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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Crestomatia Vimaranense - 3

Do baú de Licínio Longuinhos, tio-avô da minha mãe, resgato mais um texto, especialmente dedicado ao Guy Marais e ao Aldo Nim, na esperança de que lhes sirva de escarmenta. Eles que tomem tino com o que andam para aí a dizer e que se cuidem, tomando como exemplo o Burgo Podre que, apesar do muito que prometia, morreu ao segundo número.


UMA EXECUÇÃO NO TOURAL

Já fizemos testamento, Senhores!, de há muito, que a nossa alma livre de pecado anda encomendada a Deus.

Podem, pois, quando lhes aprouver, deliciar Guimarães com o espectáculo medieval da nossa execução no Toural, amarrados às grades como a pelourinho, no trajo vermelho de vilões ruins.

Chicoteiem-nos a valer, retalhem-nos as carnes a tangateadelas bem zurzidas, façam espirrar, da nossa pele quente do sol, sangue, muito sangue capaz de saciar toda a sede de vingança dos vossos rancores, sangue em abundância que regue as flores do Jardim, que murcharão porque temos na alma o veneno maldito. Venham todos, as classes mais nobres e a mais baixa ralé, ver o castigo duns malvados que ousaram, na Terra de Guimarães, dizer a verdade, apregoar a verdade, imprimir a verdade! Venham as medrosas, as donzelas castas e honestas, que amam os seus namorados e que adoram o seu gato, venham gritar aos ouvidos dos supliciados que são puras como as flores e lindas como os anjos; venham os burgueses sarcásticos, magros ou gordos, idiotas, dizer-nos que são honestos como a honestidade, bons como deuses e castos como o manda a Santa Madre Igreja; venham, línguas daninhas, homens da elegância e do café, reclamar para si a fidalguia do talento, a nobreza do espírito, a inteligência da galanteria...

Venham, venham! E puxem com alma os chicotes, azorraguem, malhem, cevem-se nas nossas carnes roxas e trituradas.

Eh! fartar vilanagem!...

Assim nos ameaçaram.

Em tom formal e aflautado, na Tabacaria Lemos, jurou um homem que chafarica em vários artigos e piadas:

Dou a minha palavra de honra que não se publica o n.° 2.° do «Burgo Podre»!...

E o n.° 2.° cá está para lhe berrar bem alto: – não tens palavra, pobre diabo, a tua honra vale tanto como os teus chinelos! –

E a este, seguir-se-ão novos números, havemos de continuar, doa o que doer, porque, tendo-nos abrigado pelo estudo à lei, queremos que se sanem as misérias e se desinfectem as podridões que são deste ou daquele, de António ou de Bento, de Paula ou de Gracinda, que são daqueles que as tiverem. Não apontamos nomes, não ferimos individualidades — a nossa obra é geral, construída sobre a realidade, na sujeição à natureza, na independência do pensamento. Marcámos a fogo o estigma do crime, e quem quiser que enterre a carapuça.

Acham desabrida a linguagem? Ouçam o talentoso ironista Fialho de Almeida: – “Na literatura, princesas, não há nem pode haver palavras sujas. O que há é assuntos sujos, assuntos pulhas, deletérios assuntos, que os escritores não inventam, e fazem parte do dia a dia da cidade, assuntos enfim de que a linguagem escrita é apenas o impreterível sinal gráfico. Consequentemente o pudor feminino tem apenas, como meio de impedir que os panfletários escrevam plebeísmos, o evitar que a sociedade seja menos torpe, e os seus maridos e irmãos menos canalhas.”

Não endireitamos o mundo? Somos loucos? Bem-fadada a nossa consciência, sereno o nosso sono – roncámos talvez menos que vós.

Ameaçam-nos? Querem bater-nos? Coragem. Vai a cacete? Seja!

