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sábado, 15 de março de 2008

Quero o Parque, Quero as Árvores, Quero Tudo

Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Guimarães,

Começo por me apresentar: sou o trigésimo sexagésimo quarto comerciante da zona do Centro Histórico de Guimarães e arrabaldes. Não me quis juntar aos 363 colegas que responderam ao inquérito da ACIG, por desejar comunicar-lhe de modo pessoal e intransmissível a minha opinião acerca do projecto do Toural.

Aqui vai ela.

Como não sou de enredos, nem enleios, nem gosto de dizer no fim o que posso dizer logo no princípio, direi que sou apoiante incondicional do parque subterrâneo no Toural, obra redentora e fundamental para a sobrevivência do comércio tradicional vimaranense. É que isto está mau, Senhor Presidente, muito mau. Nunca esteve tão mau, Senhor Presidente. Pior do que agora, só para o ano que vem. Isto está tão mau, tão mau, tão mau para o nosso comércio tradicional, que até a sex-shop do Toural, mal abriu, fechou portas.

Foi por isso que olhei para o projecto do Toural como uma luz ao fundo do túnel. A bem dizer, um túnel cheio de luz será ele, porque me dizem que vai ser o primeiro túnel a céu aberto do Hemisfério Norte. Quero o parque e quero mais. É necessário mais arrojo, Senhor Presidente, seja ousado e coloque os olhos na infinita dimensão do futuro. Um parque no Toural é pouco para tanto futuro. É preciso mais: um parque subterrâneo desde o Toural até ao fim da Alameda, isso é que será uma obra digna de um visionário.

Faça isso, Senhor Presidente, um parque subterrâneo que se veja. Mas deixe lá ficar as árvores, para que não lhe pese o arborícidio na consciência. É o meu coração ecologista que lho implora, Senhor Presidente. Eu e os meus colegas queremos o parque. Faça-o, mas sem mexer nas árvores.

Faça-o depressa, Senhor Presidente. De preferência, sem muito ruído e fora do horário comercial, para não nos perturbar o negócio. Nos entretantos, tenha a bondade de isentar estes seus munícipes das taxas municipais e comece a pensar num adjutório para os comerciantes por causa das perdas no negócio. Um subsidiozito vinha mesmo a calhar, Senhor Presidente.

Entretanto, aqui fica o aviso: caso decida seguir a opinião daqueles senhores que não têm dó dos pobres dos comerciantes, e que andam a dizer que os subterrâneos do Toural são um disparate sem ponta por onde se lhe pegue, vá-se preparando para desembolsar indemnizações compensatórias pelas expectativas frustradas ao comércio tradicional vimaranense.

Envia-lhe muito saudar, Senhor Presidente, este que se assina

Ya-xiang Yuan

(proprietário de uma loja tradicional de miudezas orientais de baixo custo, anteriormente conhecida por loja dos trezentos)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A Profecia da Capicua


Ou muito me engano ou o bando do Entrudo vimaranense de 1857, que encontrei aqui, foi soprado por certo sapateiro quinhentista das partes de Trancoso, que nos seus dias pelo nome de António Gonçalves Anes Bandarra. É dedicado aos da terra das frigideiras e de uns quantos pês que, nesse ano, por falta de diversão pela banda de lá (aqueles eram tempos em que a Bracalândia ainda não tinha sido inventada, nem desinventada), quiseram participar nas folias dos vimaranenses:

Os bracarenses a querer ter parte
(…)

(…)
Não digo que festa em Braga
É somente farelório,
Mas nem merece que em paga
Se aponte no reportório;
Vale tudo, bem pesado,
Trinta réis de mel coado.
(…)
Eis-nos pois na pátria vossa,
De gloriosas tradições,
Onde a névoa nunca engrossa,
Brilha gás nos lampiões,
E passeios e arvoredos
Convidam para os folguedos.
(…)

Ao ler a segunda sextilha que aí vai, não tive dúvidas de que este texto era uma premonição e um aviso, com exactamente 151 anos (notem bem a dimensão eminentemente profética da capicua). Passeios, lampiões, arvoredos, é do Toural que se fala, sem sombra de dúvida.

Felizmente, na pátria nossa, a névoa nunca engrossa, e o Toural jamais será uma tampa (com o perdão da palavra roubada, que é muito bem aplicada, mas não é minha).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Estocada ou Não Estocada, Eis a Questão.

“Aquele que quer que lhe dêem, tem de dar.”
S. Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena
*


1. Primeiro, li isto:

“Assim, sabendo-se como se sabe, do licenciamento em curso de algumas novas superfícies comerciais, todas elas apetrechadas com bons parques de estacionamento, é a altura mais do que oportuna para a Câmara apoiar o comércio tradicional.

[…]

Finalmente, mas não menos importante, uma requalificação do Toural sem parque de estacionamento, para além de significar a estocada final no comércio tradicional local, implicará necessariamente ser o nosso Município, isto é todos nós, a suportar os custos da referida intervenção. Pelo contrário, a concessão da concepção, construção e exploração de um parque de estacionamento no Toural significará, para além de uma ajuda primorosa e completa ao comércio local, um alívio completo na bolsa de todos, já que a entidade ganhadora suportará não só o custo do parque mas também de toda a intervenção nesse mesmo espaço.”

