sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A Nossa Querida TV

Já não era sem tempo. Depois da saudosa TV Covas (nome popular da muito mais erudita “Televisão Regional de Guimarães”), Guimarães deixou de flanar nas ondas hertzianas que compõem o espectro televisivo nacional. Até que, muitos anos depois dos memoráveis tempos das TVs piratas, apareceu a GMRtv, que só não foi grande notícia porque a coisa noticiada seria pequena: um diminutivo de televisão que se apresenta num rectângulo de cinco polegadas e meia, num computador perto de si. Mas, agora, a coisa vai crescer. A GMRtv vai poder deixar de ser vista apenas em formato minorca, tornando-se numa verdadeira televisão ou, até mesmo, num plasma com mais de 100 polegadas. A partir de Dezembro, a GMRtv vai transformar-se na companhia diária dos vimaranenses, através do serviço de cabo da TVTEL. Para não perder pitada, já ando à procura de casa no Porto ou em Oeiras.

Via: Colina Sagrada

Contra o Clericalismo Dominante Numa Sociedade Laica Ou Vice-Versa

Na espúria tentativa de tornar o Natal naquilo que ele não é, numa altura em que ele, muito menos, já aí está, as iluminações já começaram a ser colocadas no centro-cidade. Isto ainda antes do Pinheiro ser cortado, com uma pressa mais digna de obstinação mercantil do que de cumprimento de agendas e inauguração de praças. Nada de anormal neste uso iluminado, não fosse o facto de ninguém querer saber de iluminações para pouco, já que de belo nada têm. Mais valia pô-las todas juntas em S. Torcato, que, destarte, dariam vida à igreja cinzentona que lá há, fazendo acontecer um happening, coisa que por lá acontece pouco. Tudo que há cá tem que haver na minúscula área do centro-cidade. Atrofiante. Amiúde roçante do desespero. Extemporâneo. E pronto, daqui a um mês – é só passar o Guimarães Jazz, senão até parecia mal – começa aquela porcaria da música nas ruas, com publicidade bombardeada a quem se está defecando para ela, coisa de bimbos e parolos, feita para bimbos e parolos. E a CMG, conivente, cala e consente, autorizando, pensando ai que lindo, que tradição, dancemos o vira.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O Porco

Hoje acordei com um torcicolo obstinado. Não consigo virar o pescoço para a esquerda, muito menos para a direita. Nem, sequer, ò má fortuna, me é permitido colar os olhos no chão. Nem, ao menos, erros meus, sou capaz de olhar em frente e seguir caminho.

Pois é: hoje levantei-me de nariz empinado, com os olhos fixos lá nas alturas. E dei comigo a pensar: como é diferente Guimarães quando olho para ela assim.

Ia eu por aí acima às apalpadelas e aos encontrões, sem sequer ver onde pisava, mas sem abandonar a minha pose altiva e, até mesmo, ligeiramente emproada (-que c***lho, não vê por onde vai, homem de Deus?), a olhar para os telhados, para as mansardas e para as clarabóias vimaranenses, quando, de repente, tive uma visão rara e insólita.

Vi um porco.

Lá em cima, pairando sobre os telhados, avistei um porco que carrega uma cruz. O que ele faz ali, é para mim um imenso mistério.

Alguma alma caridosa me ajuda a decifrar os segredos que guarda o porco de S. Domingos?

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

1 Engano n1a Concordância

Nalguns lugares da cidade, maioritariamente rotundas, víamos ou vemos posters com o Castelo da dita. Por baixo da imagem da castelada, o que se lê, ao contrário do pretendido, é "Não é UM maravilha?" Responde-se: não, não é um maravilha porque maravilha é feminino. É UMA maravilha. Logo, há que pôr "Não é 1a maravilha" para que fique bem. Porque o que está mal, por regra, é mau. Ainda por cima, tendo a cidade universidades e escolas onde ensinam concordâncias. E, estando mal, é claro que enerva. E pior, enerva mais pensar que há quem tenha sido pago por fazer mal.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Segurem-se!

E, agora que já cá estamos todos, afora os que ainda hão-de vir, é que isto vai ser!

Os Nossos Clientes: Guy Marais

Pedem-me uma biografia. A ela vamos, não pela minha mão, mas pela pena de Georges Savage, editor crítico de alguma da minha obra, cínico amigo que não perde uma oportunidade de me mitificar. O que os caros leitores se preparam para ler é uma mistura harmoniosa de realidade com pouquíssima ficção. Alteram-se datas e nomes, salvaguardam-se identidades, exceptuando minhas e de meus pais, de molde a proteger, destarte, todos aqueles que comigo privaram e que fizeram a minha vida até agora. Mas não será difícil compreender quem é quem neste caminho que trilho de há quarenta anos a esta parte.

