Se tens telhados de vidro...
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Contradições, Desmandos E A Falta Que Faz O Emprego...
Há pois, dois sinais contrários nesta questão:
a) positivo: a nova ministra não é tola (valha-nos isso!), pois percebeu o estado da coisa, ainda há quinze dias;
b) negativo: isto está mesmo mau, até os médicos, mesmo achando que a política de saúde deste governo não vale um chavo, vêem que mais vale alinhar com eles do que levar com um processo disciplinar ou outra coisa qualquer...
Ou, então, avisou, mas o Sócrates já nem liga... assim, como assim, está tudo a dormir e a trapalhada é conceito de aplicação exclusiva ao Santana.
Deixado por
MdS
em
17:00
0
comentários
Assunto: contradições, desmandos, trapalhada
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Da Cultura e das Côdeas de Broa
Ainda me lembro, como se fosse hoje: a minha avó mandava-me à padaria, todos os dias, antes do almoço, que ela teimava chamar de jantar, um quilo, e traz o troco. Na padaria, o Sr. Torres tinha uma mão muito certeira, raramente falhava o corte. Um quilo de broa? Pegava na faca de serra, fixava-se na broa (no tempo em que uma broa era uma broa e não um arremedo como essas de agora) como quem a media com os olhos e cortava um pedaço, que punha à balança. Um quilo? Ora aí está! Porém, às vezes falhava-lhe o olho, ou a mão, ou a faca, aquilo não dava bem um quilo, e o Sr. Torres lá tinha que colocar mais um pedacinho para compensar o peso em falta, normalmente mais côdea do que miolo, que eu roía a caminho de casa. Era o contrapeso.
Percebo agora que com as remodelações governamentais acontece algo de muito semelhante. Certo dia, o Sr. Primeiro-Ministro acorda bem disposto, cheio de vontade de remodelar. No palácio, com o 1492 do Vangelis em fundo, mal se senta à grande mesa, anuncia, categórico e determinado, como quem sabe que cumpre um desígnio sem saber muito bem qual seja: Meus senhores e minhas senhoras, hoje vou remodelar! Percorre a mesa com os olhos, sente os ministros encolherem-se, fazendo-se pequeninos e querendo-se invisíveis. E diz: Tu aí que andas com ar de pouca saúde, estás remodelado. Põe o Ministro da Saúde na balança e logo conclui que não tem peso suficiente para atingir a condição de remodelação. Precisa de um contrapeso. Novamente, percorre a mesa com os olhos, sente os ministros encolherem-se, fazendo-se pequeninos e querendo-se invisíveis. Por fim, diz, dirigindo-se à Ministra da Cultura: Desculpa, tu até tens sido porreira, pá, mas também te remodelo. E lá teve o sr. Engenheiro a sua remodelação.
E assim se demonstra que, se não se lhe encontra outra serventia, a cultura sempre pode servir de contrapeso. Tal e qual como as côdeas de broa do Sr. Torres.
Deixado por
Aldo Nim
em
18:49
2
comentários
Assunto: Remodelações ministeriais
domingo, 27 de janeiro de 2008
A Preguiça, ou os Efeitos da Picada da Mosca Tsé-Tsé no Urbanismo Índigena, ou a Jóia da Coroa que Já Era
Afinal, há quem, parecendo acordado, não perceba aquilo que eu, pobre diletante, cidadão distante, aborígene distraído, adivinho mesmo a dormir. Há dias, alguém perguntou aqui, num comentário, “que é feito de quem tem responsabilidades políticas, na situação ou na oposição?”. Acabo de encontrar a resposta. Leio no jornal de hoje que na oposição (pelo menos na maior fatia dela) se mergulha nos braços de Morfeu e se vota sem se analisar o que se vota. E que na situação (pelo menos na primeira figura dela) também se poderá andar a passar pelas brasas nas horas de expediente. Ou isso, ou o nosso alcaide foi acometido por um refinado sentido de humor que o leva a contar a piada do ano, a de que o mais prestigiado dos serviços municipais vimaranenses não perde autonomia ao tornar-se numa divisão acéfala de um departamento macrocéfalo. Um serviço que cuidava da requalificação do Centro Histórico e que apenas respondia directamente perante o Presidente da Câmara (que não tinha dúvidas em classificá-lo, muito justamente, como “a nossa jóia da coroa”) que, primeiro, passou a responder perante um vereador recém-chegado, sem pedigree em matéria de centro histórico, e que, agora, passa a responder ainda mais abaixo, não perde autonomia? Perde autonomia, perde dignidade e, pior de tudo, parece que perdeu competências, já que deixou de ter voz activa na condução de projectos que são lançados sobre a sua área de jurisdição.