2. Depois, li mais isto:

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Guimarães (ACIG), Luciano Baltar, acredita que o impacto que a abertura de dois novos shoppings em Guimarães terá no comércio tradicional será reduzido.

E já não percebo nada.

Por não perceber, pergunto: quando aquele a quem compete a defesa dos interesses dos comerciantes diz o que diz, em 2, que interesses defenderá quem diz o que diz em 1?**

E pergunto mais: com base em que informações, privilegiadas, claro, é que, o que escreve em 1, explica, tão bem explicadinho, o modelo de negócio da intervenção prevista para o Toural, invocando uma “entidade ganhadora”, que “suportará não só o custo do parque mas também de toda a intervenção nesse mesmo espaço”, quando o responsável político por ideia tão subterrânea afirma que os projectos apresentados só serão realidade se obtivermos comparticipação do QREN. O orçamento municipal não chega?

E ouso mesmo perguntar: que nevoenta “entidade ganhadora” será aquela? Ganhou o quê? E quando? E como? E a quem?

Confesso que já me enjoa toda esta conversa sobre o Toural, mas, já agora, se não for muito o incómodo, será que alguém se dá à maçada de me responder?


* Citação furtada daqui.

** Aqui, na caixa de comentários, pressenti uma leve insinuação quanto à eventualidade de haver "proveito próprio" envolvido no assunto. Mas eu cá não insinuo, só pergunto. Porque há interrogações que me fazem espécie.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Terrorismo Político e Cabidela

Hoje o galo, o galo maldito, começou a cantar ainda mais cedo e ainda mais estrídulo. Tomei a resolução que antes já tinha tomado tantas vezes, mas que nunca consumara. De hoje não passa! Levantei-me, na cozinha peguei numa malga e na garrafa do vinagre. De faca afiada na mão, fui ao galinheiro. Pressentindo os meus propósitos galicidas, o cantador irritante desatou a cacarejar e a correr em todas as direcções, em círculos. Ao fim de trinta e sete minutos de perseguição, apanhei-o com um mergulho à Jesus, e, zás!, cortei-lhe o pescoço. Pendurei-o no estendal, pelas patas, com a malga por baixo, com boa quantia de vinagre, para a apanhar o sangue. Agora, ia poder dormir descansado e sonhar com a cabidela. No caminho de regresso a casa, com o instrumento da vingança na mão, vindos sabe-se lá de onde, saltaram-me em cima três, ou cinco, ou dezassete gorilas fardados de preto com as caras tapadas com passa-montanhas. Polícia, quieto! Num ápice, fiquei estendido de borco, com as mãos algemadas atrás das costas, e uma bota fincada no meu pescoço. Perguntaram-me o nome. Respondi. Ouço: É ele! Ao ver todas aquelas HK MP5 K apontadas ao meu pobre canastro, desato a encomendar a minha alma a deus e ao diabo. Se soubesse que matar um galo era crime tão grave, há muito que me teria deixado de cabidelas. Tartamelei uns gargarejos, na vã esperança de lhes explicar de onde vinha, de faca em sangue na mão. Alguém foi confirmar e confirmou. É verdade, chefe, está lá o galo. Vejo depois descerem da minha casa outros tantos gorilas de preto e caras tapadas. Tudo limpo, chefe, não encontrámos nada. Tiraram-me as algemas e, assim como apareceram, desapareceram. Com os motores dos carros a afastarem-se, levantei-me, espavorido, abismado e aturdido. Encontrei a casa de pantanas, tudo remexido.

Fiquei ali, sentado, horas a fio, a tentar perceber se estava acordado ou no meio de um pesadelo. Só agora encontrei uma explicação. Vinha nos jornais da terra. Cito um, com perdão pela falta de vírgulas:

O vereador começou por justificar que os projectos estavam ainda em fase de discussão pública, pelo que não se justificava qualquer parecer. Mas, perante a contestação da resposta por parte da vereadora que a recolocou atirando “como pode haver propostas para mexer na zona tampão do centro histórico classificado, sem um parecer do organismo local responsável pelo título”, Júlio Mendes não escondeu o nervosismo e perguntou “e como é que sabe que não há parecer?”

A contra-resposta provocou um diálogo mais aceso entre ambos tendo Ana Amélia obtido do vereador do PS a confirmação de que de facto não foi solicitado qualquer parecer ao ainda existente GTL. Mas à resposta Júlio Mendes acrescentou o comentário “isso é terrorismo político”, obtendo como resposta “não é não é trabalho de pesquisa. A Internet revela muitas informações”. Ana Amélia sugeriu a propósito “visitem os blogues onde estes assuntos são discutidos”.

