segunda-feira, 5 de maio de 2008

Toda a Verdade Sobre o Guimarães das Duas Caras

A propósito da estátua do Guimarães que toma conta da praça da Oliveira, muito se tem dito em desabono do carácter dos vimaranenses. Que temos duas caras, dizem por aí alguns à boca pequena, o mesmo que outros dizem à boca grande. Para dourar a pílula, houve quem lançasse mão a uma patranha mui mal amanhada, na qual se misturam barcelenses em retirada na conquista de Ceuta com vereadores de vassoura na mão e barrete vermelho na cabeça. A verdadeira história daquela estátua, com as suas duas caras, é bem diferente e eu vou contá-la.


Era em Suaken, no sul de Marrocos, no ano de 1578, quarto dia do mês de Agosto, em que se travava a para sempre memorável e trágica batalha de al-Kasr al-Kebir. A peleja ia rija, com os ventos a correrem de feição às hostes portugueses, quando começa a correr a notícia de que sultão Mulei Maluco tinha sido varado por um tiro, indo entregar a alma a Mafamede. Já os gritos de vitória! vitória! vitória!* atroavam, em uníssono, nos céus marroquinos, quando os súbditos de D. Sebastião foram apanhados de surpresa pela inopinada arremetida da infantaria mourisca, saída de onde só Mafoma sabia.

Do que se passou a seguir, os relatos não coincidem.

Dizem uns que se escutaram incitamentos à resistência:

Ter! Ter!

Outros contaram que os gritos que se ouviram ordenavam a retirada:

Retira! Retira!

Por último, há quem garanta que a ordem não era para resistir, nem para retirar, mas sim para regressar (mas ninguém soube dizer para onde):

Volta! Volta!

O que parece certo é que todos os relatos estavam dentro da verdade e que todos aqueles gritos ecoaram em simultâneo. As vozes misturavam-se, pois, vindas de todas as direcções:

Ter! ter! Volta! Volta! Retira! Retira!

Os que se acharam naquela babel ficaram, naturalmente, confundidos, baralhados e, até mesmo, algo indecisos. O caos e a desordem instalaram-se entre as hostes de Sebastião. Com tanta balbúrdia e tamanho alvoroço, as tropas portuguesas logo se viram cercadas e vindimadas pela arcabuzaria sarracena. E então, as areias quentes de al-Kasr al-Kebir tingiram-se de vermelho, lavadas pelo sangue dos portugueses.

Com a derrota eminente, narram as crónicas que apenas Sebastião e um pequeno grupo de homens resistiam. Ficaram para a História as palavras de D. João de Portugal:

Que pode haver aqui que fazer, senão morrermos todos?

Muito se tem escrito sobre o sentido da resposta que então lhe deu D. Sebastião:

Morrer, sim, mas devagar!

O que sucedeu a seguir é um mistério que, até ao dia de hoje, ficou por contar.

A certa altura, levantou-se um vento agreste e sufocante, fazendo cair sobre al-Kasr al-Kebir uma névoa seca e espessa, um limometeoro, enfim, uma tempestade de areia. D. Sebastião, que não tinha vontade de morrer depressa, aproveitou o ensejo para abandonar o campo de batalha, acompanhado apenas por sete dos fidalgos que o acompanhavam. Entre os que seguiram o rei fugitivo, ia um Baltazar Pacheco de Alcoforado, a quem, segundo uso militar antiquíssimo, chamavam o Guimarães, por ser natural desta santa terra.

Seguiram rumo ao Sul, pelas quentes e secas areias do Saara, escondendo-se nos dias claros e tórridos daquele Agosto quinhentista, caminhando nas noites gélidas, com os seus passos guiados pela linha do mar e pela cintilação das estrelas. Entre eles, já não havia rei, nem súbditos, todos eram iguais: cansados, esfomeados, sequiosos e fugitivos. Não se sabe quantos dias andaram nesta retirada. No limite das forças, tiveram de tomar uma decisão dramática, empurrada pelo instinto de sobrevivência. Precisavam de comer, mas não tinham o quê. Decidiram que um deles seria sacrificado, para que os outros se pudessem salvar. Tiraram as sortes, e a mais aziaga calhou ao rei. De nada lhe adiantou invocar a sua majestade nem o direito divino. Foi esquartejado e repartido entre os sobreviventes, que se banquetearam com as carnagens reais.

Mais uma vez, como tantas outras, o destino zombou dos homens. Por uma estranha ironia, quando ainda estavam mergulhado no torpor pós-prandial que os atacou depois de tão extraordinária refeição, avistaram ao longe uma nau, que só podia ser portuguesa. Correram à praia, acenando, furiosos, com a bandeira real que um deles tivera a lembrança de trazer consigo.

Foi assim que se viram de regresso a Portugal. Antes de embarcarem, juraram guardar segredo quanto ao acontecido com o rei D. Sebastião, o qual lhes poderia ter sabido bem melhor, tivessem eles sal e pimenta.

Como a tragédia daqueles homens parecia não ter fim, quando já chegavam a Lisboa, depois de atravessarem todo aquele mar, levantou-se tamanha tempestade, que fez o navio naufragar. Nenhum deles se salvou, a não ser o Guimarães, que deu à costa na praia de Carcavelos.

Em Guimarães, Baltazar Alcoforado foi recebido como um herói. Era ele, afinal, um estóico sobrevivente de uma aventura insana cujas consequências Portugal pagaria com a sua própria independência. Nunca contou a ninguém a verdade do que se tinha passado com ele naquela praia da Mauritânia.

A ninguém, excepto ao padre Inácio Laranjo, claro, mas foi como se o não tivesse contado, posto que o assunto ficou resguardado por segredo de confissão.

Quando morreu, decidiram fazer uma estátua que perpetuasse a memória daquele herói vimaranense. Na altura, alguns estranharam o alvitre insistente e enigmático do Padre Inácio, homem que tinha tanto, ou menos, de piedoso como de gaiteiro, para que o representassem com uma cara na barriga. O mestre-pedreiro não viu nenhum mal na pilhéria, e fez-lhe a vontade.

E lá ficou o Guimarães, para a posteridade, imponente, sereno e majestoso.

Ao contrário do que por aí dizem, não tem duas caras. Mas tem o rei na barriga.

*Grito que os vimaranenses repetirão tantas vezes, séculos mais tarde, mesmo quando o barco se afunda.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Província

As leituras dos jornais deixam-nos muitas vezes espantados. Tal como o meu caríssimo companheiro de café (Honoré), fiquei perplexo por saber que na Guimarães Capital Europeia da Cultura, se vai gastar um pouco mais do que se gastou com a Casa da Música. Afinal, como é possível gastar-se mais a requalificar dez hectares de uma cidade de província do que a construir um edifício no cosmopolita Porto?

Muito tenho reflectido sobre a nossa condição de “província”. Realmente estamos muito longe de tudo o que possa ser vagamente urbano. Estamos a 30 minutos do Porto, a 2h de Vigo, a 3h de Lisboa e a 5h de Madrid. Contudo, o nosso ego põe-nos a 0 minutos do centro do mundo, pois este é o local onde nós gostamos de viver, ainda que esse local seja na “província” e que a nossa vontade seja “provinciana”.

Após estas reflexões algo descabidas, soube de uma notícia que muito me agradou: os 15000 habitantes de Alcântara vão ver, também em 2012, a sua freguesia requalificada com um investimento de 600 milhões de euros.Finalmente uma cifra digna de uma Capital d’Império! A minha satisfação prende-se com o facto de saber que Lisboa está já livre dos problemas que assolam as cidades comuns (bairros sociais, degradação de edifícios históricos, etc) e que ainda não se encontra suficientemente endividada para se desviar do encantador caminho dos mega investimentos!

Também fiquei imensamente feliz por saber que a nossa cidade não tinha sido contemplada com uma verba excessiva para 2012 e que (apesar de GMR20012 poder vir a vergonhosamente superar o custo da Casa da Música) o país ganhou bom senso e decidiu pôr o dinheiro no seu devido lugar: Alcântara.

