver propostas para mexer na zona tampão do centro histórico classificado, sem um parecer do organismo local responsável pelo título”, Júlio Mendes não escondeu o nervosismo e perguntou “e como é que sabe que não há parecer?”

A contra-resposta provocou um diálogo mais aceso entre ambos tendo Ana Amélia obtido do vereador do PS a confirmação de que de facto não foi solicitado qualquer parecer ao ainda existente GTL. Mas à resposta Júlio Mendes acrescentou o comentário “isso é terrorismo político”, obtendo como resposta “não é não é trabalho de pesquisa. A Internet revela muitas informações”. Ana Amélia sugeriu a propósito “visitem os blogues onde estes assuntos são discutidos”.

Depois de dar uma volta pelos blogues indígenas, percebi que aquilo podia ser comigo, por causa disto. De repente, eu, que sempre tive razoável desarmonia ao terrorismo e forte alergia à política, vejo-me equiparado a agente de terrorismo político. Meus senhores, eu sou Honoré de Balazar, o das balazarianas! Não tenho nenhum fetiche por virgens, mesmo que sejam tantas como setenta e uma, e menos ainda se elas só vierem com disposição para me servirem depois de morto. Cá por mim, prefiro-as maduras e prefiro-me vivo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Eu Gosto É Destas Macacadas!

Se tens telhados de vidro...

Contradições, Desmandos E A Falta Que Faz O Emprego...

Querem lá ver que alguém se esqueceu de avisar que tinha dado uma entrevista ainda por publicar, tanta era a vontade de aproveitar a oportunidade...

Há pois, dois sinais contrários nesta questão:

a) positivo: a nova ministra não é tola (valha-nos isso!), pois percebeu o estado da coisa, ainda há quinze dias;

b) negativo: isto está mesmo mau, até os médicos, mesmo achando que a política de saúde deste governo não vale um chavo, vêem que mais vale alinhar com eles do que levar com um processo disciplinar ou outra coisa qualquer...

Ou, então, avisou, mas o Sócrates já nem liga... assim, como assim, está tudo a dormir e a trapalhada é conceito de aplicação exclusiva ao Santana.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Da Cultura e das Côdeas de Broa

Ainda me lembro, como se fosse hoje: a minha avó mandava-me à padaria, todos os dias, antes do almoço, que ela teimava chamar de jantar, um quilo, e traz o troco. Na padaria, o Sr. Torres tinha uma mão muito certeira, raramente falhava o corte. Um quilo de broa? Pegava na faca de serra, fixava-se na broa (no tempo em que uma broa era uma broa e não um arremedo como essas de agora) como quem a media com os olhos e cortava um pedaço, que punha à balança. Um quilo? Ora aí está! Porém, às vezes falhava-lhe o olho, ou a mão, ou a faca, aquilo não dava bem um quilo, e o Sr. Torres lá tinha que colocar mais um pedacinho para compensar o peso em falta, normalmente mais côdea do que miolo, que eu roía a caminho de casa. Era o contrapeso.

Percebo agora que com as remodelações governamentais acontece algo de muito semelhante. Certo dia, o Sr. Primeiro-Ministro acorda bem disposto, cheio de vontade de remodelar. No palácio, com o 1492 do Vangelis em fundo, mal se senta à grande mesa, anuncia, categórico e determinado, como quem sabe que cumpre um desígnio sem saber muito bem qual seja: Meus senhores e minhas senhoras, hoje vou remodelar! Percorre a mesa com os olhos, sente os ministros encolherem-se, fazendo-se pequeninos e querendo-se invisíveis. E diz: Tu aí que andas com ar de pouca saúde, estás remodelado. Põe o Ministro da Saúde na balança e logo conclui que não tem peso suficiente para atingir a condição de remodelação. Precisa de um contrapeso. Novamente, percorre a mesa com os olhos, sente os ministros encolherem-se, fazendo-se pequeninos e querendo-se invisíveis. Por fim, diz, dirigindo-se à Ministra da Cultura: Desculpa, tu até tens sido porreira, pá, mas também te remodelo. E lá teve o sr. Engenheiro a sua remodelação.

E assim se demonstra que, se não se lhe encontra outra serventia, a cultura sempre pode servir de contrapeso. Tal e qual como as côdeas de broa do Sr. Torres.

domingo, 27 de janeiro de 2008

A Preguiça, ou os Efeitos da Picada da Mosca Tsé-Tsé no Urbanismo Índigena, ou a Jóia da Coroa que Já Era

Afinal, há quem, parecendo acordado, não perceba aquilo que eu, pobre diletante, cidadão distante, aborígene distraído, adivinho mesmo a dormir. Há dias, alguém perguntou aqui, num comentário, “que é feito de quem tem responsabilidades políticas, na situação ou na oposição?”. Acabo de encontrar a resposta. Leio no jornal de hoje que na oposição (pelo menos na maior fatia dela) se mergulha nos braços de Morfeu e se vota sem se analisar o que se vota. E que na situação (pelo menos na primeira figura dela) também se poderá andar a passar pelas brasas nas horas de expediente. Ou isso, ou o nosso alcaide foi acometido por um refinado sentido de humor que o leva a contar a piada do ano, a de que o mais prestigiado dos serviços municipais vimaranenses não perde autonomia ao tornar-se numa divisão acéfala de um departamento macrocéfalo. Um serviço que cuidava da requalificação do Centro Histórico e que apenas respondia directamente perante o Presidente da Câmara (que não tinha dúvidas em classificá-lo, muito justamente, como “a nossa jóia da coroa) que, primeiro, passou a responder perante um vereador recém-chegado, sem pedigree em matéria de centro histórico, e que, agora, passa a responder ainda mais abaixo, não perde autonomia? Perde autonomia, perde dignidade e, pior de tudo, parece que perdeu competências, já que deixou de ter voz activa na condução de projectos que são lançados sobre a sua área de jurisdição.

Pois é, andamos com soninho.

Entretanto, deve haver por aí gente bem desperta e, talvez, quem sabe, algo esperta.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O Monumento

Diz o de Guimarães, o artista, que, ao conceber o monumento ao nicolino, pretendeu criar uma “forma simbólica, talvez sugerida pelo esvoaçar da "capa", que faz parte do traje académico”. Confesso que sempre me intrigou o “talvez” estrategicamente arrumado naquela explicação.

A capa do traje dos estudantes vimaranenses é preta. Vermelha é a capa dos toureiros. E, não obstante os trejeitos marialvas das festas nicolinas, não estou a ver qual seja a sua afinidade com touradas, garraiadas e outras manifestações quadrúpedes e afins. Para mim, aquilo era um mistério. Até hoje.

Pela manhãzinha, fui espreitar o monumento de que tanto se fala há tanto tempo. Em chegando ao meio do Campo da Feira, vi dois senhores de provecta idade a olharem para a coisa. Falavam assim:

- Ò Manel, aquilo daqui parece mais um pedaço de carne.