"Guy José de Marin Marais nasceu em Paris, no Marais, a 16 de Outubro de 1967. É filho de Cidália do Céu de Sá José e de Ghislain Marin Marais, que dizem ser descendente em linha directa do afamado compositor seiscentista. Muito pouco ou quase nada o liga a Guimarães, a não ser o facto de lá viver desde 2004. Mora numa casa de arquitecto em Pinheiro.
A infância de Guy Marais foi igual à de todos os meninos parisienses: cultura, haute couture, cinema, bouquinistes ao sábado, Cahiers du Cinema, Echo des Savanes, piano, fromage frais, Jacques Dutronc, Michel Arnaud e Arthur H.. Perseguia-o sonho de uma vida iluminada e Guy, esperançoso, vivia na pungente espera do momento de tão almejada revelação. Um dia, nos idos de oitenta, no metro de Paris, mais precisamente na estação de Chardon Lagache, ouviu os cantares de um grupo de jovens estrangeiros. Percebeu que se dirigiam a si, já que cantavam algo parecido com Oh, Guy Marais, ton progrés é tua vide. Marais ficou radiante, em êxtase pré-xamânico, tipo figura de intelectual parisiense de idos de oitenta, entre o cachecol e a sapatilha branca, com óculos de tartaruga, tamanho extra largo, quando vê um filme de Louis Malle. Na companhia desses mecs alienantes, Guy Marais saltou, dançou, comeu e bebeu durante três dias e quatro noites, até não suportar mais o cantar do galo francês no Bois de Boulogne. O bando era proveniente de Guimarães, berço de pedra du Portugal, país de sa mère Cidália de Sá José. Entre os vapores do vinho, os rapazes e raparigas revelaram-lhe a cosmogonia da sua cidade: a origem e a história das suas gentes e dos seus lugares, do labor da sua grei, dos reis conquistadores e dos castelos encantados. Guy facilmente percebeu que tinha que partir para aquele lugar e que aquele lugar iria ser o seu. E partiu. Fê-lo à boleia, numa road trip françuguesa, com destino final em Guimarães, apoiado por um esparso pecúlio dado por sua mãe, repudiado pelo silêncio de seu pai. Olhando em frente para o seu destino a cumprir - a bela e formosa Guimarães, cidade de pedra com nome como o seu – Guy deixava para trás o pútrido ar da Îlle de France, jurando não mais voltar à cidade-luz. Guimarães era agora a sua meta, não importando nem o tempo que demoraria a lá chegar, nem o modo como o faria. Rumou primeiramente até Clermont Ferrand, onde viveu dois anos com a comunidade portuguesa local, aprendendo-lhe os modos e os trejeitos. Aperfeiçoou a língua e a escrita lusas. Leu Camões, Hélder, Sena, Proust e a Antologia de Poetas Vimaranenses. Viu os filmes de Oliveira, o francês mais português de todos. Apaixonou-se, incorrespondidamente, pela filha do presidente da Mairie, Marie, por quem sentiu imensa saudade – oh, registo de tão grande portugalidade assimilada – na manhã solarenga de Agosto em que deixou Clermont Ferrand rumo a Saint-Bonnet-le-Château, onde permaneceu pouco tempo. Por engravidar Amelie-Jeanette Pereira, a filha do talhante português existencialista da rua da Ligne Maginot, Guy Marais teve que pôr em prática a arte da fuga em todo o seu esplendor, fintando o destino. Da sua curta permanência na vice-capital do Loire, Guy guarda memória dos primeiros domingos lá passados, sempre na companhia das meninas Neuilly, ensinando-lhes a arte da viola de arco, em troca da aprendizagem de todos os segredos do croché e de todo o tipo de sevícias e carícias. Tudo se ensinava e aprendia no quarto de seus ausentes pais, irregulares pagadores das horas de ensinamento da viola de arco, donos de um belíssimo relógio de bolso de ouro e diamantes que Marais não teve pejo em esbulhar - facto que nega peremptoriamente - por crêr que de tal forma saldava as aulas de viola de arco em atraso.