E assim corre o tempo numa das províncias mais pobres da Europa: o nosso belo Portugal.

domingo, 27 de abril de 2008

Quando Tanto É Muito, Mais Pode Ser Pouco

O meu exercício quase diário de leitura dos jornais costuma resumir-se a uma passagem de olhos pelas primeiras páginas, à porta do quiosque Cuca. Quem, como eu, das notícias já não consegue passar dos títulos, não raramente fica baralhado. Muitas vezes, lendo as gordas, percebe-se que os acontecimentos acontecem de maneira radicalmente diferente, em função dos jornais que narram o acontecido. Nada de anormal: cada um gosta de contar os contos à sua maneira, acrescentando-lhe cada qual tempero a gosto. Agora, se o mesmo jornal, no mesmo dia, em dois títulos que remetem para a mesma notícia, diz coisas diferentes, já acho um pouco estranho. É assim no Público de hoje. No rodapé da primeira página, apontando para a página 14, li o título: “Capital da Cultura / Guimarães vai custar mais do que a Casa da Música”. Tive um súbito assomo de vimaranensidade, fiquei em pulgas, quis saber mais, comprei o jornal, desfolhei-o até à página 14, li o título: “Capital Europeia da Cultura de 2012 vai custar tanto como a Casa da Música”. Fiquei confuso: vai custar mais do que? Ou vai custar tanto como? Entre o mais e o tanto, que diferença vai? Custando mais ou custando o mesmo, vai custar muito? ou vai custar pouco?

Depois de pensar um pouco, concluí que, se Guimarães só tivesse para gastar, com toda a festa de 2012, o mesmo que o Porto gastou com só um item do programa de 2001, isso não seria gastar pouco, seria um insulto. Não, não e não! Jamais poderíamos aceitar tal ultraje, tanto menosprezo, tamanha ofensa, semelhante agravo.

Depois de pensar mais um pouco, deu-me para fazer contas e fiquei com este sorriso quase obsceno, de orelha a orelha. A Casa da Música tinha um orçamento inicial de 16,25 milhões de euros e, no fim de contas, mais derrapagem, menos derrapagem, ficou por 100 milhões. Ultrapassou, portanto, mais de 6 vezes o orçamentado. Para Guimarães está previsto um orçamento de 111 milhões de euros. Acreditando que ninguém ousará impedir-nos de praticarmos um dos desportos nacionais predilectos, a derrapagem orçamental (quem poderia ousar?), e dando como adquirido que a Casa da Música será o nosso termo de comparação, temos o direito inalienável de aplicar o mesmo multiplicador ao orçamento inicial. Vamos, pois, gastar 683 milhões. Se a quantia não é estratosférica (diria mesmo que será um tanto ou quanto módica, se não modesta), sempre deve dar para umas dúzias de foguetes.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Missão Cumprida

Agora cumpra-se o prometido: venha daí a medalha de ouro da cidade de Guimarães.

[Com Pedro dos Leitões]

sábado, 19 de abril de 2008

O Trogloditismo à Luz da Nova História da Bastardia

Com o rigor sociológico que costuma marcar as reportagens que publica sobre a nossa cidade, lá está na página 26 do Expresso(*) de hoje mais um notável retrato dos vimaranenses, que são apresentados, para não variar, como os maiores entre todos os grunhos do planeta Terra. Por lá passa uma cidade onde tudo pára por causa do pontapé na bola(**) e passam também um velhote com delirium tremens que se recusa a comer no Natal, por causa do Vitória, claro, um jovem advogado com nome de passarinho, que nunca mais se pós-gradua, porque falta às aulas para ir à bola, um gestor estalinista que proíbe a família de ir de férias enquanto durar a época futebolística, uma muito feminil claque de malucas, para quem o vitória é mais importante do que a família e, la cerise sur le gâteau, um inigualável decorador de interiores, de gosto fino e delicado, que vive numa das “zonas chiques” da cidade e que tem na sala “um pequeno templo dedicado ao clube”, que inclui uma, très chic, parede de azulejos, pintados à mão, com a imagem do estádio, uma toalha na mesa de jantar, chiquérrima, com o emblema do vitória a preto e branco e um estendal de cachecóis, de “todo o tipo” e com “frases bélicas”, pendurado no tecto, chique a valer. Foi pela voz de tão excelso artista que actualizei o meu conhecimento acerca do porquê dos bragueses chamarem espanhóis aos vimaranenses, em resposta ao carinhoso epíteto de marroquinos que lhes atiram do lado de cá: “os de Braga chamam de ‘espanhóis’ aos de Guimarães por serem descendentes de filhos bastardos da mãe de D. Afonso Henriques com castelhanos” (***). Li três vezes, assim como quem pergunta: “importa-se de repetir?”, para ver se estaria a ler bem. Afinal, vamos ter de reescrever a nossa história e a biografia da mãe de Afonso Henriques, e sua progenitura, além de refazer a nossa genealogia, à luz dos sábios ensinamentos do requintado, e esfuziante de chique, mestre de artes decorativas.

(*) Não, não é o incontornável Expresso do Ave. É aquele jornal que, se fosse vendido ao quilo, ainda saía mais caro. O Expresso simplesmente.

(**) Eu julgava que só parava a Assembleia Municipal. Reconheço-o, estava redondamente enganado.

(***) Eu julgava que era por causa de certo ex-presidente do Vitória, com quem a justiça anda agora a ajustar contas, por ele um dia ter ameaçado inscrever o clube na liga espanhola. Estava enganado redondamente, reconheço-o.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O Putativo, o Papagaio, o Lambe-Botas e a Dor-de-Corno

Cá por estas bandas, isto tem andado um pouco parado, por falta de matéria. Em Guimarães anda tudo muito certinho, e não fora o Presidente da Junta de Sande, o Clemente, a revelar-nos que na sua freguesia há anciãos com memória de mastodonte, capazes de recordações que vão, pelo menos, até ao tempo dos castros, e isto andaria com absoluta falta de novidades e de sal.

Já aquela terra onde mora o senhor arcebispo, que fica para lá da Morreira, anda com outro salero. Ali, a política é um combate excitante, que se trava com grande elevação e uma certa inovação no uso da língua, mesmo antes da entrada em vigor do famigerado acordo ortográfico.

Aqui há dias, a oposição ao redil mesquiteiro, acusava o Município de estar “de costas voltadas para o conhecimento científico que é produzido nas diversas esferas de investigação” das “Universidades de B#*$*”.

A resposta veio em forma de comunicado do Gabinete da Presidência do Eng.º Mesquita, assinado por Mesquita, adj., profundamente inovador e criativo ao nível da linguagem da comunicação institucional, em que criticava o “pretenso recandidato do "partido-de-luís-filipe-menezes"”, a quem chama de “putativo”, palavra que, como todos sabemos, costuma usar-se quando se quer atirar um mimo a alguém através da interposta pessoa da senhora sua mãe, sem se usar expressão mais abreviada, o qual pretenderia mostrar “que, se e quando chegar ao poder, líderes académicos e dirigentes políticos não passarão um dia que seja sem que consertem o futuro do concelho ao sabor do mesmo prato e do mesmo copo e ao som de um trompete afinado pelo mesmo diapasão”. Porque, como ninguém poderá ignorar, “o Município de B#*$* sempre se assumiu e foi assumido como parceiro privilegiado das várias instâncias universitárias bracarenses, participando activamente nos projectos que desenvolvem”. (Claro que sim, ninguém duvida: basta recordar, por exemplo, o que aconteceu com a intentada candidatura do Minho a Região Europeia da Cultura).

A este comunicado respondeu o Jiminy Cricket da terra braguesa, que se revolta até ao nojo e atira que o comunicado camarário é “inacreditável para quem lê, é infame para a terra e é desonroso para a democracia”, classificando-o ainda como “um documento cujo conteúdo não vai além da política de sarjeta, servida num estilo trauliteiro, soez e brejeiro”, uma evidência da sua prévia constatação de que, por ali, a política “é raivosa, bafienta e pérfida”.

O visado pelos comentários subtis, delicados e graciosos do comunicado autárquico, o putativo, sai então a terreiro, com uma réplica à altura da elevação da discussão, a denunciar, “a soberba oca e os insultos desbocados que tive o privilégio de receber do "Autarca lambe-botas do Sócrates" e do seu papagaio de serviço”.

Até aqui, tudo nos conformes. Linguagem límpida, pensamentos cristalinos, conversa asseada. O problema foi quando um leitor resolveu deixar no blog do putativo um comentário enigmático, que rezava assim:

Eu acho que é uma grandessíssima "DOR DE CORNO"!