- É mesmo! Aquilo é um bife.

- É, mas é, uma costeleta.*

- Vendo bem, Jirónimo, é mesmo isso: uma bela costeleta, é o que é!

Olhei melhor e esmoreceram-se as dúvidas. Aquele monumento remete para o mais profundo da nossa identidade, com uma dimensão simbólica arrasadora, telúrica, quase sublime: é um tributo à costela de nicolino que há em cada um de nós. Não representa, talvez, uma capa de estudante. É, sem sombra de talvez, uma magnífica costeleta nicolina.

* Aliás: - É mazé uma costoleta.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

E Agora, Senhores Meus, o Euromilhões

E eis que, ao fim de tantos anos metido dentro da minha pele, me maravilho com uma descoberta sobre um lado de mim que desconhecia: tenho um dom, senhores. Eu não sonho, auguro. Eu não tenho pesadelos, tenho presságios. Eu adivinho!

Só não ainda adivinhei porque é que escolheram este preciso momento para quebrarem o selo de garantia do nosso Centro Histórico, outrora conhecido por GTL. Porém, suspeito que não deve ser preciso ser bruxo para desvendar tal segredo.

Última Hora - Guy Marais desapareceu

O assunto é grave e não merece sorrisinhos cínicos. Guy Marais, esforçado escriba deste café, não dá sinais de vida desde sexta feira passada, altura em que enviou um sms a Pedro de Leitões perguntando-lhe se queria ir jantar ao restaurante Cabeça de Porco, em Moreira. Posto isto, não mais atendeu telefones, respondeu a emails e, mais grave, à porta de seu apartamento vazio estava um bilhete manuscrito que dizia - e citamos - fui para Gondar. Ora, Guy, mitómano por vocação, dizia sempre que tinha um - e citamos - castelo em Gondar. Sabendo nós da inverdade de tal afirmação - Guy não tem nenhum castelo em Gondar, até porque não há castelos em Gondar - escarrapachamos* neste espaço a nossa preocupação e lamento pelo silêncio de Guy Marais. Afinal, quem cala consente.

* que palavra incómoda, não?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Anjo da Guarda, Que é Feito de Ti?

Um destes dias, passando ao largo da Cervejaria Martins, cruzo-me com um grupo de aborígenes em discussão desabrida. O costume, pensei, o Vitória, o Cajuda, o Geromel e o Rabiola, talvez o fora-de-jogo, talvez o Pimenta. Enganei-me: era de obras que se falava. Alguém me atira: “E tu, ò Honoré, não dizes nada sobre o projecto?”. Respondi com o mais expressivo encolher de ombros de que sou capaz e segui caminho. Ouso confessar que tenho dormido descansado, apesar do alarme público que invadiu a cidade por causa do que se anuncia para o Toural. Sei que, ao longo do processo de requalificação do Centro Histórico de Guimarães, tão louvado, premiado e galardoado, a cidade acrescentou novos elementos ao seu património, entre os quais se inclui o GTL, serviço que, pela reconhecida excelência do seu trabalho de preservação/reposição da autenticidade dos modos de intervir no património, granjeou respeito internacional, tornando-se num case study no meio académico de Portugal e arredores. Portanto, dormia eu descansado porque sei que há gente sabedora e de confiança a velar pela cidade. Dormia, disse, mas esta noite não dormi. Em plena madrugada, ainda o galo não cantara, acordei sobressaltado, suando frio, com tremores, com palpitações e com uma ideia insólita a zumbir-me na mioleira. Levantei-me, molhei o rosto, verti águas e voltei para o quentinho dos lençóis. Tinha sido um pesadelo: claro que não tinham acabado com o GTL. Mas amanheci atordoado com uma premonição funesta. Para a afastar, pus-me a pensar, o que raramente faço. A conclusão a que cheguei agravou o meu estado de ansiedade: em tanto que se tem falado sobre os projectos para Guimarães, não temos tido sinais de vida dos técnicos a quem compete a tutela do programa de intervenção no Centro Histórico classificado com o título da UNESCO e todo o espaço que baptizaram, Deus os perdoe!, de zona tampão. Ainda antes do mata-bicho, fui a correr à Rua Nova, antigamente bem mais airosa com aquelas raparigas alegres e gentis que ali ofereciam os seus préstimos aos pobres necessitados. Lá estava a casa do GTL. Mas não estava o GTL. De uma varanda ao lado, uma velhinha, com poucos dentes e muita curiosidade, quis saber quem é que eu procurava. A minha resposta fez ricochete na dela: “Então não vale a pena bater. Eles já se foram embora há muito”. Começo a ficar apreensivo. Muito apreensivo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Previsão do Tempo para Atouguia e Arredores

Em dois mil e oito Guimarães vai ter um bairro paki, um restaurante tailandês, mais dois japoneses, mais três italianos, uma mesquita, uma sinagoga, mais um ou dois bares gay, um bar clube lounge para elitistas de sexta feira, jornais que dêem notícias, jornais que dêem notícias com seriedade, uma estátua nova, um centro cultural bem pensado, uma casa das artes acabada, um clube de futebol novo, um teatrinho, menos matarruanos, mais intelectuais, um metro a sério – não metrinho -, um gabinete de reflexão sobre a cidade, que percebe que isto já vai de Nespereira às Taipas e já não do Fundador aos Jagunços, cinco projectos dos quais um e meio é passível de fornicar isto de vez, filmes estreados em tempo útil, menos cinema para imbecis de centro comercial, uma japoneira com duzentos anos, uma circular pensada com grandiosidade, uma saída nas Taipas na à onze, entretanto transformada em secute, uma feira erótica no multiusos, uma avenida nova, uma esplanada sem música de fezes a debitar, poetas malditos a vaguear pelos jardins, um canto dos faladores, um sistema de transportes públicos ferroviários competente, um mini-eco-bus para o centro, um festival de verão elegante, enfim, ó pá, é assim, dois mil e oito para Guimarães, pá, dois mil e oito vai ser um ano do c*****o.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Boletim Meteorológico: Previsão de Melhorias

Certo dia, quando 2006 percorria o seu último quarto, começou a pairar sobre o Toural a sombra de uma névoa vagamente insinuante. Ainda o ano não era findo, a sombra adensou-se: a névoa podia passar a Névoa, disse-o quem não se esperaria que o dissesse. Correu um ano completo, e a névoa lá continuava a pairar, ameaçadora, afiando as garras, enquanto espreitava o momento de cair sobre a presa, aparentemente desarmada e adormecida na sua inocência. Até que se anunciou: é mesmo Névoa que bate à porta do Toural. Mas a presa, afinal, não dormia. Deu luta. Estrebuchou. Sacudiu a cerração. Agora, parece que o Céu já se desanuvia e que a sombra se começa a afastar do Toural. O Toural fica melhor, muito melhor, sem o manto de Névoa.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Porreiro, Pá!