Pois é, andamos com soninho.
Entretanto, deve haver por aí gente bem desperta e, talvez, quem sabe, algo esperta.
Deixado por
Honoré de Balazar
em
15:42
1 comentários
Assunto: Adivinhações, GTL, Pesadelos, Projectos para Guimarães
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
O Monumento
Diz o de Guimarães, o artista, que, ao conceber o monumento ao nicolino, pretendeu criar uma “forma simbólica, talvez sugerida pelo esvoaçar da "capa", que faz parte do traje académico”. Confesso que sempre me intrigou o “talvez” estrategicamente arrumado naquela explicação.
A capa do traje dos estudantes vimaranenses é preta. Vermelha é a capa dos toureiros. E, não obstante os trejeitos marialvas das festas nicolinas, não estou a ver qual seja a sua afinidade com touradas, garraiadas e outras manifestações quadrúpedes e afins. Para mim, aquilo era um mistério. Até hoje.
Pela manhãzinha, fui espreitar o monumento de que tanto se fala há tanto tempo. Em chegando ao meio do Campo da Feira, vi dois senhores de provecta idade a olharem para a coisa. Falavam assim:
- Ò Manel, aquilo daqui parece mais um pedaço de carne.
- É mesmo! Aquilo é um bife.
- É, mas é, uma costeleta.*
- Vendo bem, Jirónimo, é mesmo isso: uma bela costeleta, é o que é!
Olhei melhor e esmoreceram-se as dúvidas. Aquele monumento remete para o mais profundo da nossa identidade, com uma dimensão simbólica arrasadora, telúrica, quase sublime: é um tributo à costela de nicolino que há em cada um de nós. Não representa, talvez, uma capa de estudante. É, sem sombra de talvez, uma magnífica costeleta nicolina.
* Aliás: - É mazé uma costoleta.
Deixado por
Aldo Nim
em
15:12
8
comentários
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
E Agora, Senhores Meus, o Euromilhões
E eis que, ao fim de tantos anos metido dentro da minha pele, me maravilho com uma descoberta sobre um lado de mim que desconhecia: tenho um dom, senhores. Eu não sonho, auguro. Eu não tenho pesadelos, tenho presságios. Eu adivinho!
Só não ainda adivinhei porque é que escolheram este preciso momento para quebrarem o selo de garantia do nosso Centro Histórico, outrora conhecido por GTL. Porém, suspeito que não deve ser preciso ser bruxo para desvendar tal segredo.
Deixado por
Honoré de Balazar
em
22:15
0
comentários
Assunto: Adivinhações, GTL, Pesadelos, Projectos para Guimarães
Última Hora - Guy Marais desapareceu
* que palavra incómoda, não?
Deixado por
Gerência
em
18:17
0
comentários
Assunto: ano do c*****o, Café, Citânia, Clero, Clientes, Comboios, Comissário CEC2012, intenções do café
sábado, 19 de janeiro de 2008
Anjo da Guarda, Que é Feito de Ti?