De Saint-Bonnet-le-Château, Guy Marais rumou até Le Puy-En-Velay, decidido a não mais descer do nível de cavalheiro onde tanto lhe custara chegar. Aí - em Le Puy-En-Velay - passou fome durante alguns dias, os suficientes para subtrair uma edição primeira e assinada de um livro de George Perec a um reputado alfarrabista local, vendendo-a por uma pequena fortuna a outro reputado homólogo de Romans-Sur-Isère. É nessa pequena localidade que é barbaramente agredido, numa madrugada de domingo. De tamanha barbárie resultou a perda, por amputação, do mindinho esquerdo. Diz-se que tudo aconteceu por causa do jogo, vício que acompanhou Guy Marais durante alguns anos. Inspirado por tão perniciosa alegação, improvável por não rememorada, Marais abafa as meias medidas e, com a considerável maquia conseguida na venda do livro de Perec, rumou até ao Mónaco, onde terminou o curso de sociologia e privou com a aristocracia local. De dia trabalhava como croupier no casino, à noite dedicava-se de corpo e alma aos recitais de poesia burguesa nos salões da Baronesa Wendt de Osterberg, uma idosa com quem dizem ter-se envolvido sentimentalmente. As suas lucubrações levaram-no à escrita e publicação de pequenos contos, de teor erótico-cultural, feitos de frases curtas e incisivas que lhe caucionaram o respeito da burguesia boémio-intelectual local. Envolveu-se, sentimental e intelectualmente, com Maribelle Bartók, a Bela, como lhe chamava, que lhe transmitiu uma visão cósmica do mundo que Marais trataria de adaptar, anos mais tarde, à realidade vimaranense. A deambulação monegasca terminou com a recusa de Guy em casar-se com Maribelle, decidido a não ludibriar, mais uma vez, o seu destino. Tal recusa seria mote para que Maribelle se vingasse e que de tão mesquinho acto resultasse a fuga de Marais. Beleza inteligente e pérfida, Maribelle lança o boato, nos mais influentes círculos, de que Guy é Le Chat Noir, o arguto ladrão de bancos. Verdade ou não, o que é certo é que Marais parte para a Suíça, onde permanece dois meses e meio. Em Genebra entra para a maçonaria e, paradoxalmente ou talvez não, em Zurique entra para a Opus Dei. Delatado por um banqueiro, Guy Marais larga tudo o que tem em vinte e duas horas e, com alguma ironia para com o país de onde acabara de sair, decidiu tornar-se marinheiro. Apenas com uma simples mochila e três mudas de roupa, Guy Marais chegou a Génova e daí atravessou o mediterrâneo até Ceuta. Deste porto africano escreve à sua mãe confessando-lhe estar decidido “agora sim, a não mais descer do nível de cavalheiro que tanto [lhe] custara atingir” e que abandonou “o vício dos poemas de vez”. Curiosamente, o destino reservar-lhe-ia algo bem diferente das palavras escritas à sua mãe: depois de seis meses de silêncio, Guy é tido como um poderoso traficante de armas sindicalizado, facto que nega com veemência. Dois anos depois, já em meados de noventa, Guy Marais é achado em Marselha, metido na droga e no seu comércio. Dizem as más línguas que foi membro do gang de Alain Fournier. Dizem as mesmas más línguas que Guy Marais matou gente. É também em Marselha que Guy privou com o grande Pierre La Rothière, com quem se diz ter tido uma relação. Tudo factos não provados. O que é certo é que é em Marselha que Marais fica durante vários anos, dobrando o século e o milénio, empregado numa fábrica de sabões local e cronista de música tradicional africana para um jornal da cidade. Quando já todos temiam que, pela vida e suas vicissitudes, tivesse esquecido o seu sonho inicial, Guy Marais, fazendo jus ao seu temperamento instável, abandona a certeza, larga a segurança e decide voltar ao seu ponto de partida: a chegada a Guimarães, o nirvana consigo próprio, o início do seu próprio fim. Consegue uma pós graduação em Estudos Urbanísticos na Universidade de Marselha onde se propõe averiguar a veracidade de um rumor sobre a cidade berço, que lhe fora segredado por um amigo, uma vez, à porta de um bar em Montpellier. Tal rumor postulava que grande parte da parte histórica da cidade berço é falsa, sendo o resultado de três grandes projectos urbanísticos iniciados em 1810 de modo a se conseguir, rapidamente, o estatuto de cidade para a então pequeníssima vila (o que se consegue em 1853). Tais projectos teriam sido executados segundo metodologias medievais achadas e estudadas na única casa de tal altura que permanecera em pé, resistente singular, a par do Castelo e de algumas igrejas, ao grande fogo de 1667. Este plano viria, uma centúria depois, a ser retomado pelo Estado Novo com o desiderato de afastar Craveiro Lopes de Lisboa estabelecendo a residência oficial da Presidência da República no Paço dos Duques de Bragança. Desde que chegou a Guimarães, no Outono de 2004, Guy Marais tem-se dedicado a recolher provas desta tese, na qual acredita piamente, apesar de só ter o Paço como sustentáculo fáctico-intelectual do que defende."