Porque, na sua infinita sabedoria, o povo nunca se engana, nada lhe será perguntado.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

António Adiantou-se...

Andava com vontade de escrever isto, mas ele adiantou-se e, provavelmente, escreveu melhor e mais objectivo... Concordo tim-tim por tim-tim, mas acrescentava de bom grado, uns palavrões e uns insultos.


«Em consequência da revolução de 1974, criou raízes entre nós a ideia de que qualquer forma de autoridade era fascista. Nem mais, nem menos. Um professor na escola exigia silêncio e cumprimento dos deveres? Fascista! Um engenheiro dava instruções precisas aos trabalhadores no estaleiro? Fascista! Um médico determinava procedimentos específicos no bloco operatório? Fascista! Até os pais que exerciam as suas funções educativas em casa eram tratados de fascistas. Pode parecer caricatura, mas essas tontices tiveram uma vida longa e inspiraram decisões, legislação e comportamentos públicos. Durante anos, sob a designação de diálogo democrático, a hesitação e o adiamento foram sendo cultivados, enquanto a autoridade ia sendo posta em causa. Na escola, muito especialmente, a autoridade do professor foi quase totalmente destruída.

Em traço grosso, esta moda tinha como princípio a liberdade. Os denunciadores dos “fascistas” faziam-no por causa da liberdade. Os demolidores da autoridade agiam em nome da liberdade. Sabemos que isso era aparência: muitos condenavam a autoridade dos outros, nunca a sua própria; ou defendiam a sua liberdade, jamais a dos outros. Mas enfim, a liberdade foi o santo e a senha da nova sociedade e das novas culturas. Como é costume com os excessos, toda a gente deixou de prestar atenção aos que, uma vez por outra, apareciam a defender a liberdade ou a denunciar formas abusivas de autoridade. A tal ponto que os candidatos a déspota começaram a sentir que era fácil atentar, aqui e ali, contra a liberdade: a capacidade de reacção da população estava no mais baixo.

Por isso sinto incómodo em vir discutir, em 2008, a questão da liberdade. Mas a verdade é que os últimos tempos têm revelado factos e tendências já mais do que simplesmente preocupantes. As causas desta evolução estão, umas, na vida internacional, outras na Europa, mas a maior parte reside no nosso país. Foram tomadas medidas e decisões que limitam injustificadamente a liberdade dos indivíduos. A expressão de opiniões e de crenças está hoje mais limitada do que há dez anos. A vigilância do Estado sobre os cidadãos é colossal e reforça-se. A acumulação, nas mãos do Estado, de informações sobre as pessoas e a vida privada cresce e organiza-se. O registo e o exame dos telefonemas, da correspondência e da navegação na Internet são legais e ilimitados. Por causa do fisco, do controlo pessoal e das despesas com a saúde, condiciona-se a vida de toda a população e tornam-se obrigatórios padrões de comportamento individual.

O catálogo é enorme. De fora, chegam ameaças sem conta e que reduzem efectivamente as liberdades e os direitos dos indivíduos. A Al-Qaeda, por exemplo, acaba de condicionar a vida de parte do continente africano, de uma organização europeia, de milhares de desportistas e de centenas de milhares de adeptos. Por causa das regulações do tráfego aéreo, as viagens de avião transformaram-se em rituais de humilhação e desconforto atentatórios da dignidade humana. Da União Europeia chegam, todos os dias, centenas de páginas de novas regulações e directivas que, sob a capa das melhores intenções do mundo, interferem com a vida privada e limitam as liberdades.

Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União. Mas nem é preciso ir lá fora. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas. A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do Governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do Governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na “comunicação social” em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade.

Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo. O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas. Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo...»

António Barreto, in Público, edição de 6.1.2008, pág. 37

Nem com uma Flor

Porventura por influência de alguns dos artistas que por lá têm passado, a nossa melhor casa de espectáculos, o CCVF, já se dá ares de prima-dona. A despeito do nome por que responde, já não se lhe pode bater nem com uma flor, que lhe estala o verniz. Quando contrariada, fica embezerrada, amua e até se põe verde. Há quem diga que até nem tem mau feitio e que o problema está na farpela com que a vestiram, bem-parecida e imponente, porém mui frágil, sensível e quebradiça.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ouvido de Passagem

Requiem para quatro jovens -

Jovem nº 1- (…) e ele porque não veio?
J2- Disse que o avô dele foi para o hospital e que por isso não podia vir.
J3- E foi por isso que não veio?
J2- Sim, foi para o hospital…
J4- Então podíamos ir lá ao hospital…
J3- Quem tá fodido é o avô não é ele!
J4- Então vamos comer…
J1- Acho que sim!
J2- Hehehe…

Ouvido na Rua de São Gonçalo, dia 5 de Janeiro de 2008, 21h.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Uma Teoria da Conspiração

As teorias valem o que valem e esta é só mais uma. Contudo, todas as teorias têm um fundamento. A minha teoria não é excepção.

Devo dizer, aos meus muitos e caros leitores, que estou profundamente convencido que há uma relação entre a Associação Comercial Vimaranense e algumas lojas de aparelhos auditivos. E passo a explicar o porquê desta minha insinuação:

Na véspera de Natal encontrava-me eu na Rua de Santo António a fazer as últimas compras. Todos os anos as faço, orgulhosamente fora de horas. Eram já 19h, a rua quase deserta, com suas lojas quase fechando. HoHoHo, HoHoHo. Subitamente passa por mim um bólide da Associação Comercial Vimaranense que, através de um péssimo sistema estereofonico debitava soundbites (já vi que pleonasmei) sobre o comércio tradicional. Assustado, eu – qual coelho de Páscoa prestes a pôr ovo – senti um zumbido a apoderar-se do meu tímpano esquerdo. Confuso, embati contra uma daquelas tochas de latão (permitam-me chamar-lhes assim) que se encontram espalhadas pela nossa bela (e não pedonal) Rua de Santo António. Após o embate a estearina quente, que contrastava com o frio que se fazia sentir, caiu sobre meus olhos azuis que, até aí, contrastavam com o vermelho das alcatifas que abraçavam os passeios. A dor foi insuportável. A confusão foi total. Cego e tonto, acabei por cair no tanque da Rua de Santo António. Como seria de esperar a hipotermia apoderou-se de mim e passei a consoada no hospital.

Para além dos problemas inerentes ao estado hipotérmico foi-me diagnosticada surdez. De imediato tive que me dirigir a uma loja para comprar um aparelho auditivo. E quando na loja, enquanto eu me tentava fazer entender, me escreveram num papelinho “sabemos porque está aqui”, eu vi logo que aqueles malandros tinham feito um acordo com a Associação Comercial Vimaranense. Exijo justiça!