Depois de dar uma volta pelos blogues indígenas, percebi que aquilo podia ser comigo, por causa disto. De repente, eu, que sempre tive razoável desarmonia ao terrorismo e forte alergia à política, vejo-me equiparado a agente de terrorismo político. Meus senhores, eu sou Honoré de Balazar, o das balazarianas! Não tenho nenhum fetiche por virgens, mesmo que sejam tantas como setenta e uma, e menos ainda se elas só vierem com disposição para me servirem depois de morto. Cá por mim, prefiro-as maduras e prefiro-me vivo.

domingo, 27 de janeiro de 2008

A Preguiça, ou os Efeitos da Picada da Mosca Tsé-Tsé no Urbanismo Índigena, ou a Jóia da Coroa que Já Era

Afinal, há quem, parecendo acordado, não perceba aquilo que eu, pobre diletante, cidadão distante, aborígene distraído, adivinho mesmo a dormir. Há dias, alguém perguntou aqui, num comentário, “que é feito de quem tem responsabilidades políticas, na situação ou na oposição?”. Acabo de encontrar a resposta. Leio no jornal de hoje que na oposição (pelo menos na maior fatia dela) se mergulha nos braços de Morfeu e se vota sem se analisar o que se vota. E que na situação (pelo menos na primeira figura dela) também se poderá andar a passar pelas brasas nas horas de expediente. Ou isso, ou o nosso alcaide foi acometido por um refinado sentido de humor que o leva a contar a piada do ano, a de que o mais prestigiado dos serviços municipais vimaranenses não perde autonomia ao tornar-se numa divisão acéfala de um departamento macrocéfalo. Um serviço que cuidava da requalificação do Centro Histórico e que apenas respondia directamente perante o Presidente da Câmara (que não tinha dúvidas em classificá-lo, muito justamente, como “a nossa jóia da coroa) que, primeiro, passou a responder perante um vereador recém-chegado, sem pedigree em matéria de centro histórico, e que, agora, passa a responder ainda mais abaixo, não perde autonomia? Perde autonomia, perde dignidade e, pior de tudo, parece que perdeu competências, já que deixou de ter voz activa na condução de projectos que são lançados sobre a sua área de jurisdição.

Pois é, andamos com soninho.

Entretanto, deve haver por aí gente bem desperta e, talvez, quem sabe, algo esperta.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

E Agora, Senhores Meus, o Euromilhões

E eis que, ao fim de tantos anos metido dentro da minha pele, me maravilho com uma descoberta sobre um lado de mim que desconhecia: tenho um dom, senhores. Eu não sonho, auguro. Eu não tenho pesadelos, tenho presságios. Eu adivinho!

Só não ainda adivinhei porque é que escolheram este preciso momento para quebrarem o selo de garantia do nosso Centro Histórico, outrora conhecido por GTL. Porém, suspeito que não deve ser preciso ser bruxo para desvendar tal segredo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Anjo da Guarda, Que é Feito de Ti?

Um destes dias, passando ao largo da Cervejaria Martins, cruzo-me com um grupo de aborígenes em discussão desabrida. O costume, pensei, o Vitória, o Cajuda, o Geromel e o Rabiola, talvez o fora-de-jogo, talvez o Pimenta. Enganei-me: era de obras que se falava. Alguém me atira: “E tu, ò Honoré, não dizes nada sobre o projecto?”. Respondi com o mais expressivo encolher de ombros de que sou capaz e segui caminho. Ouso confessar que tenho dormido descansado, apesar do alarme público que invadiu a cidade por causa do que se anuncia para o Toural. Sei que, ao longo do processo de requalificação do Centro Histórico de Guimarães, tão louvado, premiado e galardoado, a cidade acrescentou novos elementos ao seu património, entre os quais se inclui o GTL, serviço que, pela reconhecida excelência do seu trabalho de preservação/reposição da autenticidade dos modos de intervir no património, granjeou respeito internacional, tornando-se num case study no meio académico de Portugal e arredores. Portanto, dormia eu descansado porque sei que há gente sabedora e de confiança a velar pela cidade. Dormia, disse, mas esta noite não dormi. Em plena madrugada, ainda o galo não cantara, acordei sobressaltado, suando frio, com tremores, com palpitações e com uma ideia insólita a zumbir-me na mioleira. Levantei-me, molhei o rosto, verti águas e voltei para o quentinho dos lençóis. Tinha sido um pesadelo: claro que não tinham acabado com o GTL. Mas amanheci atordoado com uma premonição funesta. Para a afastar, pus-me a pensar, o que raramente faço. A conclusão a que cheguei agravou o meu estado de ansiedade: em tanto que se tem falado sobre os projectos para Guimarães, não temos tido sinais de vida dos técnicos a quem compete a tutela do programa de intervenção no Centro Histórico classificado com o título da UNESCO e todo o espaço que baptizaram, Deus os perdoe!, de zona tampão. Ainda antes do mata-bicho, fui a correr à Rua Nova, antigamente bem mais airosa com aquelas raparigas alegres e gentis que ali ofereciam os seus préstimos aos pobres necessitados. Lá estava a casa do GTL. Mas não estava o GTL. De uma varanda ao lado, uma velhinha, com poucos dentes e muita curiosidade, quis saber quem é que eu procurava. A minha resposta fez ricochete na dela: “Então não vale a pena bater. Eles já se foram embora há muito”. Começo a ficar apreensivo. Muito apreensivo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Boletim Meteorológico: Previsão de Melhorias