Georges Savage, Outubro de 2007.

domingo, 4 de novembro de 2007

Aos amigos

Aos amigos que me convenceram a acompanhar os respectivos fedelhos ao Multiusos para verem o “Ruca ao vivo”, enquanto eles, demonstrando sentimentos caritativos e de solidariedade humana que me tocaram fundo, faziam o sacrifício de assistir ao espectáculo que um antigo sem abrigo brasileiro ia dar no Vila Flor, venho expressar publicamente o meu reconhecimento pelos memoráveis momentos que me proporcionaram com o seu sacrifício. Os putos adoraram o Ruca, o Luís, a Clementina, a Rosita e o gato das Riscas. E eu fiquei fora de mim, em estado de exaltação eufórica, mais ou menos assim:

[Ana Carolina & Seu Jorge - Chatterton]

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Devolvendo um coice

Ontem, quando a manhã já estava mais para lá do que para cá, senti uma quentura desagradável na minha orelha esquerda, que se fez acompanhar por um rubor irritante e persistente. Só mais tarde, ao vir ao Café, percebi a origem do incómodo, mas não percebi o que percebi. Tinham tentado assestar-me uma aguilhada de cernelha, foi o que foi. Confesso que aquilo me deixou apoquentado, aborrecido e, talvez mesmo, um tudo-nada melancólico. Para desassombrar, fui caminhar por aí, pensativo e cabisbaixo. Dei comigo na veiga de Creixomil, junto a um acampamento de zíngaros e, ao ver o que vi, pensei cá para mim: ora aí está quem deve ser capaz de me explicar onde o Pedro queria chegar. Cheguei-me a ele e declamei, de um fôlego e de cor, a inopinada posta bacorina. A resposta que deu às perguntas do de Leitões foi sonora, porém enigmática, mas assertiva e, sobretudo, muito convincente. Foi assim:


Eu vi o progresso em forma de muridae

Estes dias, vinha eu no Campo da Feira a ler o Expresso do Ave, quando reparo numa cena insólita: mesmo ali junto à líder das grandes superfícies "low-cost" vimaranenses do pronto-a-vestir, a "Inflacção negativa", vejo um rato a atravessar o passeio, passar à minha frente, e enfiar-se por trás de uma caixa da EDP.

A minha primeira reacção foi reveladora de um certo asco e surgiu em duas fases distintas: Uma primeira (gritada) e que foi qualquer coisa como "Fôda-se! Cá puto de nojo!"; uma segunda (reflectida) e que foi do género: "Como é possível que uma cidade património da humanidade e que faz alarde da sua limpeza e higiene, tenha rataria a passear-se nas ruas?!"

Indignado, dobrei o jornal, apertei o cilício, estuguei o passo e dirigi-me à Câmara para expressar o meu protesto.

Uns metros à frente, junto à "Tasca Expresso", parei. Percebi que a decisão que acabara de tomar não fazia qualquer sentido. Não fazia sentido , em primeiro lugar, porque eram nove e meia da noite. Em segundo lugar, apercebi-me de que o avistamento do roedor era, afinal, um excelente augúrio. Pois não são as grandes metrópoles como Londres e Nova York assoladas por pragas desses bichinhos? Nesse momento percebi tudo: se os ratos têm um 6º sentido, que os faz prever as desgraças, devem ter um sétimo que os faz antecipar as venturas. Ora, eles já devem ter sentido que, com "Capitais de cultura", lagos artificiais, túneis, jardins subterrâneos e demais maravilheiro que aí vem, Guimarães é "the next big thing".

Fiquei feliz. A ratice já está a chegar, logo, o progresso está ali ao virar da esquina (por detrás da caixa da EDP). Entrei na tasca e mandei vir uma malga de tinto. Era tempo de festejar.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O Paradoxo do Otorrino (*)

Denho andado dom o dariz endupido, as oiças odstruidas e a garganda imbadida bor um agende badogénido, brobabelmende um midroorganisbo...


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(*) ... a barte baradoxal reside do fado de sofrer ainda duba esdenose da bíscera dubular músculomembradosa que vai do duodedo ao redo, adombanhada de fladulência.