Guimarães, antigo HSO – 28 do 12 de 2007

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - VI

[… continuado de aqui]

Onde, finalmente, se desvenda "o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural".


α, que perseguia, no ranço dos papéis velhos, o rasto das invasões francesas em terras de Guimarães, não teve dificuldade em perceber de que tratava o escrito do Mestre-Escola.

Em Outubro de 1807, o D. Prior da Colegiada recebeu uma carta do príncipe regente em que mandava pesar e inventariar as pratas da Colegiada, para que fossem recolhidas nos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, Tomar ou Palmela. Esta ordem seria anulada por carta régia de 19 de Dezembro. Mas as pratas continuavam em risco, pelo que o Cabido decidiu esconder as mais valiosas, até que passasse a ameaça francesa. Foram introduzidas em quatro arcas de madeira, que se confiaram ao mestre-escola e a dois dos cónegos para que as colocassem em salvamento. Mas ninguém voltaria a pôr a vista em cima daquele tesouro: todos os que conheciam o seu esconderijo morreram antes que fosse resgatado, numa sucessão de trágicas coincidências, como se tivessem sido atingidos por uma maldição sinistra. Esta história é conhecida dos que, como α, conhecem a história da Colegiada de Guimarães.

Ao ler o que encontrou, α ficou dividido, entre a glória do descobridor e os acenos da cobiça. Como, dos humanos sentimentos, triunfam, em geral, os mais baixos, α tratou de esconder o papel e de congeminar o meio para chegar à prata.

No campo maior de correr toiros trinta e dous paços para lá da fonte na direitura do velho das barbas maiores hua grande lagem cimquo palmos por baixo da qual coatro caixoens com grande aver furtado aos gallicos aos vimte e hu de 10bro de oito cemtos & sete.

A mensagem era, afinal, clara como a água:

No Toural, a 32 passos do chafariz, na direcção para onde aponta uma das bicas onde está a cara de um homem com barbas grandes, debaixo de uma laje, a cinco palmos de profundidade, estão quatro caixões com um tesouro escondido dos franceses em 21 de Dezembro de 1807.

Com método e rigor cirúrgicos, α congeminou um plano quase diabólico. À primeira vista, havia duas dificuldades aparentemente insuperáveis: a primeira, era descobrir como desenterrar um tesouro escondido em plena praça pública sem atrair atenções indesejáveis; a segunda, porque o chafariz foi retirado do Toural há bem mais de um século, não era possível determinar em que direcção é que apontava o “velho das barbas maiores”: sendo o chafariz de configuração circular, a bica do velho poderia estar voltado para qualquer direcção. Só viu uma solução, que jamais poderia concretizar sozinho, pelo que tratou de a arranjar aliados: um arqueólogo, um empreiteiro e alguém capaz de mexer os cordelinhos nos corredores de Santa Clara.

Foi assim que nasceu o grande projecto: escavar todo o Toural.

Depois, foi só pôr a engrenagem em andamento, começando por convencer quem devia ser convencido das inesgotáveis virtudes e da infinita necessidade da construção de um aparcamento e de um túnel subterrâneos. Depois de aprovado o projecto, o arqueólogo apresentará uma proposta imbatível para os imprescindíveis trabalhos de prospecção arqueológica, que se propõe realizar sem nada receber em troca, pelo seu muito amor à ciência, e o empreiteiro aparecerá, a seu tempo, com um preço à prova de concorrência para os trabalhos de escavação e remoção de inertes. O golpe do século já está em marcha em Guimarães.

Moral desta história:

“A ambição é, entre todas as paixões humanas, a mais ferina nas suas aspirações e a mais desenfreada nas suas cobiças e, todavia, a mais astuta no intento e a mais ardilosa nos planos.” (Bossuet)

FIM ?

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - V

[… continuado de aqui]


Onde se acha e quase se desvenda o segredo do Mestre-Escola.

Em sendo dado à terra o Mestre-Escola, Severina foi ao encontro do seu destino. Lançada à rua pelos herdeiros do reverendo, recolheu-se em casa da Emília Mata-Homens, na rua do Gado, onde se devotou, como prestadora de serviços, ao mester da casa. Fez-se mulher de porta aberta, pela muita necessidade e pelo pouco desprazer. Conservou o segredo do Mestre-Escola, cosido na barra da saia, até que se tomou de amores por um estudante que introduzira nas artes sensuais, Jerónimo das Lamelas, a quem quis oferecer uma demonstração do seu bem-querer. Contou-lhe que guardava um segredo e retirou, da barra da saia, um papel amarelecido. Jerónimo leu

No campo maior de correr toiros trinta e dous paços para lá da fonte na direitura do velho das barbas maiores hua grande lagem cimquo palmos por baixo da qual coatro caixoens com grande aver furtado aos gallicos aos vimte e hu de 10bro de oito cemtos & sete.

e confessou não atinar com o sentido do que ali estava escrito.

Foi assim que o escrito passou para a casa das Lamelas, onde, depois de lhe dar muitas voltas, Jerónimo o esqueceu no meio do volume do Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades, composto por frey Pantaliam Daveiro. Mais tarde, a biblioteca das Lamelas foi parar às mãos de um célebre jurisconsulto vimaranense, que deixou os seus livros em testamento à Sociedade Martins Sarmento, onde o segredo do Mestre-Escola continuou bem guardado no aconchego das páginas do relato da peregrinação de Frei Pantaleão de Aveiro. Até que, mais de um século passado, foi encontrado e decifrado por α, um famigerado rato das bibliotecas indígenas.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Até os Mortos São Convocados

Cada vez mais me convenço que muito grande será o segredo que faz mover a determinação de estripar o Toural, agora que vejo que até os mortos são convocados ao Além para virem esgrimir argumentos em sua defesa.

[Vd. Povo de Guimarães, jornal refractário a pseudónimos onde impera a lei de Olívio Chamado, n.º 1452, 28 de Dezembro de 2007, pág. 4]

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - IV

[… continuado de aqui]

No mesmo dia em que tiraram o infortunado capinha do poço da Madroa, o Mestre-Escola da Colegiada Dionísio Vicente chegou a casa com os bofes carregados de vinho. Não demorou muito para se atirar para cima da sua manceba Severina, a Cara Linda. No meio da refrega, confidenciou-lhe que estava rico, muito rico, que ia partir para a Corte e que ia levar a sua cabritinha Severina com ele. Fosse pelo destempero dos jogos carnais, fosse pelo avinhado que estava, fosse pela comoção que o acometia, Severina sentiu o reverendo burgesso começar a arfar desalmadamente. Pela luz esparsa que irradiava da vela que iluminava o quarto, viu-o ficar roxo, cada vez mais roxo, roxinho. Até que se foi, com um espasmo e sem um ai Jesus!, ali mesmo, em cima dela, trespassado por um estupor apopléctico fulminante.