Um destes dias, passando ao largo da Cervejaria Martins, cruzo-me com um grupo de aborígenes em discussão desabrida. O costume, pensei, o Vitória, o Cajuda, o Geromel e o Rabiola, talvez o fora-de-jogo, talvez o Pimenta. Enganei-me: era de obras que se falava. Alguém me atira: “E tu, ò Honoré, não dizes nada sobre o projecto?”. Respondi com o mais expressivo encolher de ombros de que sou capaz e segui caminho. Ouso confessar que tenho dormido descansado, apesar do alarme público que invadiu a cidade por causa do que se anuncia para o Toural. Sei que, ao longo do processo de requalificação do Centro Histórico de Guimarães, tão louvado, premiado e galardoado, a cidade acrescentou novos elementos ao seu património, entre os quais se inclui o GTL, serviço que, pela reconhecida excelência do seu trabalho de preservação/reposição da autenticidade dos modos de intervir no património, granjeou respeito internacional, tornando-se num case study no meio académico de Portugal e arredores. Portanto, dormia eu descansado porque sei que há gente sabedora e de confiança a velar pela cidade. Dormia, disse, mas esta noite não dormi. Em plena madrugada, ainda o galo não cantara, acordei sobressaltado, suando frio, com tremores, com palpitações e com uma ideia insólita a zumbir-me na mioleira. Levantei-me, molhei o rosto, verti águas e voltei para o quentinho dos lençóis. Tinha sido um pesadelo: claro que não tinham acabado com o GTL. Mas amanheci atordoado com uma premonição funesta. Para a afastar, pus-me a pensar, o que raramente faço. A conclusão a que cheguei agravou o meu estado de ansiedade: em tanto que se tem falado sobre os projectos para Guimarães, não temos tido sinais de vida dos técnicos a quem compete a tutela do programa de intervenção no Centro Histórico classificado com o título da UNESCO e todo o espaço que baptizaram, Deus os perdoe!, de zona tampão. Ainda antes do mata-bicho, fui a correr à Rua Nova, antigamente bem mais airosa com aquelas raparigas alegres e gentis que ali ofereciam os seus préstimos aos pobres necessitados. Lá estava a casa do GTL. Mas não estava o GTL. De uma varanda ao lado, uma velhinha, com poucos dentes e muita curiosidade, quis saber quem é que eu procurava. A minha resposta fez ricochete na dela: “Então não vale a pena bater. Eles já se foram embora há muito”. Começo a ficar apreensivo. Muito apreensivo.
Deixado por
Honoré de Balazar
em
15:25
4
comentários
Assunto: GTL, Pesadelos, Projectos para Guimarães
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Previsão do Tempo para Atouguia e Arredores
Deixado por
Guy Marais
em
22:26
2
comentários
Assunto: ano do c*****o, Comissário CEC2012, previsões
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Boletim Meteorológico: Previsão de Melhorias
Certo dia, quando 2006 percorria o seu último quarto, começou a pairar sobre o Toural a sombra de uma névoa vagamente insinuante. Ainda o ano não era findo, a sombra adensou-se: a névoa podia passar a Névoa, disse-o quem não se esperaria que o dissesse. Correu um ano completo, e a névoa lá continuava a pairar, ameaçadora, afiando as garras, enquanto espreitava o momento de cair sobre a presa, aparentemente desarmada e adormecida na sua inocência. Até que se anunciou: é mesmo Névoa que bate à porta do Toural. Mas a presa, afinal, não dormia. Deu luta. Estrebuchou. Sacudiu a cerração. Agora, parece que o Céu já se desanuvia e que a sombra se começa a afastar do Toural. O Toural fica melhor, muito melhor, sem o manto de Névoa.
Deixado por
Aldo Nim
em
19:21
0
comentários
Assunto: Projectos para Guimarães
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Porreiro, Pá!
Porque, na sua infinita sabedoria, o povo nunca se engana, nada lhe será perguntado.
Deixado por
Aldo Nim
em
22:10
0
comentários
Assunto: Sócrates e a liberdade
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
António Adiantou-se...
Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União. Mas nem é preciso ir lá fora. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas. A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do Governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do Governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na “comunicação social” em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade.
Deixado por
MdS
em
16:34
1 comentários
Assunto: Sócrates e a liberdade
Nem com uma Flor
Porventura por influência de alguns dos artistas que por lá têm passado, a nossa melhor casa de espectáculos, o CCVF, já se dá ares de prima-dona. A despeito do nome por que responde, já não se lhe pode bater nem com uma flor, que lhe estala o verniz. Quando contrariada, fica embezerrada, amua e até se põe verde. Há quem diga que até nem tem mau feitio e que o problema está na farpela com que a vestiram, bem-parecida e imponente, porém mui frágil, sensível e quebradiça.
Deixado por
Aldo Nim
em
09:01
3
comentários
Assunto: Embirrações
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Ouvido de Passagem
Requiem para quatro jovens -
Jovem nº 1- (…) e ele porque não veio?
J2- Disse que o avô dele foi para o hospital e que por isso não podia vir.
J3- E foi por isso que não veio?