Aí, o putativo perdeu o pé, e provavelmente o tino, se não a razão, e descambou por completo, quando ia tão bem!, dando-lhe para se encher de pruridos e atirar uma advertência severa ao comentarista:

Apenas deixei passar esse excesso de linguagem porque está ao nível do comunicado. Mas tente evitar esse tipo de expressões.

Porque, como todos sabem, os papagaios, especialmente os papagaios dos lambe-botas, não têm cornos.

Olha Ela...

Pelo visto, a EN101, a tal de que eu falava (quando fui acusado de catastrofista e, até, aconselhado ao suicídio), é uma das estradas com mais pontos negros em 2007.
Cada ponto negro equivale a 5 acidentes graves (*)... às tantas o excesso de trânsito e as más condições, constantes, da dita não são alheios a isto.
Ou, então, sou eu que penso mal de tudo o que é responsabilidade do Estado, e os condutores é que são todos muito maus...
____________________________________
Imagem "furtada" à edição online do Público de hoje, dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

(*) Indicador de gravidade: IG = 100xM + 10xFG + 3xFL, em que M é o número de mortos, FG o de feridos graves e FL o de feridos leves.
Ponto negro: Lanço de estrada com o máximo de 200 metros de extensão, no qual se registou, pelo menos, 5 acidentes com vítimas, no ano em análise, e cuja soma de indicadores de gravidade é superior a 20.

Os acidentes em causa:
2007:03:28 15:35:00 0 1 EN101 96,300 Colisão frontal; 2007:01:28 19:55:00 0 1 EN101 89,200 Despiste com capotamento; 2007:07:12 16:40:00 0 1 EN101 79,010 Atropelamento peões; 2007:02:11 05:00:00 1 3 EN101 107,900 Colisão frontal; 2007:01:28 06:00:00 3 3 EN101 107,100 Despiste c/ col c/ v eíc. imob/obst.; 2007:08:06 19:30:00 0 1 EN101 84,650 Despiste simples; 2007:12:04 08:55:00 1 0 EN101 84,600 Colisão frontal; 2007:01:29 22:00:00 0 1 EN101 81,620 Despiste simples; 2007:09:09 07:35:00 1 0 EN101 81,260 Atropelamento peões; 2007:03:16 22:00:00 0 1 EN101 81,200 Col. tras. c/ outro veíc. mov.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Perdoa-lhes, Povo, Eles Não Sabem O Que Fazem...

"Lisboa, 10 Abr (Lusa) - O Conselho de Ministros (CM) aprovou hoje uma alteração ao regime de acesso e ingresso no ensino superior que permitirá a um estudante inscrever-se em simultâneo em dois ciclos de estudos superiores. O decreto-lei hoje aprovado procede assim à oitava alteração ao Decreto-Lei n.º 296 A/98, de 25 de Setembro, que fixa o regime de acesso e ingresso no ensino superior."

Tudo bem e normal, a única coisa a registar é o facto de um decreto-lei de 98 ir na sua 8.ª alteração. Ou seja, em 9 anos e uns dias de vigência, o diploma que regula o acesso ao ensino superior foi alterado 8 vezes... Agora vou aguardar para ver quantas rectificações é que o dito diploma vai sofrer nas próximas semanas/meses.

É por estas e por outras que o ensino em Portugal é o que é e está como está. É, de resto, por coisas destas que tudo está como está. É por ninguém com responsabilidades governativas, nos mais variados escalões da administração pública, saber ao certo o que quer, nem ter capacidade de prever a mais de um ou dois anos.

São as estradas que se asfaltam para se esburacarem em seguida, porque ninguém se lembrou de perguntar, antes de asfaltar, se, por acaso, a EDP ou a Vimágua ou TV Cabo ou a PT ou sei lá quem mais, não quer instalar qualquer coisa, antes de se fazer a despesa. Depois temos a EN101 no estado em que está (aquela estrada que liga a Ínclita Cidade àquela terreola a norte, cujo nome não ouso pronunciar). E está nesse estado, mais ou menos de cinco em cinco anos, se não menos (por isso e porque se constroem auto-estradas por onde não passa trânsito nenhum, porque são demasiado caras, mas também ninguém previu isso).

São as ruas estreitinhas com que somos contemplados em cada legislatura, porque ninguém se lembra que elas vão servir por muitos e longos anos. Quer-se a cidade dos 100 mil, mas com caminhos de cabras, com os passeios todos muito alinhados, a terminar em ângulos rectos, para que os autocarros ocupem ambas as faixas de rodagem quando mudam de direcção ou, mesmo, subam os passeios, assustando os demais condutores (quando não são atirados para cima dos passeios ou amolgados) e os pedestres que circulam nos mesmos.

São os mercados que se constroem para ficar às moscas e os espaços que tardam em se revitalizar e, quando o forem (revitalizados), por falta de quem pense nisso, também vão ficar às moscas, por falta de público para eventos que não acontecem e que, mesmo que aconteçam, não têm público suficiente para estar em todo o lado e, muito menos, com dinheiro suficiente para ir a tudo.

São as taxas que se colocam no máximo, como se já não bastasse tudo o resto - no máximo - e todas as demais taxas que pagamos, sem perceber para que servem, nem quais as utilidades que, supostamente, desfrutamos, das quais são, dizem eles, contrapartida. Por exemplo: o que raio vem a ser a "contribuição audio-visual" que aparece na factura da electricidade? E a taxa de Exploração DGGE? Esta segunda, quer-me parecer, é a taxa que pagamos para sermos explorados pela DGGE. A primeira, é um bocado como as propinas e a taxa moderadora: é a taxa que (obviamente) se deve pagar por tudo o que, sendo serviço público (portanto já financiado pelos nossos impostos), devia ser universal e gratuito. Para melhorar a coisa, o Estado, esse amigalhaço que deve milhões aos privados que o fornecem, põe os mesmos privados a cobrar as taxas que revertem para ele. E, depois, o animal do PM (que é um animal, como todos sabemos, a menos que seja um robot-do-inferno - coisa que, confesso, já me passou pela cabeça), ainda tem a lata de anunciar (como se grande coisa) uma ridícula descida de 1% num imposto que ele próprio subiu em 2%, que não vai ter qualquer impacto, nem sequer nos preços (talvez, apenas, eventualmente, na margem de lucro dos nossos comerciantes, o que, a acontecer, já não será mau), como se, no total, impostos e taxas tivessem descido... E se fosse gozar com quem o monta, de cuja identidade e género não se sabe nada (e eu prefiro nem saber)?

E cá vamos andando, deprimidos que já nem tristes sabemos andar, o país todo a pastilhas, que engole com sapos e água de má qualidade e cara...

Uma mediocridadezinha...

Venha mais um fino, gerência, p'ra esquecer... Vá tirando que eu vou fumar lá fora, à chuva.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Como é Belo o País Pintado a Cor-de-Rosa ou Alice no País das Estatísticas

O Senhor Engenheiro desceu ao Vale do Ave. Veio anunciar, no seu discurso carregado com toneladas de convicção, que a crise acabou, porque, no ano passado, houve mais 4,2 por cento de exportações de têxteis. Porreiro, pá. Agora, parem lá de falar em todos aqueles que a indústria têxtil atirou para o desemprego durante o ano de 2007. A crise dessa gente não conta para as estatísticas do país das maravilhas.

sábado, 15 de março de 2008

Quero o Parque, Quero as Árvores, Quero Tudo

Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Guimarães,

Começo por me apresentar: sou o trigésimo sexagésimo quarto comerciante da zona do Centro Histórico de Guimarães e arrabaldes. Não me quis juntar aos 363 colegas que responderam ao inquérito da ACIG, por desejar comunicar-lhe de modo pessoal e intransmissível a minha opinião acerca do projecto do Toural.

Aqui vai ela.

Como não sou de enredos, nem enleios, nem gosto de dizer no fim o que posso dizer logo no princípio, direi que sou apoiante incondicional do parque subterrâneo no Toural, obra redentora e fundamental para a sobrevivência do comércio tradicional vimaranense. É que isto está mau, Senhor Presidente, muito mau. Nunca esteve tão mau, Senhor Presidente. Pior do que agora, só para o ano que vem. Isto está tão mau, tão mau, tão mau para o nosso comércio tradicional, que até a sex-shop do Toural, mal abriu, fechou portas.