Certo dia, quando 2006 percorria o seu último quarto, começou a pairar sobre o Toural a sombra de uma névoa vagamente insinuante. Ainda o ano não era findo, a sombra adensou-se: a névoa podia passar a Névoa, disse-o quem não se esperaria que o dissesse. Correu um ano completo, e a névoa lá continuava a pairar, ameaçadora, afiando as garras, enquanto espreitava o momento de cair sobre a presa, aparentemente desarmada e adormecida na sua inocência. Até que se anunciou: é mesmo Névoa que bate à porta do Toural. Mas a presa, afinal, não dormia. Deu luta. Estrebuchou. Sacudiu a cerração. Agora, parece que o Céu já se desanuvia e que a sombra se começa a afastar do Toural. O Toural fica melhor, muito melhor, sem o manto de Névoa.

domingo, 30 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - VI

[… continuado de aqui]

Onde, finalmente, se desvenda "o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural".


α, que perseguia, no ranço dos papéis velhos, o rasto das invasões francesas em terras de Guimarães, não teve dificuldade em perceber de que tratava o escrito do Mestre-Escola.

Em Outubro de 1807, o D. Prior da Colegiada recebeu uma carta do príncipe regente em que mandava pesar e inventariar as pratas da Colegiada, para que fossem recolhidas nos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, Tomar ou Palmela. Esta ordem seria anulada por carta régia de 19 de Dezembro. Mas as pratas continuavam em risco, pelo que o Cabido decidiu esconder as mais valiosas, até que passasse a ameaça francesa. Foram introduzidas em quatro arcas de madeira, que se confiaram ao mestre-escola e a dois dos cónegos para que as colocassem em salvamento. Mas ninguém voltaria a pôr a vista em cima daquele tesouro: todos os que conheciam o seu esconderijo morreram antes que fosse resgatado, numa sucessão de trágicas coincidências, como se tivessem sido atingidos por uma maldição sinistra. Esta história é conhecida dos que, como α, conhecem a história da Colegiada de Guimarães.

Ao ler o que encontrou, α ficou dividido, entre a glória do descobridor e os acenos da cobiça. Como, dos humanos sentimentos, triunfam, em geral, os mais baixos, α tratou de esconder o papel e de congeminar o meio para chegar à prata.

No campo maior de correr toiros trinta e dous paços para lá da fonte na direitura do velho das barbas maiores hua grande lagem cimquo palmos por baixo da qual coatro caixoens com grande aver furtado aos gallicos aos vimte e hu de 10bro de oito cemtos & sete.

A mensagem era, afinal, clara como a água:

No Toural, a 32 passos do chafariz, na direcção para onde aponta uma das bicas onde está a cara de um homem com barbas grandes, debaixo de uma laje, a cinco palmos de profundidade, estão quatro caixões com um tesouro escondido dos franceses em 21 de Dezembro de 1807.

Com método e rigor cirúrgicos, α congeminou um plano quase diabólico. À primeira vista, havia duas dificuldades aparentemente insuperáveis: a primeira, era descobrir como desenterrar um tesouro escondido em plena praça pública sem atrair atenções indesejáveis; a segunda, porque o chafariz foi retirado do Toural há bem mais de um século, não era possível determinar em que direcção é que apontava o “velho das barbas maiores”: sendo o chafariz de configuração circular, a bica do velho poderia estar voltado para qualquer direcção. Só viu uma solução, que jamais poderia concretizar sozinho, pelo que tratou de a arranjar aliados: um arqueólogo, um empreiteiro e alguém capaz de mexer os cordelinhos nos corredores de Santa Clara.

Foi assim que nasceu o grande projecto: escavar todo o Toural.

Depois, foi só pôr a engrenagem em andamento, começando por convencer quem devia ser convencido das inesgotáveis virtudes e da infinita necessidade da construção de um aparcamento e de um túnel subterrâneos. Depois de aprovado o projecto, o arqueólogo apresentará uma proposta imbatível para os imprescindíveis trabalhos de prospecção arqueológica, que se propõe realizar sem nada receber em troca, pelo seu muito amor à ciência, e o empreiteiro aparecerá, a seu tempo, com um preço à prova de concorrência para os trabalhos de escavação e remoção de inertes. O golpe do século já está em marcha em Guimarães.

Moral desta história:

“A ambição é, entre todas as paixões humanas, a mais ferina nas suas aspirações e a mais desenfreada nas suas cobiças e, todavia, a mais astuta no intento e a mais ardilosa nos planos.” (Bossuet)

FIM ?

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - V

[… continuado de aqui]


Onde se acha e quase se desvenda o segredo do Mestre-Escola.