Eduardo de Almeida e/ou Alfredo Pimenta

(copiado de O Burgo Podre, n.º 2, 1902, que, depois deste, nunca mais viu a luz do dia.)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Crestomatia Vimaranense - 2

Se nenhum atrevido, dos que têm a mania de se atreverem, por falta de que fazer, ousará negar que todo o tempo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades, além de que atrás de tempos, tempos virão, existem evidências que nos levam a acreditar que ele há coisas que, mesmo mudando o tempo, nunca mudam e são sempre como de costume. Pelo menos em Guimarães, como já veremos, no Capítulo II da antologia da alma vimaranense:


O “Pinheiro”

A pedido de vários bicos e bicas publicamos a seguir o relato deste tocante e bombástico cortejo académico:

Hoje, ao romper do dia, a cidade acordará estremunhada pelo estampido formidável de uma girândola... de bichas de rabusco. (Só ouvirão o estrondo aqueles que estiverem na graça da “Ortiga”; isto é, todos os que tiverem cumprido com a sua obrigação, assinando o nosso jornal e pagando a sua assinatura adiantadamente, e sem refilar)…

Pouco a pouco ver-se-á algum povo pelas ruas, outro pelas ingreijas, outro em casa ainda a ferrar o galho, outro a comprar e a vender, na praça do mercado, etc., etc., etc. e tal…

Pela tardinha, alguns estudantes percorrerão as ruas do burgo, todos contentinhos e sem lhes caber uma fajeca, a bater em caixas e a bater em bombos, rijamente, numa grande reinação. E haverá Manéis e Manelas a olhar para aquilo tudo, espantados, com os olhos abertos como a Porta da Vila, como se nunca tiveram visto…

À noite, mais ou menos pelas horas do costume, virá, mais ou menos do sítio do costume, um pinheiro, do tamanho mais ou menos do costume, num carro que será puxado pelas juntas de bois mais ou menos do costume; e seguirá o itinerário do costume, até ao local do costume, onde será prantado ao alto, como de costume. (Quem não souber o que é do costume, é... como quem não vê: mas em chegando logo a noite já fica a saber tudo – se quiser –, nem que seja tapado como um calhau e mais burro do que um jumento). À frente do pinheiro irão, como do costume, algumas caixas e bombos (este ano espera-se que o número de tocadores cresça... a metade com outros tantos); e atrás levará a música, atacando a sinfonia do costume. Etc. etc, etc. Haverá bastantes senhoras pelas janelas dos prédios; e, pela rua fora, muita gente a andar com os pés, e vários basbaques parados a ver (isto, está claro, sem ofensa, e não desfazendo em quem está presente; nós também lá estaremos).

Depois da chegada do bicho, que virá como um cadáver morto estendido ao comprido, será servida aos lavradores uma ração de broa, figos (não confundir este termo), e não sabemos que mais. Os boizinhos mascarão em seco… a fresquinha, o taro, o basqueiro; e os donos engavetarão para o saco, como uns alarves. É esta uma função muito interessante: tão interessante, tão interessante, tão interessante, que até há criaturas que morrem de pasmo a presenciá-la.

Nesta noite também é costume aparecerem bastantes palermas, que agarram na maçaneta e se fazem passar por académicos: por isso recomendamos cuidado com as falsificações... Depois, às tantas da madrugada, terão lugar as clássicas vòvedeiras… (cada uma, de tremer céu, terra e mar)... E assim terminará a chegada triunfal do “pinheiro”.

[Dos recortes do meu tio Desidério Galhardo. Este texto saiu originalmente no jornal A Ortiga, n.º 2, ano 1, 29 de Novembro de 1925, mas que bem podia ser publicado no Notícias de Guimarães de amanhã, no Expresso do Ave do ano que passou, no Povo de Guimarães do ano que virá ou no Comércio de Guimarães de 1898.]

sábado, 24 de novembro de 2007

Crestomatia Vimaranense – 1

Mais valia nunca do que tarde, mas encontrei, finalmente, a minha vocação. Despedi-me do mundo e tornei-me num hikikomori, embora já um pouco passado da idade. De hoje em diante, ficarei confinado ao meu reduto doméstico, de onde não sairei a não ser arrastado pelo bigode, pelo menos até que o Verão volte. Para me distrair, nos momentos em que fazer nada não me baste, irei transcrevendo para aqui uma colectânea de textos sobre a alma vimaranense reunida por um tio-avô da senhora minha mãe, que recebeu os papéis em herança e que, vá-se lá perceber porquê, conseguiu resistir à tentação de lhes chegar o fogo que lhe incendiava os olhos sempre que se perguntava por que razão recebeu ela aquilo, enquanto que a prima Adosinda de Arões ficava com as cédulas do Banco Lisboa & Açores.