Severina empurrou de cima de si a visão da morte. Apesar do medo que a assaltou, recompôs-se, como sempre fora moça precavida, antes de gritar por ajuda, descoseu a bainha da manga do reverendo, de onde retirou o papel que, havia algum tempo, ele lhe tinha pedido para ocultar na velha jaqueta que nunca largava. Soubesse ela ler, e teria ficado a conhecer o segredo funesto do Mestre-Escola. Não sabia, mas tratou de guardar o papel em bom recato.

[a continuar...]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - III

[… continuado de aqui]

Aqui se continua a relação muito fiel e verdadeira do segredo singular que se esconde nas profundezas do Toural, na muito antiga cidade de Guimarães.

Por aqueles dias turbulentos em que a ameaça francesa se instalou nesta terra, uma improvável sucessão de coincidências trágicas abateu-se sobre a Colegiada de Guimarães.

Em finais de Junho de 1808, quando marchava de encontro aos franceses, na retaguarda do heróico Batalhão de Privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira, o Cónego Francisco de Góis, tombou fulminado por um tiro de bacamarte que lhe trespassara o coração. A morte do cónego causou certa admiração, já que na altura não se viam franceses por perto. Quando fez o auto do óbito, ao observar a trajectória da bala, o cirurgião da tropa perguntou se o reverendo marchava às arrecuas. Responderam-lhe que não. Houve quem jurasse que o tiro não tinha partido do inimigo.

Algum tempo depois, ainda naquele ano, Jerónimo, criado do Mestre-Escola da Colegiada Dionísio Vicente, envolveu-se numa rixa à porta do botequim do Quatro-Olhos. Quando acudiram aos seus gritos, deram com ele já sem sinais de vida, tombado de borco numa poça de sangue.

No dia 4 de Janeiro de 1810, Celestino Ventuzelas, sacristão da Colegiada, quando começava tocar as matinas, teve morte súbita, com o crânio rebentado pelo badalo do sino maior que, sem que se perceba como, se soltou antes que se escutasse a primeira badalada.

Ainda dois anos não eram passados, em Novembro de 1812, quando seguia a caminho da sua casa em Gominhães, o Cónego Alberto de Lemelhe foi atacado por um bando de salteadores. Morreu de morte lenta, esvaindo-se em sangue com uma faca espetada no ventre.

Por essa altura, o capinha da Colegiada Martinho do Santo Espírito começou a das mostras de grande perturbação. Passava os dias prostrado de joelhos na Igreja, a rezar, entre choros e gemidos. Nas ruas, andava em passos assustado, como se tivesse medo da sua própria sombra. Dizia que estava amaldiçoado. Quem o via, diria que tinha ensandecido. Andou desaparecido para cima de uma semana. Até que apareceu a boiar no fundo de um poço, na Madroa. Quase ninguém teve dúvidas: na sua demência, pusera fim à vida que se lhe tornara num fardo insuportável. Só ninguém explicou porque é que tinha as mãos atacadas atrás das costas.

[a continuar...]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - II

[… continuado de aqui]

Meados de Dezembro de 1807, tempos de desassossego em terras de Portugal. Era madrugada, já longe na noite, mas ainda distante da hora do galo. Um manto de névoa estende-se no horizonte, envolvendo as silhuetas descobertas pelos fios esparsos da Lua Cheia que se escoavam por entre nuvens com prenúncios de dilúvio. O cego de S. Domingos, de orelha alerta, escuta, por entre o murmúrio da água que escorre das bicas do chafariz, o rumor da terra escavada. Há horas que escavam, revezando-se uns aos outros. A certa altura, ouviu o som metálico da lâmina da enxada a percutir em pedra. E uma voz surda, como que vinda do fundo de um poço: aqui já só tem pedra, ajudem-nos a subir. Não tardou muito, e o cego escutou distintamente o mesmo som seco que lhe chegava aos ouvidos no cemitério do Campo Santo, o som do caixão quando desce à terra, seguro por cordas. Não tardou muito, ouviu, três vezes, madeira a bater pesadamente sobre madeira. Depois, continuou aquele estranho ritual com ressonâncias fúnebres: primeira o eco da terra a cair sobre o caixão de madeira, a que se segue o som abafado de terra despejada sobre terra. Agora, a laje, ouviu sussurrar, com os seus ouvidos de cego. Àquela distância, conseguia perceber distintamente as vozes de oua-ei, oua-ei. Contou seis vozes diferentes, pouco mais do que gemidos abafados, acompanhando um pesado arrastar. Até que pedra bate em pedra. Está feito, ciciou alguém, vamos embora. O cego pressentiu passos pesados que se espalham em diferentes direcções. Se pudesse ver, teria visto seis vultos furtivos, carregando grandes cestos cheios de terra, cada qual seguindo por seu caminho. O dia não nasceria sem que uma chuva impiedosa caísse sobre a vila, encharcando a grande praça e formando regos que escorriam pelo inclinado do terreno, arrastando vestígios de terra revolta em direcção contrária àquela de onde os primeiros sinais do dia começavam a despontar.

[a continuar...]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - I

Desafiam-me para que desvende "o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural". Hesito em fazê-lo, pelo muito que estimo a minha pele. A verdade é que existe, mesmo, um segredo por trás da intenção de construir um túnel e um parque subterrâneo no Toural. Um segredo velho de dois séculos, que já fez escorrer sangue, muito sangue, suor e lágrimas. É uma trama muito enredada, porém fiel e verdadeira, com ingredientes de ganância, traição, loucura e morte, salpicada com uma pitada de sexo e envolvida em muita, muita violência. Já esteve escondido na manga dum padre, na barra da saia de uma meretriz e entre as páginas do Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades, composto por frey Pantaliam Daveiro. Por ele, já se cometeram os crimes mais nefandos, já se matou e já morreu mais de uma mão cheia de homens. O que está por trás da intenção de esventrar o Toural é um terrível pecado, do rol dos sete pecados mortais: a cobiça. Assim que me puser a recato, explico-vos porquê.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Almoços Grátis Também Se Pagam ou a Soltura e o Fantasma

É o que dá o Natal. Este ano, comecei a via sacra das ceias ainda Dezembro ia no princípio. Depois da vigésima, o acumulado do bolo-rei, das rabanadas e dos mexidos mexeu-me com as entranhas, e vi-me constrangido a imitar o Olaf Oleiros quando vai fazer exames. Vinha eu a subir pela antiga rua das Oliveiras, onde agora tem a sua graça o zarolho que escreveu Os Lusíadas, quando começou a guerra intestina. Mal deu tempo de chegar às gloriosas retretes públicas que encimam a mais poética das artérias da cidade, onde fui recebido com a notícia de que, por força de uma momentânea ruptura no aprovisionamento, havia falta de papel higiénico. Mas não tem problema, sossegou-me a gentil senhora que me deu a novidade, arranja-se aqui um papel que serve muito bem para o efeito. Contrafeito (mas que havia eu de fazer?) agarrei nas folhas de jornal que me eram estendidas e fui-me ao serviço.