Foi por isso que olhei para o projecto do Toural como uma luz ao fundo do túnel. A bem dizer, um túnel cheio de luz será ele, porque me dizem que vai ser o primeiro túnel a céu aberto do Hemisfério Norte. Quero o parque e quero mais. É necessário mais arrojo, Senhor Presidente, seja ousado e coloque os olhos na infinita dimensão do futuro. Um parque no Toural é pouco para tanto futuro. É preciso mais: um parque subterrâneo desde o Toural até ao fim da Alameda, isso é que será uma obra digna de um visionário.

Faça isso, Senhor Presidente, um parque subterrâneo que se veja. Mas deixe lá ficar as árvores, para que não lhe pese o arborícidio na consciência. É o meu coração ecologista que lho implora, Senhor Presidente. Eu e os meus colegas queremos o parque. Faça-o, mas sem mexer nas árvores.

Faça-o depressa, Senhor Presidente. De preferência, sem muito ruído e fora do horário comercial, para não nos perturbar o negócio. Nos entretantos, tenha a bondade de isentar estes seus munícipes das taxas municipais e comece a pensar num adjutório para os comerciantes por causa das perdas no negócio. Um subsidiozito vinha mesmo a calhar, Senhor Presidente.

Entretanto, aqui fica o aviso: caso decida seguir a opinião daqueles senhores que não têm dó dos pobres dos comerciantes, e que andam a dizer que os subterrâneos do Toural são um disparate sem ponta por onde se lhe pegue, vá-se preparando para desembolsar indemnizações compensatórias pelas expectativas frustradas ao comércio tradicional vimaranense.

Envia-lhe muito saudar, Senhor Presidente, este que se assina

Ya-xiang Yuan

(proprietário de uma loja tradicional de miudezas orientais de baixo custo, anteriormente conhecida por loja dos trezentos)

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Sondagem

Ao que parece alguns vimaranenses têm sido vítimas de uns telefonemas estranhos, em jeito de "sondagem". Com bastante falta de jeito fazem-se perguntas genéricas sobre o centro histórico para, desajeitadamente, se chegar a uma questão final que é mais ou menos assim: concorda com um parque de estacionamento no Toural?

Um cidadão mais atento, após ter recebido um telefonema em casa e ter respondido à tal “sondagem”, telefonou para um número “verde” (que lhe foi fornecido pelos inquisidores no final da dita “sondagem”). Queria saber informações sobre os autores de tão pertinente questão. Tais informações foram negadas a este exemplar cidadão que, indignado com o secretismo relativo a estes misteriosos telefonemas, terá ficado “verde”, não de inveja, mas sim de raiva.

Segundo se diz à boca pequena terá sido a Associação Comercial e Industrial de Guimarães a encomendar a tal “sondagem”…Contudo ontem, após ter ouvido esta história e ter ido dormir sobre o assunto, sonhei que a “sondagem” teria sido encomendada por alguém próximo de Júlio Mendes.

Por aí diz-se, apenas, que o projecto (ou melhor: o projecto de projecto) para o Toural está prestes a receber sinal “vermelho”.

sábado, 8 de março de 2008

Da Umbiguidade

Recordais-vos da Casa dos Espelhos da Feira Popular? Olhando-se neles, os gordos tornavam-se magros, os magros ficavam gordos, os anões viravam gigantes, os grandes ficavam pequenos. Ou ainda maiores.

Sei de quem tem um desses espelhos em casa, daqueles que reflectem uma imagem maior do que a coisa reflectida. Ao acordar, olha-se no espelho mágico e diz, de si para si: como sou grande e belo e culto. Quando sai à rua, olha em volta e apenas vê gente pequena e feia e ignara. Nunca olha para os seus semelhantes, porque não vê ninguém que lhe seja semelhante. Trata os outros com certa condescendência, algum paternalismo e não pouco enfado. A quem o saúda, responde com um vago sorriso amarelo. A quem lhe estende a mão, embora lhe apeteça, não recusa a sua, e dá-a fria e mortiça. E dir-se-ia que pensa, de si para si, a todo o instante: como sois pequenos, coitados e sem berço. Nas raras vezes em que se dá ao trabalho de falar, fala de cima da burra, aquela mesma que mija para trás.

No seu deslumbre, era preciso que olhasse para o espelho com um pouco mais de atenção, para perceber que, tanto quanto lhe aumenta o umbigo, também lhe aumenta as orelhas.

domingo, 2 de março de 2008

Com a AXilA Cheia

Andam ufanos, os bragueses: finalmente, conseguiram ver o estádio cheio. E já podem dormir sossegados: não é por ser tão feio que o AXA não enche. O estádio de Braga não enche nem com o Porto, nem com o Benfica, nem com o Sporting, nem com o Bayern de Munique, nem, esperem sentados, com o Braga. Para encher aquela pedreira são necessários os adeptos dum clube verdadeiramente grande.

sábado, 1 de março de 2008

Afinal Havia Outra

[Clique na imagem, para ver melhor]

Afinal, o Ministro da Cultura tem um nome e tem um rosto. Chama-se José António Pinto Ribeiro e não é mulato. É loira.

(A descoberta é do sempre atento Spicka: vd. a caixa de comentários da posta anterior)

Cadê O Ministro?

Ontem à noite, impingiram-me uns goles de pisang ambon, uma mistela esverdeada cujas excelências muito me gabaram. Eu bem dizia que, para mim, verde, só o vinho, desde que seja tinto, mas não tive outro remédio e emborquei um trago daquele xarope. Resultado: atacou-me a figadeira e passei a noite com insónias. As minhas vigílias costumam ser altamente criativas (à falta de que fazer, acabo por desistir de dormir, e ponho-me a pensar e a anotar os pensamentos no meu moleskine da loja dos chineses). Quando me levantei, transbordava de ideias luminosas, cintilantes e incandescentes (algumas delas chegam a ser, ouso dizê-lo, radiosas), para a Capital Europeia da Cultura que aí vem. Lancei-as de jacto, antes que esvaecessem, para papel de carta e introduzia-as num envelope de correio verde, que comecei a endereçar:

Exmo Senhor

Ministro da Cultura

Mui Ilustre Professor Doutor….

Em chegando a este ponto, deu-se-me um nó. Não sei como se chama o nosso Ministro da Cultura. Tinho ideia de que a senhora que lá estava tinha sido despedida a seu pedido, e recordo-me muito vagamente de que teria sido nomeado para o seu lugar um certo senhor, mas logo constatei que não sei qual seja o seu nome e que nem sequer faço ideia de como seja a sua vera efígie. Confesso que não sou capaz de dizer se é branco ou preto ou vermelho ou amarelo ou às riscas. Pedi a Mr. Google Images que me mostrasse o retrato de Sua Excelência O Ministro da Cultura. Saiu mulato.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Do Preconceito e da Cor de Cabelo

A Finlandesa

«O seu raciocínio é: "Se é loira não pode ser ministra da Educação"» (Maria de Lurdes Rodrigues dixit, aos 25 de Fevereiro de 2008).

A Profecia da Capicua


Ou muito me engano ou o bando do Entrudo vimaranense de 1857, que encontrei aqui, foi soprado por certo sapateiro quinhentista das partes de Trancoso, que nos seus dias pelo nome de António Gonçalves Anes Bandarra. É dedicado aos da terra das frigideiras e de uns quantos pês que, nesse ano, por falta de diversão pela banda de lá (aqueles eram tempos em que a Bracalândia ainda não tinha sido inventada, nem desinventada), quiseram participar nas folias dos vimaranenses:

Os bracarenses a querer ter parte
(…)

(…)
Não digo que festa em Braga
É somente farelório,
Mas nem merece que em paga
Se aponte no reportório;
Vale tudo, bem pesado,
Trinta réis de mel coado.
(…)
Eis-nos pois na pátria vossa,
De gloriosas tradições,
Onde a névoa nunca engrossa,
Brilha gás nos lampiões,
E passeios e arvoredos
Convidam para os folguedos.
(…)

Ao ler a segunda sextilha que aí vai, não tive dúvidas de que este texto era uma premonição e um aviso, com exactamente 151 anos (notem bem a dimensão eminentemente profética da capicua). Passeios, lampiões, arvoredos, é do Toural que se fala, sem sombra de dúvida.