Aí vai o primeiro fascículo dos anais do pensamento vimaranense:


MORALIDADE AOS DOMICÍLIOS

Desde que pelo nosso direito constitucional se incumbiu a El-Rei a cerimónia abaritonada da abertura do parlamento por um discurso programa e desde que o jornalismo firmou como praxe sagrada a explanação retórica e sempre honesta do seu fim no número inaugural, o menu pertenceu de vez, como integrante, aos costumes nacionais.

Qualquer manifestação cerimoniosa da vida pública que se não inicie, em primeira solenidade, pelo cozinheiro, que declame quais os pratos de convicção, desassombro e independência que se vão servir, é uma manifestação desprezível e tacanha, quando não atentatória dos direitos deste povo.

Embora queiramos respeitar, em vassalagem, de cócoras, esse princípio da soberania popular, somos obrigados a confessar que, ao contrário de vós, Meus Senhores!, nos deixámos guiar cegamente pela nossa vontade — uma vez que reconhecemos a luta inaproveitosa de todas as doutrinas que contrariam o determinismo e estamos certos de que a irresponsabilidade criminal é o futuro da investigação jurídica.

Somos, pois, irresponsáveis.

Sabemos apenas, e é muito pouco, que nos determina um ódio insaciável à sociedade vimaranense que, a partir do seu símbolo até o mais fútil dos seus actos quotidianos. É a mais detestável, a mais hipócrita, a mais ignorante das sociedades provincianas.

Juramos-lhe um ódio de morte quando nos escorraçou do seu seio por termos a audácia da verdade, quando nos insultou por apresentarmos o nosso amor na praça pública, quando se nauseou do nosso monóculo, da nossa cabeleira, e, sobretudo, quando pensou que nós fazíamos na rua o que certa classe de homens fazem no teatro – representávamos a vida.

Mas, porque alguma coisa de útil deve ter o sangue da nossa mocidade, porque desprezamos sempre a opinião das vizinhas e a crítica desses jornalistas que tantas vezes temos topado nas mais asquerosa tavernas, nós vamos hoje fotografar, bem ou mal, os meios não importam, a podridão do burgo, o lixo desta terra, apontar-vos, Meus Senhores!, o conjunto de factos que vos fazem bandalhos.

Havemos de conseguir alguma coisa – porque a circunstância que vos impele o maior número de imbecilidades e de actos nojentos é a certeza, em que vivíeis, de que essas imbecilidades e essas coisas nojentas seriam desconhecidas.

Doravante os fracos, que vós roubais, e as mulheres, que prostituis, terão em nós uma defesa certa, um advogado gratuito – e por isso mesmo ignorado.

Aqui não há anonimato – nós saldaremos todas as contas, pagaremos todas as afrontas pelo único meio que conhecemos e que respeitámos – pela imprensa, pela escrita.

É certo que a vossa perspicácia descobriu como que uma contradição entre os nossos sentimentos de ódio e de defesa.

É que nós, no ódio de morte à sociedade, compreendemos também que Guimarães era o berço e o túmulo da nossa vida, o meio em que o fado nos levaria, um dia, para construirmos um lar; que em Guimarães vive talvez a nossa noiva e vive a nossa amante, e, sendo assim, nós carecemos de batalhar por elas com o mesmo entusiasmo com que, pelo trabalho, arrancámos à natureza o pão de cada dia.

E o meio mais razoável de castigar será, sem dúvida, como o disse Camilo e como numa folha volante, que vos magoou, escreveu um belo rapaz de um belo talento – «esta caneta de dez réis» – introduzindo-vos a moralidade em casa, levando-a lá como o carvoeiro vos leva o carvão e a lavadeira a vossa roupa limpa de manchas.

Eduardo de Almeida e/ou Alfredo Pimenta

(copiado de O Burgo Podre, n.º 1, 1902)