Como o desarranjo dava mostras de demorar, à falta de que fazer, deu-me para ir lendo os despojos do jornal que tinha entre mãos.

Foi então que me deparei com uma notícia, que não era bem uma notícia, nem era bem uma crónica, nem era bem um texto de opinião, nem sequer era bem uma reportagem, nem qualquer outra coisa que eu seja capaz de classificar, assinada por ninguém, e que falava de certos prós e contras acerca do Toural, onde terá estado, de um lado, “um dos autores da proposta de transformação do Toural para o século XXI” e, do outro, “a sociedade civil, alegadamente organizada para bater o pé às ideias de mudar o aspecto, tirar as árvores, logo impedir que haja um parque de estacionamento subterrâneo”. Alegadamente, a coisa prometia.

O ghost writer começa com um lamento: o debate foi curto e não permitiu “tentar um compromisso entre as duas tendências que se começam a cristalizar”. O que importa, diz o fantasma, é “ter uma mente aberta, no estilo inglês”. E, como quem não quer a coisa, vai dando um ralhete ao autor do projecto do Toural para o século XXI: bem que “podia ajuntar mais argumentos em favor da proposta de revolução que propõe”. E aproveita para atirar um, de sua lavra: “a praça manterá a sua afeição porque não podemos esquecer que o Toural também são os prédios à volta, os estabelecimentos comerciais, a igreja de S. Pedro e as pombas!”. Sim, meus caros, as pombas, as malditas pombas que cagam tudo, também são Toural!

Depois de ficar a saber que, do lado dos prós, também esteve o enigmático senhor F., descobri que a “voz dos contras” tem “ideias polémicas”. A “mais notável”, é a inaudita lembrança de deixar o trânsito a circular no Toural, “quando é evidente que há uma maioria de vimaranenses que não enjeitaria ver o automóvel dali para fora”. Pois é, além de fantasma, o escriba também é bruxo: tem uma bola de cristal com que mede, até à evidência, a opinião dos vimaranenses.

E mais não li. Já mais aliviado, dei às folhas do jornal o muito justo destino que lhes estava traçado. Serviram na perfeição, não obstante alguma aspereza.

E fui para a praça, com a mente aberta, no melhor estilo inglês, claro, dar milho às pombas. Afinal, elas também são Toural.

PS: Será que alguém (o Honoré de Balazar, que é tão dado aos mistérios, por exemplo) desvenda o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Vida Não Está Fácil...

Estamos no Natal e, por isso, quase no fim de mais uma ano... 2007 foi perfeitamente idêntico a 2006 e, quer-me parecer, não será muito diferente de 2008... uma valente merda...
Permanecemos o país adiado de sempre, se convergimos é porque os outros crescem menos, se progredimos é porque os demais estão parados. Ninguém tem dinheiro e, apesar disso, gasta-se em média cerca de 1000€ por segundo nos últimos dias, segundo estatísticas televisionadas... Claro que se vão pagar, sabe-se lá a que custo, mais tarde...
É pena porque eu até nem desgosto de ser português. Às vezes tenho é a sensação, muito nítida, que, algures na distribuição das coisas, fui enganado.
Seguimos assim: patetas alegres que vivem o presente e nunca pensam no que há-de vir. Novos ricos, parolos, armados ao cagalhão.
Um país, cada vez mais de doutores que não sabem de nada. As novas oportunidades são uma fraude, o ensino é uma burla e qualificada. Contam os números e não os conteúdos. A ministra é uma saloia mal educada, no fundo, um representante típico do resto. Um país mal educado e mal criado!
Um poço de oportunidades perdidas, de estupidez, de reformas adiadas ou de fachada. Em que os fins justificam os meios, a cheirar a arranjinhos e incompetência e diplomas de treta. Um país que premeia a mediocridade e valoriza a esperteza e não a inteligência.
Caminhamos a passos largos para um abismo, temo, e, pior, vamos a cantar e rir, inconscientes.
Apesar de tudo, tenham um Feliz Natal... o pior são os outros 364 dias...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Crestomatia Vimaranense - 3

Do baú de Licínio Longuinhos, tio-avô da minha mãe, resgato mais um texto, especialmente dedicado ao Guy Marais e ao Aldo Nim, na esperança de que lhes sirva de escarmenta. Eles que tomem tino com o que andam para aí a dizer e que se cuidem, tomando como exemplo o Burgo Podre que, apesar do muito que prometia, morreu ao segundo número.


UMA EXECUÇÃO NO TOURAL

Já fizemos testamento, Senhores!, de há muito, que a nossa alma livre de pecado anda encomendada a Deus.

Podem, pois, quando lhes aprouver, deliciar Guimarães com o espectáculo medieval da nossa execução no Toural, amarrados às grades como a pelourinho, no trajo vermelho de vilões ruins.

Chicoteiem-nos a valer, retalhem-nos as carnes a tangateadelas bem zurzidas, façam espirrar, da nossa pele quente do sol, sangue, muito sangue capaz de saciar toda a sede de vingança dos vossos rancores, sangue em abundância que regue as flores do Jardim, que murcharão porque temos na alma o veneno maldito. Venham todos, as classes mais nobres e a mais baixa ralé, ver o castigo duns malvados que ousaram, na Terra de Guimarães, dizer a verdade, apregoar a verdade, imprimir a verdade! Venham as medrosas, as donzelas castas e honestas, que amam os seus namorados e que adoram o seu gato, venham gritar aos ouvidos dos supliciados que são puras como as flores e lindas como os anjos; venham os burgueses sarcásticos, magros ou gordos, idiotas, dizer-nos que são honestos como a honestidade, bons como deuses e castos como o manda a Santa Madre Igreja; venham, línguas daninhas, homens da elegância e do café, reclamar para si a fidalguia do talento, a nobreza do espírito, a inteligência da galanteria...

Venham, venham! E puxem com alma os chicotes, azorraguem, malhem, cevem-se nas nossas carnes roxas e trituradas.

Eh! fartar vilanagem!...

Assim nos ameaçaram.

Em tom formal e aflautado, na Tabacaria Lemos, jurou um homem que chafarica em vários artigos e piadas:

Dou a minha palavra de honra que não se publica o n.° 2.° do «Burgo Podre»!...