Em sendo dado à terra o Mestre-Escola, Severina foi ao encontro do seu destino. Lançada à rua pelos herdeiros do reverendo, recolheu-se em casa da Emília Mata-Homens, na rua do Gado, onde se devotou, como prestadora de serviços, ao mester da casa. Fez-se mulher de porta aberta, pela muita necessidade e pelo pouco desprazer. Conservou o segredo do Mestre-Escola, cosido na barra da saia, até que se tomou de amores por um estudante que introduzira nas artes sensuais, Jerónimo das Lamelas, a quem quis oferecer uma demonstração do seu bem-querer. Contou-lhe que guardava um segredo e retirou, da barra da saia, um papel amarelecido. Jerónimo leu

No campo maior de correr toiros trinta e dous paços para lá da fonte na direitura do velho das barbas maiores hua grande lagem cimquo palmos por baixo da qual coatro caixoens com grande aver furtado aos gallicos aos vimte e hu de 10bro de oito cemtos & sete.

e confessou não atinar com o sentido do que ali estava escrito.

Foi assim que o escrito passou para a casa das Lamelas, onde, depois de lhe dar muitas voltas, Jerónimo o esqueceu no meio do volume do Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades, composto por frey Pantaliam Daveiro. Mais tarde, a biblioteca das Lamelas foi parar às mãos de um célebre jurisconsulto vimaranense, que deixou os seus livros em testamento à Sociedade Martins Sarmento, onde o segredo do Mestre-Escola continuou bem guardado no aconchego das páginas do relato da peregrinação de Frei Pantaleão de Aveiro. Até que, mais de um século passado, foi encontrado e decifrado por α, um famigerado rato das bibliotecas indígenas.

sábado, 29 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - IV

[… continuado de aqui]

No mesmo dia em que tiraram o infortunado capinha do poço da Madroa, o Mestre-Escola da Colegiada Dionísio Vicente chegou a casa com os bofes carregados de vinho. Não demorou muito para se atirar para cima da sua manceba Severina, a Cara Linda. No meio da refrega, confidenciou-lhe que estava rico, muito rico, que ia partir para a Corte e que ia levar a sua cabritinha Severina com ele. Fosse pelo destempero dos jogos carnais, fosse pelo avinhado que estava, fosse pela comoção que o acometia, Severina sentiu o reverendo burgesso começar a arfar desalmadamente. Pela luz esparsa que irradiava da vela que iluminava o quarto, viu-o ficar roxo, cada vez mais roxo, roxinho. Até que se foi, com um espasmo e sem um ai Jesus!, ali mesmo, em cima dela, trespassado por um estupor apopléctico fulminante.

Severina empurrou de cima de si a visão da morte. Apesar do medo que a assaltou, recompôs-se, como sempre fora moça precavida, antes de gritar por ajuda, descoseu a bainha da manga do reverendo, de onde retirou o papel que, havia algum tempo, ele lhe tinha pedido para ocultar na velha jaqueta que nunca largava. Soubesse ela ler, e teria ficado a conhecer o segredo funesto do Mestre-Escola. Não sabia, mas tratou de guardar o papel em bom recato.

[a continuar...]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - III

[… continuado de aqui]

Aqui se continua a relação muito fiel e verdadeira do segredo singular que se esconde nas profundezas do Toural, na muito antiga cidade de Guimarães.

Por aqueles dias turbulentos em que a ameaça francesa se instalou nesta terra, uma improvável sucessão de coincidências trágicas abateu-se sobre a Colegiada de Guimarães.

Em finais de Junho de 1808, quando marchava de encontro aos franceses, na retaguarda do heróico Batalhão de Privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira, o Cónego Francisco de Góis, tombou fulminado por um tiro de bacamarte que lhe trespassara o coração. A morte do cónego causou certa admiração, já que na altura não se viam franceses por perto. Quando fez o auto do óbito, ao observar a trajectória da bala, o cirurgião da tropa perguntou se o reverendo marchava às arrecuas. Responderam-lhe que não. Houve quem jurasse que o tiro não tinha partido do inimigo.

Algum tempo depois, ainda naquele ano, Jerónimo, criado do Mestre-Escola da Colegiada Dionísio Vicente, envolveu-se numa rixa à porta do botequim do Quatro-Olhos. Quando acudiram aos seus gritos, deram com ele já sem sinais de vida, tombado de borco numa poça de sangue.

No dia 4 de Janeiro de 1810, Celestino Ventuzelas, sacristão da Colegiada, quando começava tocar as matinas, teve morte súbita, com o crânio rebentado pelo badalo do sino maior que, sem que se perceba como, se soltou antes que se escutasse a primeira badalada.

Ainda dois anos não eram passados, em Novembro de 1812, quando seguia a caminho da sua casa em Gominhães, o Cónego Alberto de Lemelhe foi atacado por um bando de salteadores. Morreu de morte lenta, esvaindo-se em sangue com uma faca espetada no ventre.

Por essa altura, o capinha da Colegiada Martinho do Santo Espírito começou a das mostras de grande perturbação. Passava os dias prostrado de joelhos na Igreja, a rezar, entre choros e gemidos. Nas ruas, andava em passos assustado, como se tivesse medo da sua própria sombra. Dizia que estava amaldiçoado. Quem o via, diria que tinha ensandecido. Andou desaparecido para cima de uma semana. Até que apareceu a boiar no fundo de um poço, na Madroa. Quase ninguém teve dúvidas: na sua demência, pusera fim à vida que se lhe tornara num fardo insuportável. Só ninguém explicou porque é que tinha as mãos atacadas atrás das costas.