J2- Sim, foi para o hospital…
J4- Então podíamos ir lá ao hospital…
J3- Quem tá fodido é o avô não é ele!
J4- Então vamos comer…
J1- Acho que sim!
J2- Hehehe…
Ouvido na Rua de São Gonçalo, dia 5 de Janeiro de 2008, 21h.
Deixado por
Olaf Oleiros
em
18:27
3
comentários
Assunto: Ouvido de passagem
sábado, 5 de janeiro de 2008
Uma Teoria da Conspiração
Devo dizer, aos meus muitos e caros leitores, que estou profundamente convencido que há uma relação entre a Associação Comercial Vimaranense e algumas lojas de aparelhos auditivos. E passo a explicar o porquê desta minha insinuação:
Na véspera de Natal encontrava-me eu na Rua de Santo António a fazer as últimas compras. Todos os anos as faço, orgulhosamente fora de horas. Eram já 19h, a rua quase deserta, com suas lojas quase fechando. HoHoHo, HoHoHo. Subitamente passa por mim um bólide da Associação Comercial Vimaranense que, através de um péssimo sistema estereofonico debitava soundbites (já vi que pleonasmei) sobre o comércio tradicional. Assustado, eu – qual coelho de Páscoa prestes a pôr ovo – senti um zumbido a apoderar-se do meu tímpano esquerdo. Confuso, embati contra uma daquelas tochas de latão (permitam-me chamar-lhes assim) que se encontram espalhadas pela nossa bela (e não pedonal) Rua de Santo António. Após o embate a estearina quente, que contrastava com o frio que se fazia sentir, caiu sobre meus olhos azuis que, até aí, contrastavam com o vermelho das alcatifas que abraçavam os passeios. A dor foi insuportável. A confusão foi total. Cego e tonto, acabei por cair no tanque da Rua de Santo António. Como seria de esperar a hipotermia apoderou-se de mim e passei a consoada no hospital.
Para além dos problemas inerentes ao estado hipotérmico foi-me diagnosticada surdez. De imediato tive que me dirigir a uma loja para comprar um aparelho auditivo. E quando na loja, enquanto eu me tentava fazer entender, me escreveram num papelinho “sabemos porque está aqui”, eu vi logo que aqueles malandros tinham feito um acordo com a Associação Comercial Vimaranense. Exijo justiça!
Guimarães, antigo HSO – 28 do 12 de 2007
Deixado por
Olaf Oleiros
em
10:26
0
comentários
domingo, 30 de dezembro de 2007
O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - VI
[… continuado de aqui]
Onde, finalmente, se desvenda "o segredo que se oculta por trás de tanta e tão súbita vontade de escavacar o Toural".
α, que perseguia, no ranço dos papéis velhos, o rasto das invasões francesas em terras de Guimarães, não teve dificuldade em perceber de que tratava o escrito do Mestre-Escola.
Em Outubro de 1807, o D. Prior da Colegiada recebeu uma carta do príncipe regente em que mandava pesar e inventariar as pratas da Colegiada, para que fossem recolhidas nos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra, Tomar ou Palmela. Esta ordem seria anulada por carta régia de 19 de Dezembro. Mas as pratas continuavam em risco, pelo que o Cabido decidiu esconder as mais valiosas, até que passasse a ameaça francesa. Foram introduzidas em quatro arcas de madeira, que se confiaram ao mestre-escola e a dois dos cónegos para que as colocassem em salvamento. Mas ninguém voltaria a pôr a vista em cima daquele tesouro: todos os que conheciam o seu esconderijo morreram antes que fosse resgatado, numa sucessão de trágicas coincidências, como se tivessem sido atingidos por uma maldição sinistra. Esta história é conhecida dos que, como α, conhecem a história da Colegiada de Guimarães.
Ao ler o que encontrou, α ficou dividido, entre a glória do descobridor e os acenos da cobiça. Como, dos humanos sentimentos, triunfam, em geral, os mais baixos, α tratou de esconder o papel e de congeminar o meio para chegar à prata.
No campo maior de correr toiros trinta e dous paços para lá da fonte na direitura do velho das barbas maiores hua grande lagem cimquo palmos por baixo da qual coatro caixoens com grande aver furtado aos gallicos aos vimte e hu de 10bro de oito cemtos & sete.