E o n.° 2.° cá está para lhe berrar bem alto: – não tens palavra, pobre diabo, a tua honra vale tanto como os teus chinelos! –

E a este, seguir-se-ão novos números, havemos de continuar, doa o que doer, porque, tendo-nos abrigado pelo estudo à lei, queremos que se sanem as misérias e se desinfectem as podridões que são deste ou daquele, de António ou de Bento, de Paula ou de Gracinda, que são daqueles que as tiverem. Não apontamos nomes, não ferimos individualidades — a nossa obra é geral, construída sobre a realidade, na sujeição à natureza, na independência do pensamento. Marcámos a fogo o estigma do crime, e quem quiser que enterre a carapuça.

Acham desabrida a linguagem? Ouçam o talentoso ironista Fialho de Almeida: – “Na literatura, princesas, não há nem pode haver palavras sujas. O que há é assuntos sujos, assuntos pulhas, deletérios assuntos, que os escritores não inventam, e fazem parte do dia a dia da cidade, assuntos enfim de que a linguagem escrita é apenas o impreterível sinal gráfico. Consequentemente o pudor feminino tem apenas, como meio de impedir que os panfletários escrevam plebeísmos, o evitar que a sociedade seja menos torpe, e os seus maridos e irmãos menos canalhas.”

Não endireitamos o mundo? Somos loucos? Bem-fadada a nossa consciência, sereno o nosso sono – roncámos talvez menos que vós.

Ameaçam-nos? Querem bater-nos? Coragem. Vai a cacete? Seja!

Eduardo de Almeida e/ou Alfredo Pimenta

(copiado de O Burgo Podre, n.º 2, 1902, que, depois deste, nunca mais viu a luz do dia.)

Pedagogia no Ensino Secundário: Novos Horizontes

Só ontem me chegam ecos de uma participada conferência sobre o Toural na "futura presente está quase lá fundação" Martins Sarmento. Ecos esses informam-me que da janela deste café será visível um tunelinho, mínimo e provinciano, antónimo de uma certa ideia de grandeza que, como se sabe, apenas existiu em Guimarães há mil anos atrás. Pelos vistos, o dito tunelinho começa já dentro do Toural e acaba duzentos metros à frente. Três perguntas brutalmente lógicas impõem-se: a primeira é "se é desse tamanhinho, para que raio é que o vão fazer?; a segunda, variante da primeira, é assim: "dito de outro modo, porque ides vós estoirar balúrdios para algo tão micro?" A terceira, mais realpolitik é "porque não rebentais orçamentos e fazeis algo grandioso entre a Conde Margaride e Covas, ganhando facilmente as próximas eleições?". Porém, e antevendo o sepulcral silêncio a estas respostas, outras questões, mais gerais e pensativas, se levantam: haverá alguém em Santa Clara que, dotado de clarividência e visão de futuro qb, pense em fazer obra para mais de dez anos? Já não aprenderam com a circularinha, a estaçãozinha de comboios de Liliputarães, com o quase-tunel da Rodovia ou com o Centro Concelhio de Carcinoma Pulmonar que é a Estaçao de Camionetas a Céu Coberto? Leram aquela parte do livro de História que falava do Espírito Pombalino, daquilo que o Marquês terá dito quando rasgou a Avenida da Liberdade em Lisboa? Fontes Pereira de Melo diz-vos algo? Aparentemente, a resposta é negativa. Pelos vistos, o estigma da pequenez provinciana e despesista é rei e senhor: fazemos obra minúscula, daqui a cinco anos queixamo-nos que já não serve, daqui a dez voltamos a estoirar balúrdios para servir por mais cinco. E nós pronto, dançamos o vira, vamos às compras, é Natal e queixamo-nos ai! coitadinhas das árvores.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Uma Ideia Brilhante

Estava eu na casa de banho a defecar sossegadamente quando tive uma ideia brilhante. Este jogo de contrastes entre defecação e brilho pode parecer contraditório mas não é. Quando me formei em 1971 em Ciências do Bom Senso na Universidade Autónoma do México tive, como qualquer aluno, algumas dificuldades em certas e determinadas cadeiras: os chamados cadeirões. Chumbava sistematicamente e ia sempre para casa numa enorme aflição…O nervosismo dava-me a volta a barriga. Curiosamente reparei que era quando me encontrava em casa a aliviar o corpo da carga nefanda (que todos transportamos) que conseguia resolver os problemas que me tinham sido colocados no exame (do qual tinha desistido poucos minutos antes). Foi aí que passei a ir de fraldas para os exames.

Voltando àquilo que me levou a escrever este texto, devo dizer que enquanto defecava e lia um conhecido jornal local (cujo nome por pudor não vou referir) tive uma ideia para 2012. Porque não aceitar a vídeo vigilância em Guimarães e fazer um festival de curtas?

Vou-me explicar melhor: podíamos aproveitar a vídeo vigilância para atribuir alguns prémios aos frequentadores/acontecimentos do Centro Histórico. Os ditos prémios podiam dividir-se em diversas categorias tais como “o maior bêbedo”, “a maior bebedeira”, “ a discussão mais longa entre o presidente da câmara e o Zeca Paulo”, “ a discussão mais longa entre o Zeca Paulo e a polícia municipal”, “a missa mais concorrida da Oliveira”, “o maior número de pessoas que olharam para uma gárgula numa Igreja”, etc.

Podem pensar que eu estou a brincar mas não estou. É que estamos quase em 2012 e não é com velinhas na rua de Santo António que vamos lá.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Notícias e Árvores Podres

Aos que me acusam de dedicar um carinho especial ao jornal ainda conhecido por O Povo de Guimarães, eu tenho que confessar que estão com a verdade, mas não com a verdade toda: sou entusiasta de todos os órgãos da imprensa local, sem excepção, mas também de outros com vocação menos paroquial. Para exemplificar, direi que considero o JN um must e que aprecio, muito em especial, a inusitada criatividade que perpassa pelas notícias referentes à nossa querida terrinha. Cada notícia, por pequena que seja, é um monumento ao rigor e à objectividade. Se não perco uma, dou-vos duas (podendo dar-vos três, ou quatro, ou dezassete), a propósito do PUDAPECST*:

Logo à primeira, o JN atirou a intervenção projectada para o Toural para um patamar inesperadamente elevado, colocando-a no lápis de um arquitecto de projecção mundial, quando proclamou a Revolução no Largo do Toural com a assinatura de Siza. Consta que Álvaro Siza não sabia de nada.

Agora, revela que, num debate havido há dias na rua Paio Galvão, um dos autores do projecto (que não o Siza, que, incompreensivelmente, não apareceu) anunciou que o traçado previsto “preserva elementos da identidade do Toural (pequenos jardins, o chafariz)” e que as árvores do Toural "estão podres". O arquitecto, a estas horas, ainda não deve saber que disse aquilo.