Em louvor e simplificação de um Lago para Guimarães

Onde se explica que não devemos rir como cavalos daquilo que não entendemos e de cernelha se argumenta que se em tempos ainda que remotos Guimarães esteve submersa em água é tempo agora de ter o seu Lago.


Quando a gente pensa que o Aldo todo gingão no uso da gramática se atira às lebres de Santa Clara, ei-lo logo de seguida a derramar-se no pensamento único da maledicência, nesse limbo verde de absinto onde se dissolve a difícil linha de consequência e responsabilidade. É mais uma boutade para ser glosada até ao tutano pelos maralhal do café. A cena do lago na veiga de Creixomil é motivo de paródia geral, é como bater no cidadão portador de deficiência visual.

Eu cá na minha acho que “eles” apresentaram o Lago nos 5 projectos para Guimarães como Boi Sacrificial, nascido para morrer.

Qualquer dia o Lago vai à vida ou encolhe para um espelho de água com repuxos fazendo eco das inquietações da sociedade civil. E virá então e depois o ritual laudatório da participação cívica, do diálogo e da tolerância democrática entre “eles” e os cidadãos empenhados.

Já estive na selva amazónica sem sair de casa, já vi muita coisa, o suficiente para dizer que teorias da conspiração são como as bruxas

A pergunta devia ser: é possível, ali, ter um lago bonito, limpo e que possa ser usado?

E conforme a resposta outra pergunta, precisamos disso?

A bem dizer o intróito prometia mais, ando cansado. Desafio era requalificar o planeta dos macacos e a ilha dos jagunços com um bruto projecto do Oscar Niemeyer, implodir a Quintã e amar o próximo assim coisas simples, estás a ver?

A Tasca da Perigosa é Nossa

O que fez Guimarães para merecer um enxovalho deste tamanho?
Será que já não há vimaranenses como antigamente, daqueles que levantavam a sua voz e resistiam à afronta com justos insultos e pedradas mais do que merecidas? O que andam a fazer os nossos autarcas, que ainda não vieram a público exteriorizar sinais de mais do que justa revolta?

A Tasca da Perigosa faz parte da Guimarães profunda, é um património nosso e inalienável. Integra a memória vimaranense, que também tem direito ao seu bas-fond. Deveria ser defendida. Se tinha problemas a resolver com a lei, esse era assunto nosso e só nosso.

Polícias de Barcelos (e logo de Barcelos!) a sitiarem Guimarães? Os detidos conduzidos para o tribunal de Famalicão (e logo Famalicão!)? Então, em Guimarães já não há polícias nem tribunais?

Não têm nada a dizer, senhores de Santa Clara, perante tamanha
ignomínia?

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Meu Domingo

Ontem quando acordei sentia-me algo cansado. Tinha tido uma noite alucinante numa discoteca da Povoa de Lanhoso. Acordei completamente nu, apenas coberto por um capote alentejano. Ao lado da cama tinha um balde de gelo com um dedo mindinho (humano) cortado e cuidadosamente mergulhado no gelo que, em parte, já se encontrava a modos que derretido. Até aqui tudo bem. Livrei-me daquela tralha toda e decidi ir tomar o meu pequeno-almoço e ver as notícias. Queria estar a par de tudo o que se passa neste Mundo horrível em que vivemos.

Ao ligar o televisor reparei que não conseguia ouvir nada. Barafustei com o electrodoméstico (espero que as tvs se insiram nesta categoria) e decidi ligar a telefonia. Ao ligar o aparelho apercebi-me que também não conseguia ouvir nada…Comecei a ficar preocupado com o silêncio sepulcral que se fazia sentir. Só podia haver uma explicação para o que estava a acontecer: eu estava surdo!

Saí de casa rapidamente em direcção à clínica mais próxima. Pelas ruas, pejadas de gente vinda de todas as partes do concelho, senti-me como a primeira personagem de um filme mudo vimaranense. Mudo ou surdo? Mudo ou surdo? Filme mudo ou filme surdo? – perguntava-me eu, enquanto corria esbafodido pela cidade fora.

Ao chegar à clínica dirigi-me à recepção onde fui recebido com um sorriso que tinha tanto de mudo (ou de surdo?) como de cínico…Vi que havia ali uma dose de conspiração, ou de filme mudo de ficção cíentifica/terror (daqueles em que ou outros são os maus e eu sou o bom). Corri dali para fora o mais depressa que pude. O medo apoderava-se de mim. Nas estradas que eu atravessava a correr os carros, sem que eu os ouvisse, buzinavam e tudo me soava, sem que eu ouvisse, a loucura.