A mensagem era, afinal, clara como a água:
No Toural, a 32 passos do chafariz, na direcção para onde aponta uma das bicas onde está a cara de um homem com barbas grandes, debaixo de uma laje, a cinco palmos de profundidade, estão quatro caixões com um tesouro escondido dos franceses em 21 de Dezembro de 1807.
Com método e rigor cirúrgicos, α congeminou um plano quase diabólico. À primeira vista, havia duas dificuldades aparentemente insuperáveis: a primeira, era descobrir como desenterrar um tesouro escondido em plena praça pública sem atrair atenções indesejáveis; a segunda, porque o chafariz foi retirado do Toural há bem mais de um século, não era possível determinar em que direcção é que apontava o “velho das barbas maiores”: sendo o chafariz de configuração circular, a bica do velho poderia estar voltado para qualquer direcção. Só viu uma solução, que jamais poderia concretizar sozinho, pelo que tratou de a arranjar aliados: um arqueólogo, um empreiteiro e alguém capaz de mexer os cordelinhos nos corredores de Santa Clara.
Foi assim que nasceu o grande projecto: escavar todo o Toural.
Depois, foi só pôr a engrenagem em andamento, começando por convencer quem devia ser convencido das inesgotáveis virtudes e da infinita necessidade da construção de um aparcamento e de um túnel subterrâneos. Depois de aprovado o projecto, o arqueólogo apresentará uma proposta imbatível para os imprescindíveis trabalhos de prospecção arqueológica, que se propõe realizar sem nada receber em troca, pelo seu muito amor à ciência, e o empreiteiro aparecerá, a seu tempo, com um preço à prova de concorrência para os trabalhos de escavação e remoção de inertes. O golpe do século já está em marcha em Guimarães.
Moral desta história:
“A ambição é, entre todas as paixões humanas, a mais ferina nas suas aspirações e a mais desenfreada nas suas cobiças e, todavia, a mais astuta no intento e a mais ardilosa nos planos.” (Bossuet)
FIM ?
Deixado por
Honoré de Balazar
em
21:51
9
comentários
O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - V
[… continuado de aqui]
Onde se acha e quase se desvenda o segredo do Mestre-Escola.
Em sendo dado à terra o Mestre-Escola, Severina foi ao encontro do seu destino. Lançada à rua pelos herdeiros do reverendo, recolheu-se em casa da Emília Mata-Homens, na rua do Gado, onde se devotou, como prestadora de serviços, ao mester da casa. Fez-se mulher de porta aberta, pela muita necessidade e pelo pouco desprazer. Conservou o segredo do Mestre-Escola, cosido na barra da saia, até que se tomou de amores por um estudante que introduzira nas artes sensuais, Jerónimo das Lamelas, a quem quis oferecer uma demonstração do seu bem-querer. Contou-lhe que guardava um segredo e retirou, da barra da saia, um papel amarelecido. Jerónimo leu
No campo maior de correr toiros trinta e dous paços para lá da fonte na direitura do velho das barbas maiores hua grande lagem cimquo palmos por baixo da qual coatro caixoens com grande aver furtado aos gallicos aos vimte e hu de 10bro de oito cemtos & sete.
e confessou não atinar com o sentido do que ali estava escrito.
Foi assim que o escrito passou para a casa das Lamelas, onde, depois de lhe dar muitas voltas, Jerónimo o esqueceu no meio do volume do Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades, composto por frey Pantaliam Daveiro. Mais tarde, a biblioteca das Lamelas foi parar às mãos de um célebre jurisconsulto vimaranense, que deixou os seus livros em testamento à Sociedade Martins Sarmento, onde o segredo do Mestre-Escola continuou bem guardado no aconchego das páginas do relato da peregrinação de Frei Pantaleão de Aveiro. Até que, mais de um século passado, foi encontrado e decifrado por α, um famigerado rato das bibliotecas indígenas.
Deixado por
Honoré de Balazar
em
11:12
0
comentários
sábado, 29 de dezembro de 2007
Até os Mortos São Convocados
Cada vez mais me convenço que muito grande será o segredo que faz mover a determinação de estripar o Toural, agora que vejo que até os mortos são convocados ao Além para virem esgrimir argumentos em sua defesa.