Felizmente, na pátria nossa, a névoa nunca engrossa, e o Toural jamais será uma tampa (com o perdão da palavra roubada, que é muito bem aplicada, mas não é minha).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Estocada ou Não Estocada, Eis a Questão.

“Aquele que quer que lhe dêem, tem de dar.”
S. Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena
*


1. Primeiro, li isto:

“Assim, sabendo-se como se sabe, do licenciamento em curso de algumas novas superfícies comerciais, todas elas apetrechadas com bons parques de estacionamento, é a altura mais do que oportuna para a Câmara apoiar o comércio tradicional.

[…]

Finalmente, mas não menos importante, uma requalificação do Toural sem parque de estacionamento, para além de significar a estocada final no comércio tradicional local, implicará necessariamente ser o nosso Município, isto é todos nós, a suportar os custos da referida intervenção. Pelo contrário, a concessão da concepção, construção e exploração de um parque de estacionamento no Toural significará, para além de uma ajuda primorosa e completa ao comércio local, um alívio completo na bolsa de todos, já que a entidade ganhadora suportará não só o custo do parque mas também de toda a intervenção nesse mesmo espaço.”

2. Depois, li mais isto:

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Guimarães (ACIG), Luciano Baltar, acredita que o impacto que a abertura de dois novos shoppings em Guimarães terá no comércio tradicional será reduzido.

E já não percebo nada.

Por não perceber, pergunto: quando aquele a quem compete a defesa dos interesses dos comerciantes diz o que diz, em 2, que interesses defenderá quem diz o que diz em 1?**

E pergunto mais: com base em que informações, privilegiadas, claro, é que, o que escreve em 1, explica, tão bem explicadinho, o modelo de negócio da intervenção prevista para o Toural, invocando uma “entidade ganhadora”, que “suportará não só o custo do parque mas também de toda a intervenção nesse mesmo espaço”, quando o responsável político por ideia tão subterrânea afirma que os projectos apresentados só serão realidade se obtivermos comparticipação do QREN. O orçamento municipal não chega?

E ouso mesmo perguntar: que nevoenta “entidade ganhadora” será aquela? Ganhou o quê? E quando? E como? E a quem?

Confesso que já me enjoa toda esta conversa sobre o Toural, mas, já agora, se não for muito o incómodo, será que alguém se dá à maçada de me responder?


* Citação furtada daqui.

** Aqui, na caixa de comentários, pressenti uma leve insinuação quanto à eventualidade de haver "proveito próprio" envolvido no assunto. Mas eu cá não insinuo, só pergunto. Porque há interrogações que me fazem espécie.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Um Caso de Sucesso e Incompreensão

Não costumo falar de futebol e não será hoje que o farei. Falarei de revolta perante a injustiça, a ingratidão e a arbitrariedade.

Quando o contrataram, deram-lhe uma missão: colocar o Sporting de Braga no lugar que é seu por direito próprio e que lhe andava a escapar nos últimos anos. Era o homem certo, no lugar certo. Tem vindo a cumprir escrupulosamente, e com inegável sucesso, a missão de que o incumbiram. Agora que pôs o clube no bom caminho e está quase a atingir o objectivo que lhe colocaram, já se movimentam para correr com ele. Estes bragueses não sabem o que querem, é o que é! Já não consigo conter a indignação que me invade perante tamanha e tão insidiosa malvadez.

Deixem Manuel Machado trabalhar!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Direito de Resposta


Ao cirandarmos por aí, à procura de alguma coisa para ler e matar o tédio, enquanto fazemos horas (nós aqui não perdemos tempo: produzimo-lo à medida das necessidades) para a sopa, demos a volta pelos sítios do costume, desaguando em Lisboa, como de costume, em dia de enxurrada, e fomos de Arrastão no enxurro. Nós aqui tão sossegados, a contar moscas e a cuspir cascas de tremoços, e já chegamos ao umbigo de Portugal. Porreiro, pá, diríamos nós se fôssemos o tal engenheiro e estivéssemos a abraçar aquele a quem a esposa afectuosa chama, com enlevo, o cherne e que por aqui é conhecido como o senhor que, depois de mobilar a sede do MRPP com os trastes que roubou na Faculdade de Direito, chegou a presidente da Comissão Europeia. Mas não somos. Portanto, não dizemos, mas estamos desvanecidos, gratificados, vingados e, até mesmo, um tanto ou quanto injustiçados. Porém, sentimos que são justos os reparos que lá deixaram na caixa de comentários: em Guimarães não tomamos bicas, tomamos juízo, ben-u-rons, penicilina e guronsans, conforme as necessidades. Em Guimarães somos diferentes, comemos as bicas, com as suas duas maminhas. E chamamos-lhes um pão.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Uma Iniciativa Inovadora

LEGENDA: Cerimónia comemorativa dos 179 anos, 4 meses e 26 dias do nascimento do gravador Molarinho. Na fotografia, da esquerda para a direita, os Presidentes das Juntas da Oliveira, de S. Paio e, por exclusão de partes, de S. Sebastião. Na ocasião, o homenageado, José Arnaldo Nogueira Molarinho (no medalhão, em segundo plano), manifestou-se muito sensibilizado com a gentileza de tão dinâmicos, empreendedores e indispensáveis autarcas, tendo confessado ao repórter do Guimarães Digital que não estava à espera de tal lembrança. Para ampliar, clique no ramo de flores.

Não tenho a menor atracção por números redondos, curvos ou semicurvos, terminados em 0 ou 5. Embirro com efemérides. Detesto aniversários. Abomino cinquentenários. Maldigo centenários. Impaciento-me com sesquicentenários. Fujo de milenários. Aborreço-me de morte com bodas: as de prata, as de ouro, as de diamante, as de platina ou as de casamento. A não ser pelo arredondado dos números, não vejo qual o sentido de se celebrarem os 50, os 75 ou os 100 anos do nascimento ou da morte de alguém. Ninguém faz nada de assinalável no dia em que nasce. Raros são os que o fizeram no dia em que morreram. Julgo preferível assinalar a passagem dos 104 anos, 3 meses e 14 dias sobre a data em que um escritor escreveu uma página memorável, do que o centenário da sua morte (isto é, do dia a partir do qual não voltou a escrever nem mais uma linha). Vem isto a propósito de ter percebido que não sou o único a padecer de alergia às efemérides, tais como têm sido concebidas até aqui. Inaugurando uma prática que se saúda, e dando mostras de uma insuperável visão estratégica, as três Juntas de Freguesia do centro urbano de Guimarães juntaram-se, no passado dia 15 de Fevereiro, para assinalarem a passagem dos 180 anos do nascimento do gravador Molarinho (que veio ao mundo num dia qualquer, para o caso não importa qual*), no preciso dia em que passam 101 anos sobre a sua morte (será que no ano passado se esqueceram do centenário?, estarão neste momento a perguntar os leitores. Não senhor, meus senhores: simplesmente, resistiram, com indomável tenacidade, à tentação de o assinalar**).

* Um senhor que tinha a mania das efemérides diz que foi a 25 de Setembro de 1828.

** O mesmo senhor assinala que o ourives faleceu no dia 15 de Fevereiro de 1907.

Este Post Contém Cenas Eventualmente Chocantes

Versão do Café Toural para o cartaz da exposição Cranach, da Royal Academy of Arts de Londres. À gargantilha com que foi vestida originalmente pelo pintor, acrescentámos um discreto wonderbra de cetim purpureado e uma folha de parra da casta roriz, a condizer (para ampliar e observar com mais pormenor, introduza o dedo no umbigo da senhora e, depois, clique).

Lord Byron, escritor inglês que passou por Portugal, descreveu os portugueses como uma subespécie que só tinha serventia para a escravatura (ele lá teria as suas razões para assim descrever, que o meu tio Benevides, um insaciável romântico, que também descrevia, costumava classificar como manifestações de dor de corno). J. P. Oliveira Martins, escritor português que passou por Inglaterra, descreveu os ingleses como a última reminiscência do homem das cavernas. Eu, que sempre fui um indeciso, nunca soube a quem dar razão, se a Byron, se a Martins, se aos dois, se a nenhum. Agora começo a dar razão a Martins, ao saber que na Inglaterra ainda há, mesmo, homens das cavernas – os do underground –, que, em defesa da moral e dos bons costumes, proibiram a afixação de anúncios de uma exposição com obras de Lucas Cranach, o Velho, onde se reproduz uma inofensiva pintura clássica com quase seis séculos.