Procurei refúgio nestes pedaços de campo que ainda teimam em esconder-se dentro da cidade. Perto do novo Mercado, ao saltar um muro caí na fresca relva de um campo e desmaiei. Acordei com uma cabra a comer um pedaço de salsa que me saía do meu ouvido direito. Constatei que tinha um raminho de salsa enfiado no meu ouvido esquerdo. Após o retirar reparei que ouvia perfeitamente.

Foi um Domingo diferente o meu. Fui para casa, aproveitei a salsa e ao almoço fiz um bacalhau à Braz. Ao jantar aproveitei a cabra, que por uma questão de gratidão tinha adoptado, e fiz uma chanfana.

Boa Semana!

domingo, 28 de outubro de 2007

Última Hora: Guimarães Sitiada

Hoje madruguei. E, ainda por cima, é domingo.

É o que faz mudar a hora. Sou contra. Fica uma pessoa sem saber a quantas anda durante uns dias, o que não é nada bom para a saúde. Resolvi vir para a cidade, tirar retratos aos vimaranenses (algum dia se há-de corrigir uma das maiores injustiças de todos os tempos, e eu quero estar preparado para esse dia).

Em chegando ao Toural, encontrei a cidade sitiada. Eram polícias, muitos polícias, daqueles que assustam só de olhar para eles. Ainda nem tinha conseguido esfregar os olhos, que ficaram baços de espanto, e já dois amáveis matarruanos, com as caras tapadas por passa-montanhas que só deixavam ver os olhos, me advertiam de que, fotografias, nem pensar (não havia necessidade do aviso: eu só queria fotografar vimaranenses e aqueles senhores, que nem cara tinham, não tinham cara de gente de cá).

Fiquei em pulgas, fervendo de excitação. Estava em curso, sem dúvida, no mínimo, uma operação anti-terrorista. E já estava a ver os noticiários internacionais a abrirem com imagens da nossa cidade. Guimarães, na rota do terrorismo internacional. Excelente propaganda, pensei cá para mim (já imaginava um brilhante slogan da Zona de Turismo de Guimarães, em que se exploraria a proximidade fonética das palavras terrorismo e turismo).

Parece que me enganei.

No quiosque onde fui comprar uma caixa de fósforos (não pelos fósforos, mas para ouvir o que se dizia, porque não conheço fonte de notícias mais segura do que o sítio por onde aparecem todos os jornais), percebi que se tratava de uma operação da ASAE.

Afinal, os tipos eram da ASAE. Haverá notícia mais desinteressante?

Segundo o que apurei junto da minha fonte (que não devia ser suspeita, porque não vi por lá nenhum daqueles polícias), todo aquele aparato tinha a ver com uma rusga a um talho clandestino que vendia carne importada da América do Sul, ali para a Avenida D. Afonso Henriques, muito discreto, escondido atrás de vidros fumados e sem nenhuma indicação na porta (excepto um autocolante do Halls Mentho-Lyptus, que sempre me pareceu muito suspeito).

Ora bolas. Uma reles operação da ASAE.

Guimarães merece mais, muito mais!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Estarão Doidos?

Ontem meteram-me por baixo da porta o cartaz que aí vai, que vinha acompanhado por um convite. O autor da façanha ou é alguém que tem um sentido de humor tão aprimorado e subliminar que não está ao alcance do comum dos mortais, ou não passa de um reles e grosseiro provocador, ou, simplesmente, será um suicida que já perdeu o amor à vida. Era só o que nos faltava: promover uma exposição fotográfica sobre os vimaranenses, acompanhada por um livro sobre os ditos em que não participa a maior sumidade na matéria, será o mesmo que falar de futebol e não convidar o Luís de Freitas Lobo, discorrer sobre o coração sem ouvir o Professor Pádua, dissecar uma ocorrência de faca e alguidar sem auscultar o Moita Flores, reinterpretar o milagre da Rainha Santa Isabel sem consultar o Hermano Saraiva ou cavaquear sobre sexo na ausência da palavra sábia do Machado Vaz. Estou mais ou menos abespinhado, praticamente em estado de choque e quase quase a espumar de raiva. Já rasguei o cartão do Cineclube e garanto que não volto a pôr os pés no Museu Alberto Sampaio. Fazem-me aquilo pelas costas e ainda lhes sobra lata suficiente para me mandarem um convite, como se eu me prestasse a ir prestigiar aquela excelentíssima porcaria. Já não há decência, essa é que é essa!