[a continuar...]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - II

[… continuado de aqui]

Meados de Dezembro de 1807, tempos de desassossego em terras de Portugal. Era madrugada, já longe na noite, mas ainda distante da hora do galo. Um manto de névoa estende-se no horizonte, envolvendo as silhuetas descobertas pelos fios esparsos da Lua Cheia que se escoavam por entre nuvens com prenúncios de dilúvio. O cego de S. Domingos, de orelha alerta, escuta, por entre o murmúrio da água que escorre das bicas do chafariz, o rumor da terra escavada. Há horas que escavam, revezando-se uns aos outros. A certa altura, ouviu o som metálico da lâmina da enxada a percutir em pedra. E uma voz surda, como que vinda do fundo de um poço: aqui já só tem pedra, ajudem-nos a subir. Não tardou muito, e o cego escutou distintamente o mesmo som seco que lhe chegava aos ouvidos no cemitério do Campo Santo, o som do caixão quando desce à terra, seguro por cordas. Não tardou muito, ouviu, três vezes, madeira a bater pesadamente sobre madeira. Depois, continuou aquele estranho ritual com ressonâncias fúnebres: primeira o eco da terra a cair sobre o caixão de madeira, a que se segue o som abafado de terra despejada sobre terra. Agora, a laje, ouviu sussurrar, com os seus ouvidos de cego. Àquela distância, conseguia perceber distintamente as vozes de oua-ei, oua-ei. Contou seis vozes diferentes, pouco mais do que gemidos abafados, acompanhando um pesado arrastar. Até que pedra bate em pedra. Está feito, ciciou alguém, vamos embora. O cego pressentiu passos pesados que se espalham em diferentes direcções. Se pudesse ver, teria visto seis vultos furtivos, carregando grandes cestos cheios de terra, cada qual seguindo por seu caminho. O dia não nasceria sem que uma chuva impiedosa caísse sobre a vila, encharcando a grande praça e formando regos que escorriam pelo inclinado do terreno, arrastando vestígios de terra revolta em direcção contrária àquela de onde os primeiros sinais do dia começavam a despontar.

[a continuar...]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - I

Desafiam-me para que desvende "o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural". Hesito em fazê-lo, pelo muito que estimo a minha pele. A verdade é que existe, mesmo, um segredo por trás da intenção de construir um túnel e um parque subterrâneo no Toural. Um segredo velho de dois séculos, que já fez escorrer sangue, muito sangue, suor e lágrimas. É uma trama muito enredada, porém fiel e verdadeira, com ingredientes de ganância, traição, loucura e morte, salpicada com uma pitada de sexo e envolvida em muita, muita violência. Já esteve escondido na manga dum padre, na barra da saia de uma meretriz e entre as páginas do Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades, composto por frey Pantaliam Daveiro. Por ele, já se cometeram os crimes mais nefandos, já se matou e já morreu mais de uma mão cheia de homens. O que está por trás da intenção de esventrar o Toural é um terrível pecado, do rol dos sete pecados mortais: a cobiça. Assim que me puser a recato, explico-vos porquê.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Almoços Grátis Também Se Pagam ou a Soltura e o Fantasma

É o que dá o Natal. Este ano, comecei a via sacra das ceias ainda Dezembro ia no princípio. Depois da vigésima, o acumulado do bolo-rei, das rabanadas e dos mexidos mexeu-me com as entranhas, e vi-me constrangido a imitar o Olaf Oleiros quando vai fazer exames. Vinha eu a subir pela antiga rua das Oliveiras, onde agora tem a sua graça o zarolho que escreveu Os Lusíadas, quando começou a guerra intestina. Mal deu tempo de chegar às gloriosas retretes públicas que encimam a mais poética das artérias da cidade, onde fui recebido com a notícia de que, por força de uma momentânea ruptura no aprovisionamento, havia falta de papel higiénico. Mas não tem problema, sossegou-me a gentil senhora que me deu a novidade, arranja-se aqui um papel que serve muito bem para o efeito. Contrafeito (mas que havia eu de fazer?) agarrei nas folhas de jornal que me eram estendidas e fui-me ao serviço.

Como o desarranjo dava mostras de demorar, à falta de que fazer, deu-me para ir lendo os despojos do jornal que tinha entre mãos.

Foi então que me deparei com uma notícia, que não era bem uma notícia, nem era bem uma crónica, nem era bem um texto de opinião, nem sequer era bem uma reportagem, nem qualquer outra coisa que eu seja capaz de classificar, assinada por ninguém, e que falava de certos prós e contras acerca do Toural, onde terá estado, de um lado, “um dos autores da proposta de transformação do Toural para o século XXI” e, do outro, “a sociedade civil, alegadamente organizada para bater o pé às ideias de mudar o aspecto, tirar as árvores, logo impedir que haja um parque de estacionamento subterrâneo”. Alegadamente, a coisa prometia.