PS: a imagem que vai aí acima é um contributo, a título gracioso, do Café Toural aos responsáveis da Royal Academy of Arts, que se lamentaram por não terem previsto “um plano B com a Vénus vestida”.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Ai Portugal, Portugal! 2.0

Que país é este onde a simples publicação de um decreto tanto pode esperar mais de um ano como mais de um século?

[Saber mais: a criatura e o decreto criador]

Amanhã É O Primeiro Dia...

...Do Resto Da Vida da Fundação Martins Sarmento!


Foi hoje publicado, em Diário da República, o Decreto-Lei n.º 24/2008 de 8 de Fevereiro, que institui a dita e lhe aprova os estatutos! Entra em vigor amanhã!

Longa vida! Muitos sucessos!

Se precisarem de alguma coisinha deste vosso humilde servidor... façam o favor de dizer...

Quem quiser conferir, pode fazê-lo aqui.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Ai, Portugal, Portugal!

Não sei se projectou ou se não projectou. Não sei se assinou o que não projectou só porque quem projectou não podia assinar porque fiscalizava as obras que projectava mas não assinava. Não sei. E não é essa ignorância que me incomoda. O que me que incomoda e assombra, o que me atormenta e mortifica, o que me dói e tira o sono, é vê-lo insistir que aquilo são criações suas. Para que abismos caminha o país cujo destino está entregue ao autor de mamarrachos assim medonhos?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Terrorismo Político e Cabidela

Hoje o galo, o galo maldito, começou a cantar ainda mais cedo e ainda mais estrídulo. Tomei a resolução que antes já tinha tomado tantas vezes, mas que nunca consumara. De hoje não passa! Levantei-me, na cozinha peguei numa malga e na garrafa do vinagre. De faca afiada na mão, fui ao galinheiro. Pressentindo os meus propósitos galicidas, o cantador irritante desatou a cacarejar e a correr em todas as direcções, em círculos. Ao fim de trinta e sete minutos de perseguição, apanhei-o com um mergulho à Jesus, e, zás!, cortei-lhe o pescoço. Pendurei-o no estendal, pelas patas, com a malga por baixo, com boa quantia de vinagre, para a apanhar o sangue. Agora, ia poder dormir descansado e sonhar com a cabidela. No caminho de regresso a casa, com o instrumento da vingança na mão, vindos sabe-se lá de onde, saltaram-me em cima três, ou cinco, ou dezassete gorilas fardados de preto com as caras tapadas com passa-montanhas. Polícia, quieto! Num ápice, fiquei estendido de borco, com as mãos algemadas atrás das costas, e uma bota fincada no meu pescoço. Perguntaram-me o nome. Respondi. Ouço: É ele! Ao ver todas aquelas HK MP5 K apontadas ao meu pobre canastro, desato a encomendar a minha alma a deus e ao diabo. Se soubesse que matar um galo era crime tão grave, há muito que me teria deixado de cabidelas. Tartamelei uns gargarejos, na vã esperança de lhes explicar de onde vinha, de faca em sangue na mão. Alguém foi confirmar e confirmou. É verdade, chefe, está lá o galo. Vejo depois descerem da minha casa outros tantos gorilas de preto e caras tapadas. Tudo limpo, chefe, não encontrámos nada. Tiraram-me as algemas e, assim como apareceram, desapareceram. Com os motores dos carros a afastarem-se, levantei-me, espavorido, abismado e aturdido. Encontrei a casa de pantanas, tudo remexido.

Fiquei ali, sentado, horas a fio, a tentar perceber se estava acordado ou no meio de um pesadelo. Só agora encontrei uma explicação. Vinha nos jornais da terra. Cito um, com perdão pela falta de vírgulas:

O vereador começou por justificar que os projectos estavam ainda em fase de discussão pública, pelo que não se justificava qualquer parecer. Mas, perante a contestação da resposta por parte da vereadora que a recolocou atirando “como pode haver propostas para mexer na zona tampão do centro histórico classificado, sem um parecer do organismo local responsável pelo título”, Júlio Mendes não escondeu o nervosismo e perguntou “e como é que sabe que não há parecer?”

A contra-resposta provocou um diálogo mais aceso entre ambos tendo Ana Amélia obtido do vereador do PS a confirmação de que de facto não foi solicitado qualquer parecer ao ainda existente GTL. Mas à resposta Júlio Mendes acrescentou o comentário “isso é terrorismo político”, obtendo como resposta “não é não é trabalho de pesquisa. A Internet revela muitas informações”. Ana Amélia sugeriu a propósito “visitem os blogues onde estes assuntos são discutidos”.

Depois de dar uma volta pelos blogues indígenas, percebi que aquilo podia ser comigo, por causa disto. De repente, eu, que sempre tive razoável desarmonia ao terrorismo e forte alergia à política, vejo-me equiparado a agente de terrorismo político. Meus senhores, eu sou Honoré de Balazar, o das balazarianas! Não tenho nenhum fetiche por virgens, mesmo que sejam tantas como setenta e uma, e menos ainda se elas só vierem com disposição para me servirem depois de morto. Cá por mim, prefiro-as maduras e prefiro-me vivo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Eu Gosto É Destas Macacadas!

Se tens telhados de vidro...

Contradições, Desmandos E A Falta Que Faz O Emprego...

Querem lá ver que alguém se esqueceu de avisar que tinha dado uma entrevista ainda por publicar, tanta era a vontade de aproveitar a oportunidade...

Há pois, dois sinais contrários nesta questão:

a) positivo: a nova ministra não é tola (valha-nos isso!), pois percebeu o estado da coisa, ainda há quinze dias;

b) negativo: isto está mesmo mau, até os médicos, mesmo achando que a política de saúde deste governo não vale um chavo, vêem que mais vale alinhar com eles do que levar com um processo disciplinar ou outra coisa qualquer...

Ou, então, avisou, mas o Sócrates já nem liga... assim, como assim, está tudo a dormir e a trapalhada é conceito de aplicação exclusiva ao Santana.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Da Cultura e das Côdeas de Broa

Ainda me lembro, como se fosse hoje: a minha avó mandava-me à padaria, todos os dias, antes do almoço, que ela teimava chamar de jantar, um quilo, e traz o troco. Na padaria, o Sr. Torres tinha uma mão muito certeira, raramente falhava o corte. Um quilo de broa? Pegava na faca de serra, fixava-se na broa (no tempo em que uma broa era uma broa e não um arremedo como essas de agora) como quem a media com os olhos e cortava um pedaço, que punha à balança. Um quilo? Ora aí está! Porém, às vezes falhava-lhe o olho, ou a mão, ou a faca, aquilo não dava bem um quilo, e o Sr. Torres lá tinha que colocar mais um pedacinho para compensar o peso em falta, normalmente mais côdea do que miolo, que eu roía a caminho de casa. Era o contrapeso.

Percebo agora que com as remodelações governamentais acontece algo de muito semelhante. Certo dia, o Sr. Primeiro-Ministro acorda bem disposto, cheio de vontade de remodelar. No palácio, com o 1492 do Vangelis em fundo, mal se senta à grande mesa, anuncia, categórico e determinado, como quem sabe que cumpre um desígnio sem saber muito bem qual seja: Meus senhores e minhas senhoras, hoje vou remodelar! Percorre a mesa com os olhos, sente os ministros encolherem-se, fazendo-se pequeninos e querendo-se invisíveis. E diz: Tu aí que andas com ar de pouca saúde, estás remodelado. Põe o Ministro da Saúde na balança e logo conclui que não tem peso suficiente para atingir a condição de remodelação. Precisa de um contrapeso. Novamente, percorre a mesa com os olhos, sente os ministros encolherem-se, fazendo-se pequeninos e querendo-se invisíveis. Por fim, diz, dirigindo-se à Ministra da Cultura: Desculpa, tu até tens sido porreira, pá, mas também te remodelo. E lá teve o sr. Engenheiro a sua remodelação.