A Difícil Vida Na Citânia

Bartildun ruminava no seu jardim, dando às malvas o portador da mensagem que acabara de lhe chegar. Por diversas vezes invocou o nome de Nabia em vão, como outras tantas, antes dessas, em vão, o invocara. Era pesado o momento. Bursu, sua filha única e tesouro maior do humilde caçador, era perdida às mãos e outras partes do vigoroso, Ebarcor, “O Desfibrilhador”, filho de Burun.

Ficou, assim, entre atónito e angustiado, matutando no feito até ao anoitecer. Rogou pragas, espezinhou ervas e flores, pontapeou gravilha, remoeu em silêncio. Cara fechada e punho tenso, inopinada e distraidamente afagou diversas vezes a alabarda que jazia, encostada ao muro que delimitava o seu pequeno jardim. Hesitou ainda recorrer à justiça, mas a sua raiva não podia esperar.

A coberto do ocaso, saiu a pé e, após galgar os sucessivos muros que delimitavam e protegiam a civitas, sem se deixar detectar, percorreu firme os atalhos que, mesmo sem luz, reconhecia, primeiro a descer São Romão, posteriormente e sempre, na direcção de Sabroso. Sabia onde encontrar o meliante e já nem via bem, apesar da lua cheia. Na sua mente, cruzavam-se ideias várias, incoerentes, de como tudo devera ter ocorrido, o animal possuindo a sua filha, à bruta, o seu suor fétido pingando sobre o dorso alvo da adolescente. Por um momento, sentiu uma vaga excitação e enleou-se em pensamentos lúbricos, mas depressa retomou a sua determinação anterior, ao embater no tronco indelicado de um pinheiro.

Encontrou-o, bêbado, fora das muralhas, como previra, a dormitar sobre a hacaneia, quase a cair. Empunhou o punhal que seu pai, como ele caçador, lhe legara e, áspero, atirou:

- Ebarcor, filho de Burun! Um destes dias fodo-te!

Ebarcor, tentou endireitar-se, o que resultou apenas numa queda, e choramingou, quase a vomitar:

- Nabia m’arrebente, paizinho, se não amo a cachopa! Não se afadigue que antes de cumpridas duas jornadas, irei almoçar a sua casa, por mor de a desposar!

Bartildun chegou a casa às primeiras luzes da alvorada, entrou em silêncio, beijou a fronte de sua filha e, depois de se aquecer com o fogo que crepitava ainda ao centro da habitação, encostou-se o mais que pode à sua companheira, sussurrando-lhe ao ouvido:

- Amanhã, prepara o bornal que vou sair a caçar todo o dia e toda a noite! E adormeceu, na ilusão de que Ebarcor não era um grande mentiroso.

Por Onde Andas Tu, Guy Marais?

Última fotografia conhecida de Guy Marais, momentos antes de se perder na multidão, por Misha Gordin.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Toda a Verdade Sobre o Coiso da Colegiada

Na esquina mais famosa da torre da igreja da Colegiada de Guimarães, está suspensa uma figura de pedra grotesca, representada numa posição impraticável para o comum dos mortais, que seria um nadinha obscena e escandalosa, não fosse muito proveitosa e exemplar. Consta que está lá desde os tempos em que torre foi levantada, nos inícios de quinhentos, mas já quase ninguém sabe o segredo que nela se guarda. Aqui vo-lo deixo, tal como o bisavô do meu tio Francelino a ouviu contar ao sogro do seu tetravô, por lhe constar de um seu antepassado longínquo que a sabia de outiva.

Lá pelo ano de mil quinhentos e algo mais, começaram a suceder em Guimarães aparecimentos sinistros e inexplicáveis. O primeiro ocorreu em dia incerto, quando a tarde começava a cobrir a vila com a sua mantilha de lusco-fusco e o sino de correr já ia anunciar que as portas da vila se cerravam. Uma tal Brites, criada de fora da Casa do Arco, entrou espavorida na Praça Maior, em brados e prantos, anunciando que o demónio em figura lhe tinha aparecido à frente, junto à porta da Freiria. Dias depois, mais ou menos pela mesma hora, apareceu no terreiro das freiras de Santa Clara uma moçoila chamada Efigénia, filha do sapateiro da Porta da Vila, clamando por Jesus e pela Virgem Santíssima, que se lhe tinha figurado coisa ruim, ali perto dos Trigais. Nos dias que se seguiram, contaram-se outras aparições medonhas e sombrias. Na vila, os boatos circulavam asinha, com o diz-que-diz a acrescentar ao tamanho dos prodígios. O medo instalou-se e, por força do medo, nenhuma das mulheres de Guimarães ousava aventurar-se, desacompanhada, por fora dos muros da Vila, a partir dos meados da tarde.