[Vd. Povo de Guimarães, jornal refractário a pseudónimos onde impera a lei de Olívio Chamado, n.º 1452, 28 de Dezembro de 2007, pág. 4]
Deixado por
Aldo Nim
em
15:08
4
comentários
O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - IV
[… continuado de aqui]
No mesmo dia em que tiraram o infortunado capinha do poço da Madroa, o Mestre-Escola da Colegiada Dionísio Vicente chegou a casa com os bofes carregados de vinho. Não demorou muito para se atirar para cima da sua manceba Severina, a Cara Linda. No meio da refrega, confidenciou-lhe que estava rico, muito rico, que ia partir para a Corte e que ia levar a sua cabritinha Severina com ele. Fosse pelo destempero dos jogos carnais, fosse pelo avinhado que estava, fosse pela comoção que o acometia, Severina sentiu o reverendo burgesso começar a arfar desalmadamente. Pela luz esparsa que irradiava da vela que iluminava o quarto, viu-o ficar roxo, cada vez mais roxo, roxinho. Até que se foi, com um espasmo e sem um ai Jesus!, ali mesmo, em cima dela, trespassado por um estupor apopléctico fulminante.
Severina empurrou de cima de si a visão da morte. Apesar do medo que a assaltou, recompôs-se, como sempre fora moça precavida, antes de gritar por ajuda, descoseu a bainha da manga do reverendo, de onde retirou o papel que, havia algum tempo, ele lhe tinha pedido para ocultar na velha jaqueta que nunca largava. Soubesse ela ler, e teria ficado a conhecer o segredo funesto do Mestre-Escola. Não sabia, mas tratou de guardar o papel em bom recato.
Deixado por
Honoré de Balazar
em
12:26
0
comentários
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
O Segredo do Subterrâneo do Toural ou A Cobiça - III
[… continuado de aqui]
Aqui se continua a relação muito fiel e verdadeira do segredo singular que se esconde nas profundezas do Toural, na muito antiga cidade de Guimarães.
Por aqueles dias turbulentos em que a ameaça francesa se instalou nesta terra, uma improvável sucessão de coincidências trágicas abateu-se sobre a Colegiada de Guimarães.
Em finais de Junho de 1808, quando marchava de encontro aos franceses, na retaguarda do heróico Batalhão de Privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira, o Cónego Francisco de Góis, tombou fulminado por um tiro de bacamarte que lhe trespassara o coração. A morte do cónego causou certa admiração, já que na altura não se viam franceses por perto. Quando fez o auto do óbito, ao observar a trajectória da bala, o cirurgião da tropa perguntou se o reverendo marchava às arrecuas. Responderam-lhe que não. Houve quem jurasse que o tiro não tinha partido do inimigo.
Algum tempo depois, ainda naquele ano, Jerónimo, criado do Mestre-Escola da Colegiada Dionísio Vicente, envolveu-se numa rixa à porta do botequim do Quatro-Olhos. Quando acudiram aos seus gritos, deram com ele já sem sinais de vida, tombado de borco numa poça de sangue.
No dia 4 de Janeiro de 1810, Celestino Ventuzelas, sacristão da Colegiada, quando começava tocar as matinas, teve morte súbita, com o crânio rebentado pelo badalo do sino maior que, sem que se perceba como, se soltou antes que se escutasse a primeira badalada.
Ainda dois anos não eram passados, em Novembro de 1812, quando seguia a caminho da sua casa em Gominhães, o Cónego Alberto de Lemelhe foi atacado por um bando de salteadores. Morreu de morte lenta, esvaindo-se em sangue com uma faca espetada no ventre.
Por essa altura, o capinha da Colegiada Martinho do Santo Espírito começou a das mostras de grande perturbação. Passava os dias prostrado de joelhos na Igreja, a rezar, entre choros e gemidos. Nas ruas, andava em passos assustado, como se tivesse medo da sua própria sombra. Dizia que estava amaldiçoado. Quem o via, diria que tinha ensandecido. Andou desaparecido para cima de uma semana. Até que apareceu a boiar no fundo de um poço, na Madroa. Quase ninguém teve dúvidas: na sua demência, pusera fim à vida que se lhe tornara num fardo insuportável. Só ninguém explicou porque é que tinha as mãos atacadas atrás das costas.
Deixado por
Honoré de Balazar
em
09:52
0
comentários