E assim se demonstra que, se não se lhe encontra outra serventia, a cultura sempre pode servir de contrapeso. Tal e qual como as côdeas de broa do Sr. Torres.

domingo, 27 de janeiro de 2008

A Preguiça, ou os Efeitos da Picada da Mosca Tsé-Tsé no Urbanismo Índigena, ou a Jóia da Coroa que Já Era

Afinal, há quem, parecendo acordado, não perceba aquilo que eu, pobre diletante, cidadão distante, aborígene distraído, adivinho mesmo a dormir. Há dias, alguém perguntou aqui, num comentário, “que é feito de quem tem responsabilidades políticas, na situação ou na oposição?”. Acabo de encontrar a resposta. Leio no jornal de hoje que na oposição (pelo menos na maior fatia dela) se mergulha nos braços de Morfeu e se vota sem se analisar o que se vota. E que na situação (pelo menos na primeira figura dela) também se poderá andar a passar pelas brasas nas horas de expediente. Ou isso, ou o nosso alcaide foi acometido por um refinado sentido de humor que o leva a contar a piada do ano, a de que o mais prestigiado dos serviços municipais vimaranenses não perde autonomia ao tornar-se numa divisão acéfala de um departamento macrocéfalo. Um serviço que cuidava da requalificação do Centro Histórico e que apenas respondia directamente perante o Presidente da Câmara (que não tinha dúvidas em classificá-lo, muito justamente, como “a nossa jóia da coroa) que, primeiro, passou a responder perante um vereador recém-chegado, sem pedigree em matéria de centro histórico, e que, agora, passa a responder ainda mais abaixo, não perde autonomia? Perde autonomia, perde dignidade e, pior de tudo, parece que perdeu competências, já que deixou de ter voz activa na condução de projectos que são lançados sobre a sua área de jurisdição.

Pois é, andamos com soninho.

Entretanto, deve haver por aí gente bem desperta e, talvez, quem sabe, algo esperta.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O Monumento

Diz o de Guimarães, o artista, que, ao conceber o monumento ao nicolino, pretendeu criar uma “forma simbólica, talvez sugerida pelo esvoaçar da "capa", que faz parte do traje académico”. Confesso que sempre me intrigou o “talvez” estrategicamente arrumado naquela explicação.

A capa do traje dos estudantes vimaranenses é preta. Vermelha é a capa dos toureiros. E, não obstante os trejeitos marialvas das festas nicolinas, não estou a ver qual seja a sua afinidade com touradas, garraiadas e outras manifestações quadrúpedes e afins. Para mim, aquilo era um mistério. Até hoje.

Pela manhãzinha, fui espreitar o monumento de que tanto se fala há tanto tempo. Em chegando ao meio do Campo da Feira, vi dois senhores de provecta idade a olharem para a coisa. Falavam assim:

- Ò Manel, aquilo daqui parece mais um pedaço de carne.

- É mesmo! Aquilo é um bife.

- É, mas é, uma costeleta.*

- Vendo bem, Jirónimo, é mesmo isso: uma bela costeleta, é o que é!

Olhei melhor e esmoreceram-se as dúvidas. Aquele monumento remete para o mais profundo da nossa identidade, com uma dimensão simbólica arrasadora, telúrica, quase sublime: é um tributo à costela de nicolino que há em cada um de nós. Não representa, talvez, uma capa de estudante. É, sem sombra de talvez, uma magnífica costeleta nicolina.

* Aliás: - É mazé uma costoleta.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

E Agora, Senhores Meus, o Euromilhões

E eis que, ao fim de tantos anos metido dentro da minha pele, me maravilho com uma descoberta sobre um lado de mim que desconhecia: tenho um dom, senhores. Eu não sonho, auguro. Eu não tenho pesadelos, tenho presságios. Eu adivinho!

Só não ainda adivinhei porque é que escolheram este preciso momento para quebrarem o selo de garantia do nosso Centro Histórico, outrora conhecido por GTL. Porém, suspeito que não deve ser preciso ser bruxo para desvendar tal segredo.

Última Hora - Guy Marais desapareceu

O assunto é grave e não merece sorrisinhos cínicos. Guy Marais, esforçado escriba deste café, não dá sinais de vida desde sexta feira passada, altura em que enviou um sms a Pedro de Leitões perguntando-lhe se queria ir jantar ao restaurante Cabeça de Porco, em Moreira. Posto isto, não mais atendeu telefones, respondeu a emails e, mais grave, à porta de seu apartamento vazio estava um bilhete manuscrito que dizia - e citamos - fui para Gondar. Ora, Guy, mitómano por vocação, dizia sempre que tinha um - e citamos - castelo em Gondar. Sabendo nós da inverdade de tal afirmação - Guy não tem nenhum castelo em Gondar, até porque não há castelos em Gondar - escarrapachamos* neste espaço a nossa preocupação e lamento pelo silêncio de Guy Marais. Afinal, quem cala consente.

* que palavra incómoda, não?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Anjo da Guarda, Que é Feito de Ti?

Um destes dias, passando ao largo da Cervejaria Martins, cruzo-me com um grupo de aborígenes em discussão desabrida. O costume, pensei, o Vitória, o Cajuda, o Geromel e o Rabiola, talvez o fora-de-jogo, talvez o Pimenta. Enganei-me: era de obras que se falava. Alguém me atira: “E tu, ò Honoré, não dizes nada sobre o projecto?”. Respondi com o mais expressivo encolher de ombros de que sou capaz e segui caminho. Ouso confessar que tenho dormido descansado, apesar do alarme público que invadiu a cidade por causa do que se anuncia para o Toural. Sei que, ao longo do processo de requalificação do Centro Histórico de Guimarães, tão louvado, premiado e galardoado, a cidade acrescentou novos elementos ao seu património, entre os quais se inclui o GTL, serviço que, pela reconhecida excelência do seu trabalho de preservação/reposição da autenticidade dos modos de intervir no património, granjeou respeito internacional, tornando-se num case study no meio académico de Portugal e arredores. Portanto, dormia eu descansado porque sei que há gente sabedora e de confiança a velar pela cidade. Dormia, disse, mas esta noite não dormi. Em plena madrugada, ainda o galo não cantara, acordei sobressaltado, suando frio, com tremores, com palpitações e com uma ideia insólita a zumbir-me na mioleira. Levantei-me, molhei o rosto, verti águas e voltei para o quentinho dos lençóis. Tinha sido um pesadelo: claro que não tinham acabado com o GTL. Mas amanheci atordoado com uma premonição funesta. Para a afastar, pus-me a pensar, o que raramente faço. A conclusão a que cheguei agravou o meu estado de ansiedade: em tanto que se tem falado sobre os projectos para Guimarães, não temos tido sinais de vida dos técnicos a quem compete a tutela do programa de intervenção no Centro Histórico classificado com o título da UNESCO e todo o espaço que baptizaram, Deus os perdoe!, de zona tampão. Ainda antes do mata-bicho, fui a correr à Rua Nova, antigamente bem mais airosa com aquelas raparigas alegres e gentis que ali ofereciam os seus préstimos aos pobres necessitados. Lá estava a casa do GTL. Mas não estava o GTL. De uma varanda ao lado, uma velhinha, com poucos dentes e muita curiosidade, quis saber quem é que eu procurava. A minha resposta fez ricochete na dela: “Então não vale a pena bater. Eles já se foram embora há muito”. Começo a ficar apreensivo. Muito apreensivo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Previsão do Tempo para Atouguia e Arredores

Em dois mil e oito Guimarães vai ter um bairro paki, um restaurante tailandês, mais dois japoneses, mais três italianos, uma mesquita, uma sinagoga, mais um ou dois bares gay, um bar clube lounge para elitistas de sexta feira, jornais que dêem notícias, jornais que dêem notícias com seriedade, uma estátua nova, um centro cultural bem pensado, uma casa das artes acabada, um clube de futebol novo, um teatrinho, menos matarruanos, mais intelectuais, um metro a sério – não metrinho -, um gabinete de reflexão sobre a cidade, que percebe que isto já vai de Nespereira às Taipas e já não do Fundador aos Jagunços, cinco projectos dos quais um e meio é passível de fornicar isto de vez, filmes estreados em tempo útil, menos cinema para imbecis de centro comercial, uma japoneira com duzentos anos, uma circular pensada com grandiosidade, uma saída nas Taipas na à onze, entretanto transformada em secute, uma feira erótica no multiusos, uma avenida nova, uma esplanada sem música de fezes a debitar, poetas malditos a vaguear pelos jardins, um canto dos faladores, um sistema de transportes públicos ferroviários competente, um mini-eco-bus para o centro, um festival de verão elegante, enfim, ó pá, é assim, dois mil e oito para Guimarães, pá, dois mil e oito vai ser um ano do c*****o.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Boletim Meteorológico: Previsão de Melhorias