Nenhuma, excepto uma. Uma brava e avantajada matrona, Alzira na sua graça, língua viperina e taberneira na rua da Arrochela, que, aos que lhe comentavam o destemor, respondia, seca, obscura e simplesmente:

- Ele que me apareça pela frente…

Certo dia, sucede o inevitável. O encontro. Alzira vinha das Hortas do Prior, com uma carga de lenha à cabeça e um molho de couves no regaço, quando escutou, sem sequer tremelicar, uma gargalhada que soou com uma entoação sinistra. Pela frente, viu surgir-lhe um embuçado que segurava, com ambas as mãos, as beiras da capa que o cobria, pondo à mostra um homem exíguo, nu e malfeito. Alzira mal conseguiu conter o espanto e a incredulidade perante a monstruosidade que os seus olhos lhe mostravam: um homem tão pequenino com aquilo tão desmesurado.

Foi então que ecoou por todas as praças e ruas da vila um grito furioso. O que disse foram palavras que ficaram gravadas para sempre nos anais de Guimarães:

- Ah, fideputa, vais engolir isso!

E assim foi. Daí a pouco, encontravam-no, curvado, morto, roxo e irremediavelmente asfixiado com aquilo enterrado até às goelas.

Celebrando o feito de Alzira, os vimaranenses resolveram perpetuar o martírio do infortunado capinha Nicolau Perdigão, mandando esculpi-lo em pedra e colocando-o naquela esquina da torre da Colegiada, para memória e escarmenta de outros que tais vindouros.

Os Clientes: Jean-Paul Voreira

Quem é Jean-Paul Voreira? Ninguém sabe.

Como todas as grandes figuras da nossa história, a personagem e o mito tendem a confundir-se. Assim, se sempre se pensou que havia nascido numa casa ao cimo da Rua de Camões, há hoje quem afirme que afinal veio ao Mundo em Viseu. Indubitavelmente.

Se uns dizem que nasceu em 1973, outros afiançam que foi em 1937. Há ainda quem defenda que o nascimento se deu em 1379 e foi mesmo publicado recentemente um pequeno opúsculo defendendo a tese que afinal foi em 3197, ou seja, que ainda não foi.

Mas se o passado de Jean-Paul Voreira é um tanto nebuloso, o presente não o é menos. Onde vive? Em Aldão, ou no último piso do edifício dos correios? É loiro, moreno ou anão? Não sabemos.

Sabemos sim que cursou arquitectura paisagística numa Universidade da Ucrânia e que foi o autor do tristemente esquecido 6º grande projecto para Guimarães: a criação de um corredor verde que começava na Caldeiroa e terminava em Atães.

Fora isso, resta a lenda: que é o "Alter Ego" de algumas personalidades vimaranenses das quais destacamos Pimenta Machado e Manuel Perú; que já andou à porrada com o Zé Lingrinhas e com o Cónego Melo e que tem problemas de bexiga.

Mito ou realidade? Verdade ou invenção?

A palavra a Jean-Paul Voreira.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Denúncia

Como de costume, aconchegado o bacalhau, fui pelo digestivo, um café de saco e um bagaço, do especial, o da garrafa do canto. Estava eu a contar as moscas e, quando já tinha contado duas, ou dezanove, ou nenhuma, começou a ramalhar no meu ouvido de tísico, que é o que fica do lado esquerdo, a conversa dos dois comparsas que fungavam por entre dentes na mesa ao lado. Se bem reparei, eu até os conheço, que já os terei visto um par de vezes lá para as bandas de Santa Clara. Se calhar, trabalham por lá, embora conste que, ali, não há quem trabalhe. O segredo que contavam, se era segredo, vai deixar de o ser, porque eu não sou de guardar estas coisas só para mim. Falavam eles nos projectos, os tais, os cinco para que Guimarães nunca mais volte a ser o que já foi, que estão em discussão pública, esperando-se que da discussão se faça luz num par, ou cinco, cabeças, já de si muito luminosas. E percebi dos seus cochichos que, muito à puridade, pela calada, que primeiro há-de ser para os amigos – inusitado seria se o não fosse (quem atrás vier, há-de fechar a porta, se a não encontrar fechada) –, já se preparam para começar a aceitar pré-inscrições para os postos de amarração da futura marina da Veiga de Creixomil.