O ghost writer começa com um lamento: o debate foi curto e não permitiu “tentar um compromisso entre as duas tendências que se começam a cristalizar”. O que importa, diz o fantasma, é “ter uma mente aberta, no estilo inglês”. E, como quem não quer a coisa, vai dando um ralhete ao autor do projecto do Toural para o século XXI: bem que “podia ajuntar mais argumentos em favor da proposta de revolução que propõe”. E aproveita para atirar um, de sua lavra: “a praça manterá a sua afeição porque não podemos esquecer que o Toural também são os prédios à volta, os estabelecimentos comerciais, a igreja de S. Pedro e as pombas!”. Sim, meus caros, as pombas, as malditas pombas que cagam tudo, também são Toural!

Depois de ficar a saber que, do lado dos prós, também esteve o enigmático senhor F., descobri que a “voz dos contras” tem “ideias polémicas”. A “mais notável”, é a inaudita lembrança de deixar o trânsito a circular no Toural, “quando é evidente que há uma maioria de vimaranenses que não enjeitaria ver o automóvel dali para fora”. Pois é, além de fantasma, o escriba também é bruxo: tem uma bola de cristal com que mede, até à evidência, a opinião dos vimaranenses.

E mais não li. Já mais aliviado, dei às folhas do jornal o muito justo destino que lhes estava traçado. Serviram na perfeição, não obstante alguma aspereza.

E fui para a praça, com a mente aberta, no melhor estilo inglês, claro, dar milho às pombas. Afinal, elas também são Toural.

PS: Será que alguém (o Honoré de Balazar, que é tão dado aos mistérios, por exemplo) desvenda o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural?

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Política Económica Finlandesa: Um Paradigma a Seguir Pelas Sociedades Democráticas

Ao olhar para o projecto Touraliano, um velho canalha meu amigo louvou a retirada de árvores da Grande Praça, motivando a ira de seus condiscípulos que, tradicionalmente passo a passo, calcorreavam a distância entre Lisboa e Santarém em menos de um minuto. Eu, erudito de trazer por casa, citador de cordel de palavras difíceis, olhei-o nos olhos, inspirei o ar frio da noite e, fazendo minha a descoberta lexical de outro canalha, apodei-o, iradamente, de dendroclasta de uma figa.

sábado, 17 de novembro de 2007

Vá de Metro, Satanás - O Inquérito

O Café Toural, correspondendo ao apelo da Câmara Municipal de Guimarães e assumindo uma prática de cidadania consciente e participativa, vai ouvir os seus clientes, fregueses, ocasionais e desafectos para colher contributos para um projecto emblemático que veio embrulhado na proposta para um Parque de Lazer da Cidade Desportiva, vulgo Veiga de Creixomil, e que se integrará na (r)evolução urbanística que se advinha*. Referimo-nos, evidentemente, ao projecto de mini-metro incluído no conjunto de iniciativas para a regeneração nas mobilidades (cf. Parque de Lazer da Cidade Desportiva, Câmara Municipal de Guimarães, Guimarães, 2007, pág. 3).

* Ainda não conseguimos, mas continuaremos a trabalhar sem descanso até conseguirmos adivinhar o que será que se advinha.


Procuram-se respostas para esta pergunta:


Que metro queremos para Guimarães?



Hipótese A – Um metro a valer:



Hipótese B – Um mini-metro a valer:



Hipótese C O mini-metro da Câmara.



Hipótese D - Um mini-metro "faça-o você mesmo":


As respostas a este inquérito podem ser deixadas na caixa de comentários ou dirigidas para a caixa de correio do Café.


A melhor resposta será contemplada com um utilíssimo passe vitalício para a linha de mini-metro de Guimarães (cortesia da loja de ferragens Ferreira da Cunha, onde se podem encontrar os melhores metros da cidade).

domingo, 11 de novembro de 2007

Deslouvor e Apologia das Torres

Duas torres? Para que precisa Guimarães de torres, e logo duas? Não nos bastam já as do Castelo e a do Hotel Fundador? Deu-lhes agora para as grandezas? Além de Capital Europeia da Cultura, Guimarães também se vai candidatar a capital mundial do novo-riquismo? Não têm mais que fazer ao nosso dinheiro?

Perguntas como estas andam no ar, desde o dia para sempre inesquecível em que se anunciaram os 5 projectos para Guimarães. Muitas objecções ouvi eu às duas torres à beira parque de lazer da Veiga de Creixomil. Dei-lhes razão. Definitivamente, acho mal: Guimarães não precisa de duas torres plantadas entre as vacas, os milheirais e as águas que escorrem serenas, límpidas e sussurantes, do rio de Couros. Fazem-nos tanta falta como um parque de estacionamento subterrâneo no Toural.

Porém, como sou curioso e faço gosto em fundamentar as minhas opiniões, fui ler a proposta, onde fiquei a saber que o que se propõe é a edificação de duas torres balizadoras do grande acontecimento urbanístico (…) que se constituem como símbolo das novas centralidades e do momento histórico. Não estou seguro de ter percebido, mas acho bem. Aquilo só pode ter saído da mente iluminada e irisdicente de um visionário futurista e, porventura, pós-moderno. A Guimarães fazem falta grandes acontecimentos urbanísticos (para pequeno, já nos basta o Centro Histórico), onde floresçam símbolos de novas centralidades e do momento histórico. É Guimarães, de next big thing, que o rato do Jean-Paul Voreira anunciou.