Certo dia, quando 2006 percorria o seu último quarto, começou a pairar sobre o Toural a sombra de uma névoa vagamente insinuante. Ainda o ano não era findo, a sombra adensou-se: a névoa podia passar a Névoa, disse-o quem não se esperaria que o dissesse. Correu um ano completo, e a névoa lá continuava a pairar, ameaçadora, afiando as garras, enquanto espreitava o momento de cair sobre a presa, aparentemente desarmada e adormecida na sua inocência. Até que se anunciou: é mesmo Névoa que bate à porta do Toural. Mas a presa, afinal, não dormia. Deu luta. Estrebuchou. Sacudiu a cerração. Agora, parece que o Céu já se desanuvia e que a sombra se começa a afastar do Toural. O Toural fica melhor, muito melhor, sem o manto de Névoa.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Porreiro, Pá!

Porque, na sua infinita sabedoria, o povo nunca se engana, nada lhe será perguntado.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

António Adiantou-se...

Andava com vontade de escrever isto, mas ele adiantou-se e, provavelmente, escreveu melhor e mais objectivo... Concordo tim-tim por tim-tim, mas acrescentava de bom grado, uns palavrões e uns insultos.


«Em consequência da revolução de 1974, criou raízes entre nós a ideia de que qualquer forma de autoridade era fascista. Nem mais, nem menos. Um professor na escola exigia silêncio e cumprimento dos deveres? Fascista! Um engenheiro dava instruções precisas aos trabalhadores no estaleiro? Fascista! Um médico determinava procedimentos específicos no bloco operatório? Fascista! Até os pais que exerciam as suas funções educativas em casa eram tratados de fascistas. Pode parecer caricatura, mas essas tontices tiveram uma vida longa e inspiraram decisões, legislação e comportamentos públicos. Durante anos, sob a designação de diálogo democrático, a hesitação e o adiamento foram sendo cultivados, enquanto a autoridade ia sendo posta em causa. Na escola, muito especialmente, a autoridade do professor foi quase totalmente destruída.

Em traço grosso, esta moda tinha como princípio a liberdade. Os denunciadores dos “fascistas” faziam-no por causa da liberdade. Os demolidores da autoridade agiam em nome da liberdade. Sabemos que isso era aparência: muitos condenavam a autoridade dos outros, nunca a sua própria; ou defendiam a sua liberdade, jamais a dos outros. Mas enfim, a liberdade foi o santo e a senha da nova sociedade e das novas culturas. Como é costume com os excessos, toda a gente deixou de prestar atenção aos que, uma vez por outra, apareciam a defender a liberdade ou a denunciar formas abusivas de autoridade. A tal ponto que os candidatos a déspota começaram a sentir que era fácil atentar, aqui e ali, contra a liberdade: a capacidade de reacção da população estava no mais baixo.

Por isso sinto incómodo em vir discutir, em 2008, a questão da liberdade. Mas a verdade é que os últimos tempos têm revelado factos e tendências já mais do que simplesmente preocupantes. As causas desta evolução estão, umas, na vida internacional, outras na Europa, mas a maior parte reside no nosso país. Foram tomadas medidas e decisões que limitam injustificadamente a liberdade dos indivíduos. A expressão de opiniões e de crenças está hoje mais limitada do que há dez anos. A vigilância do Estado sobre os cidadãos é colossal e reforça-se. A acumulação, nas mãos do Estado, de informações sobre as pessoas e a vida privada cresce e organiza-se. O registo e o exame dos telefonemas, da correspondência e da navegação na Internet são legais e ilimitados. Por causa do fisco, do controlo pessoal e das despesas com a saúde, condiciona-se a vida de toda a população e tornam-se obrigatórios padrões de comportamento individual.

O catálogo é enorme. De fora, chegam ameaças sem conta e que reduzem efectivamente as liberdades e os direitos dos indivíduos. A Al-Qaeda, por exemplo, acaba de condicionar a vida de parte do continente africano, de uma organização europeia, de milhares de desportistas e de centenas de milhares de adeptos. Por causa das regulações do tráfego aéreo, as viagens de avião transformaram-se em rituais de humilhação e desconforto atentatórios da dignidade humana. Da União Europeia chegam, todos os dias, centenas de páginas de novas regulações e directivas que, sob a capa das melhores intenções do mundo, interferem com a vida privada e limitam as liberdades.

Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União. Mas nem é preciso ir lá fora. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A videovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas. A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do Governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do Governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na “comunicação social” em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade.

Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo. O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas. Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo...»

António Barreto, in Público, edição de 6.1.2008, pág. 37

Nem com uma Flor

Porventura por influência de alguns dos artistas que por lá têm passado, a nossa melhor casa de espectáculos, o CCVF, já se dá ares de prima-dona. A despeito do nome por que responde, já não se lhe pode bater nem com uma flor, que lhe estala o verniz. Quando contrariada, fica embezerrada, amua e até se põe verde. Há quem diga que até nem tem mau feitio e que o problema está na farpela com que a vestiram, bem-parecida e imponente, porém mui frágil, sensível e quebradiça.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ouvido de Passagem

Requiem para quatro jovens -

Jovem nº 1- (…) e ele porque não veio?
J2- Disse que o avô dele foi para o hospital e que por isso não podia vir.
J3- E foi por isso que não veio?
J2- Sim, foi para o hospital…
J4- Então podíamos ir lá ao hospital…
J3- Quem tá fodido é o avô não é ele!
J4- Então vamos comer…
J1- Acho que sim!
J2- Hehehe…

Ouvido na Rua de São Gonçalo, dia 5 de Janeiro de 2008, 21h.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Uma Teoria da Conspiração

As teorias valem o que valem e esta é só mais uma. Contudo, todas as teorias têm um fundamento. A minha teoria não é excepção.

Devo dizer, aos meus muitos e caros leitores, que estou profundamente convencido que há uma relação entre a Associação Comercial Vimaranense e algumas lojas de aparelhos auditivos. E passo a explicar o porquê desta minha insinuação:

Na véspera de Natal encontrava-me eu na Rua de Santo António a fazer as últimas compras. Todos os anos as faço, orgulhosamente fora de horas. Eram já 19h, a rua quase deserta, com suas lojas quase fechando. HoHoHo, HoHoHo. Subitamente passa por mim um bólide da Associação Comercial Vimaranense que, através de um péssimo sistema estereofonico debitava soundbites (já vi que pleonasmei) sobre o comércio tradicional. Assustado, eu – qual coelho de Páscoa prestes a pôr ovo – senti um zumbido a apoderar-se do meu tímpano esquerdo. Confuso, embati contra uma daquelas tochas de latão (permitam-me chamar-lhes assim) que se encontram espalhadas pela nossa bela (e não pedonal) Rua de Santo António. Após o embate a estearina quente, que contrastava com o frio que se fazia sentir, caiu sobre meus olhos azuis que, até aí, contrastavam com o vermelho das alcatifas que abraçavam os passeios. A dor foi insuportável. A confusão foi total. Cego e tonto, acabei por cair no tanque da Rua de Santo António. Como seria de esperar a hipotermia apoderou-se de mim e passei a consoada no hospital.

Para além dos problemas inerentes ao estado hipotérmico foi-me diagnosticada surdez. De imediato tive que me dirigir a uma loja para comprar um aparelho auditivo. E quando na loja, enquanto eu me tentava fazer entender, me escreveram num papelinho “sabemos porque está aqui”, eu vi logo que aqueles malandros tinham feito um acordo com a Associação Comercial Vimaranense. Exijo justiça!

Guimarães, antigo HSO – 28 do 12 de 2007