*Processo Urbano de Discussão Arquitectónica e Paisagística Em Curso Sobre o Toural

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Calças de Ganga: com fecho éclair ou com botões? Um dilema dos Tempos Modernos

Uma das realidades fácticas que mais me deixa nauseabundo é a falta de indicações rodoviárias para Guimarães, vulgo placas, em diversas cidades do Norte de Portugal, sendo este - e para este efeito - compreendido entre Chaves e o Porto. Para outras localidades, há placas. Para Guimarães, não. Ora, se isto me é indiferente em Vagos, Aveiro, já me não é em Ponte de Lima, Viana, Barcelos, Gerês, Caminha e Valença. Pelo contrário: até me revolta um pouco não ter indicações que me ponham no bom caminho. Sinto-me, igualmente, deveras incomodado pelo facto deste assunto não merecer o destaque político necessário, caindo nas turvas águas do olvido. Talvez não interesse aos produtores de placas e à entidade tutelar das redes viárias: é que o preço da placa acaba por ser elevado (em comparação com os clássicos Braga, P. Lima, V. Castelo) dado o número de caracteres que tem Guimarães (nove mais til), acrescido daquele símbolozinho do património da humanidade, sempre complicado de se fazer. Como em Bartleby, exclamo Ah, Guimarães! Ah, Humanidade!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Silogismo

Luciano não quis a auditoria às contas do Vitória. Foi bom para o Vitória, que fica com as contas auditadas. E sem Baltar.

Luciano quis uma nova sede para a ACIG. Foi péssimo para a ACIG, que ficou sem sede. Mas com Baltar.

Luciano quer videovigilância no Centro Histórico de Guimarães. É óptimo para os inimigos do big brother, que ficam sossegados. Apesar de Baltar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Com Pseudónimos? Cruzes!

Há leituras que não se perdem. Direi mesmo: há leituras imperdíveis. Eu, por exemplo, não perco os jornais de Guimarães. Aprende-se muito com eles, até na publicidade mais anódina, que tem, não raras vezes, muito sumo à espera de ser espremido. Hoje, ao folhear a gazeta da rua de Gil Vicente, houve algo que me bateu forte, preenchendo o meu coração de alegria e contentamento. Uma nova coluna, encimada pela mão que acaricia o rato, com um título galvanizante e inspirador: Blogosfera em Guimarães. É o futuro a bater à porta, um pequeno passo para um jornal, um salto de gigante para a humanidade. Desci pela coluna abaixo. Ao chegar ao rodapé, encontrei uma prevenção: “Não serão publicados excertos de blogues não identificados, ou com pseudónimos”. Deu-se-me um nó na moleirinha. Então, ele agora há blogues não identificados? Blogues com pseudónimos? Os blogues têm nome de baptismo e inscrição no registo civil? Se não têm, deveriam ter, pensei com os meus botões; se os há anónimos ou com pseudónimos, então que sejam castigados exemplarmente, responderam, a uma só voz, os meus botões. Homessa!, quem se julgam esses tais blogues para ousarem usar pseudónimos? Um blogue com pseudónimo não é mais do que um pseudoblogue. Bem feita! Têm o castigo que merecem: pseudónimos, não entram naquele jornal, tão preclaro, transparente e imaculado nos seus princípios, que jamais se transformará num pseudojornal, como o atestam nomes como Pedro de Vimaranes, Carlos d’Além, João de Ponte, o sigiloso Polo X, o famigerado Artur Monteiro, o bom do Miguel de Montepuez, o nosso muito amado futuro líder e guia espiritual Olívio Chamado e tantos outros dos que têm passado por aquelas páginas.

Psst!, ò faxavor, alguém me indica onde fica o registo civil dos blogues?

O Dumping numa Sociedade Altamente Concorrencial

Mais do que um mero exercício de sátira e crítica social, as Danças Nicolinas assumem-se, ano após ano, como um género de humor próprio, distinto dos seus semelhantes. É, claramente, um género de humor vimaranense - como o há inglês- com laivos de incontida grandiosidade, tal como a cidade onde é feito, a roçar a brejeirice sem nunca lhe tocar "de boca cheia" como Herman, mais cínico que a cócózinha Revista à Lisboeta, às vezes cru e bruto como o granito, outras vezes leve e delicado como a vinha. Algo sempre quase no vértice do rebentamento, do descambanço. Pena, claro, que não haja mais focos de produção deste tipo de humor para que o epíteto dado na segunda frase deste texto, a negrito e em itálico, fizesse sentido plenamente.
Ontem, ao descer a Avenida, cortado pela leve névoa, sorria ainda com a mestria do que acabara de ver. Como em Bartleby, vociferava, imperceptivelmente entre dentes, Ah Guimarães! Ah Humanidade!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Moisés-Mirim e a Entorse

Moisés (Moshe para os idumeus) era um hebreu barbudo, criado na corte dos faraós do Egipto, que, certo dia, se retirou para o Monte Sinai, para meditar. Aí, julgou-se insuflado por uma revelação, que lhe terá insinuado que deveria conduzir o seu povo à Terra Prometida. Juntou o rebanho dos hebreus ciosos de regressarem à Palestina, e lá foi, rumo a Canaã. Andou, andou, andou. Andou perdido pelo deserto durante quarenta anos. Morreu, já velhinho, sem chegar ao destino. Conta-se que, na hora da morte, terá dito: “perdoai-me, se vos fiz errar no deserto, mas a culpa foi da entorse”. O sentido destas palavras permaneceu um mistério que atravessou trinta e três séculos ou mais. Até hoje, dia em que Moisés, mais nanico do que o representou Michelangelo Buonarroti, mas redivivo na virescência das suas barbas proféticas, no seu cirandar vão pelo deserto, rumo à reitoria prometida, mas nunca alcançada, explicou que a entorse milenar tinha sido a criação do curso de Geografia no pólo de Azurém da Universidade do Minho. E, aprontando-se para o conduzir para a Canaã prometida, ergueu o dedo e apontou na direcção da terra inominável que fica a seguir à Morreira.

Esta é uma parábola onde se demonstra que os de Guimarães são gente tranquila, pacífica e tolerante, já que, até ao momento, não há nenhum indício de que Moisés se tenha retirado com uma entorse no pescoço.

Deus, Dante Alighieri e Eu

Uma das inexistências que mais me confunde na cidade de Guimarães, e que contribui para o adensar da dúvida se somos realmente uma pequena cidade com alma de vila ou uma grande vila com pulsar citadino é, como se afigura tão óbvio, a de restaurantes e lojas de conveniência de origens turca, israelita ou, quando muito, de qualquer ponto do próximo oriente, abertas até desoras matinais. A sua existência não tão só salvaguardaria os direitos de todos aqueles que apreciam comer, na sua cidade, um bom kebab a horas ou fora delas, bem como seria um bom tónico urbano para quem já está farto de ir a bouças e veigas comer a falsificada francesa. Incentivem-nas, oh, quem de direito. Venha o Serkan Yavuz Kebab do Alto da Bandeira.