Todavia, quando passei à parte das figurinhas do projecto, vi isto:

Veiga de Creixomil, com as Torres Balizadoras
(Para ampliar, toque no chão)

Confesso a minha desilusão, perante pequenez tamanha. Afinal, são duas mini-torres, à imagem do mini-metro e do mini-oceano que nos andam a prometer como coisas grandiosas (há quem diga que megalómanas, mas eu não chego a tanto). Acho mal. Se vamos ter torres, que sejam o espelho da nossa grandeza e que façam roer de inveja toda a Europa. A uma capital europeia, como Guimarães vai ser, não tarda nada, fica bem um par de torres, desde que sejam torres e que não nos envergonhem ao lado da Taipei 101, das Petronas Towers ou da Jim Mao Tower. Torres que façam esquecer as malogradas Twin Towers do WTC e que olhem lá do alto para o Triumph-Palace moscovita. Se vamos ter torres, que sejam à imagem dos nossos pergaminhos, da nossa história, da nossa grandiosidade e da nossa, com o perdão da palavra, virilidade. Guimarães merece ter as mães de todas as torres, que, enquanto tais, também podem servir para perpetuar o nome da primeira construtora de torres desta nossa terra centenária e, até mesmo, ouso dizê-lo, milenar.

Senhoras e Senhores de Santa Clara, o que Guimarães precisa é que deixem de pensar pequenino, que sejam ousados e que tratem de construir as Mumadonas Towers. Ei-las:

Veiga de Creixomil, com as Mumadonas Towers
(
Para ampliar, toque no céu)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Eu vi o progresso em forma de muridae

Estes dias, vinha eu no Campo da Feira a ler o Expresso do Ave, quando reparo numa cena insólita: mesmo ali junto à líder das grandes superfícies "low-cost" vimaranenses do pronto-a-vestir, a "Inflacção negativa", vejo um rato a atravessar o passeio, passar à minha frente, e enfiar-se por trás de uma caixa da EDP.

A minha primeira reacção foi reveladora de um certo asco e surgiu em duas fases distintas: Uma primeira (gritada) e que foi qualquer coisa como "Fôda-se! Cá puto de nojo!"; uma segunda (reflectida) e que foi do género: "Como é possível que uma cidade património da humanidade e que faz alarde da sua limpeza e higiene, tenha rataria a passear-se nas ruas?!"

Indignado, dobrei o jornal, apertei o cilício, estuguei o passo e dirigi-me à Câmara para expressar o meu protesto.

Uns metros à frente, junto à "Tasca Expresso", parei. Percebi que a decisão que acabara de tomar não fazia qualquer sentido. Não fazia sentido , em primeiro lugar, porque eram nove e meia da noite. Em segundo lugar, apercebi-me de que o avistamento do roedor era, afinal, um excelente augúrio. Pois não são as grandes metrópoles como Londres e Nova York assoladas por pragas desses bichinhos? Nesse momento percebi tudo: se os ratos têm um 6º sentido, que os faz prever as desgraças, devem ter um sétimo que os faz antecipar as venturas. Ora, eles já devem ter sentido que, com "Capitais de cultura", lagos artificiais, túneis, jardins subterrâneos e demais maravilheiro que aí vem, Guimarães é "the next big thing".

Fiquei feliz. A ratice já está a chegar, logo, o progresso está ali ao virar da esquina (por detrás da caixa da EDP). Entrei na tasca e mandei vir uma malga de tinto. Era tempo de festejar.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Denúncia

Como de costume, aconchegado o bacalhau, fui pelo digestivo, um café de saco e um bagaço, do especial, o da garrafa do canto. Estava eu a contar as moscas e, quando já tinha contado duas, ou dezanove, ou nenhuma, começou a ramalhar no meu ouvido de tísico, que é o que fica do lado esquerdo, a conversa dos dois comparsas que fungavam por entre dentes na mesa ao lado. Se bem reparei, eu até os conheço, que já os terei visto um par de vezes lá para as bandas de Santa Clara. Se calhar, trabalham por lá, embora conste que, ali, não há quem trabalhe. O segredo que contavam, se era segredo, vai deixar de o ser, porque eu não sou de guardar estas coisas só para mim. Falavam eles nos projectos, os tais, os cinco para que Guimarães nunca mais volte a ser o que já foi, que estão em discussão pública, esperando-se que da discussão se faça luz num par, ou cinco, cabeças, já de si muito luminosas. E percebi dos seus cochichos que, muito à puridade, pela calada, que primeiro há-de ser para os amigos – inusitado seria se o não fosse (quem atrás vier, há-de fechar a porta, se a não encontrar fechada) –, já se preparam para começar a aceitar pré-inscrições para os postos de amarração da futura marina da Veiga de Creixomil.