segunda-feira, 28 de julho de 2008

Ideias de Macaco

Eu, que sou de lento perceber, já percebi há muito que o futebol é uma modalidade que se pratica com os pés e que, não raras vezes, é dirigida por gente de dúbia direitura, porém nada inocente. Ao ver o Vitória a afectar uma pose mafiosa, inspirada na iconografia da Camorra, da Cosa Nostra ou da 'Ngrangheta, com o treinador a surgir travestido de Al Capone desgrenhado e pífio, fico um tanto ou quanto confuso. E ponho-me a pensar: será que, além de jogado com os pés, o futebol é dirigido por criaturas que pensam com os chispes?

Outros fossem os tempos, e já o invertebrado que teve a luminosa ideia de campanha tão descabelada teria recebido a justa recompensa por tamanha iluminação. No mínimo, já lhe tinham feito uma barrela em pleno Toural, com direito a banho de mergulho na fonte.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Obama? Qual Obama?

Antes de desaparecer da circulação, depois de uma violenta discussão aqui no Café, que acabou com o Honoré de Balazar a proclamar, aos berros, ensandecido e terminante: "De ti, meu caro Pedro dos Leitões, já nada me surpreende". Foi-se embora a resmonear entre dentes: "Ai não? Espera aí, que eu já te digo". Nunca mais lhe pus os olhos em cima. Até que mão anónima me fez chegar uma cassete VHS com o filme que vai aí abaixo (confesso que tive alguma dificuldade em escrever estas mal traçadas linhas, porque o meu queixo atónito teimava em cair-me em cima do teclado.)


[Se começou a ver o vídeo, será melhor que o veja até ao fim.]

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O surrealismo acontece...

Foi há duas sextas-feiras, aliás, madrugadas de sábado, no dia 28.6.2008, que encontrei Olaf ao final de um evento dançante na nossa querida cidade.
Por entre os diversos vapores etílicos que ambos destilávamos, então, encetámos um monólogo em que Olaf discorreu sobre o conceito de "pátria naturalística" e outros momentos de profunda análise etimológica e exímia exegese cultural.
A páginas tantas, atirou: oh, Martinho, não tenho gostado nada das postas que andas a mandar lá no Café... Mão na consciência, se a tivesse, faço aqui o meu mui sentido mea culpa...
Tratarei de o remediar em breve, assim que termine de defecar sobre tudo o que o meu interlocutor me transmitiu nessa alvorada, entre copos de cevada maltada, previamente fermentada. Fica a promessa!
À saída um agente da autoridade, em trânsito, registou o amplexo fraternal com que, após a profunda discussão, reafirmámos o afecto, na hora da despedida:



É com amizades destas que se desconstrói o objectivismo pardacento. Bem hajas, oh de Oleiros!

domingo, 6 de julho de 2008

A Propósito dos Atrancamentos, Um Sinal Contra o Acordo Linguístico


Antigamente, o dia dos atrancamentos era na véspera do S. Pedro. Os rapazes da aldeia larapiavam tralhas de todo o género e atrancavam os caminhos com elas. Foi esta prática muito antiga a fonte de inspiração das solenes roubalheiras dos nossos nicolinos. Em tempo bem mais recente, também foi aí que foram beber os nossos imaginativos industriais de comes & bebes para introduzirem essa novíssima tradição de atrancarem a via pública, a seu bel-prazer, com mesas, cadeiras e guarda-sóis.

Ainda ontem, sábado, já no lusco-fusco do sol posto, como estava de telha, resolvi socializar com umas simpáticas e dadivosas moçoilas originárias das terras de Vera Cruz, que sociliazam generosamente no Paris, Night-Club, aberto das 14 às 4 da matina na nossa única avenida digna de ostentar o nome do primeiro rei. Descida a Avenida até meio, e apesar do adiantado da hora (Paris já devia estar aberta há pelo menos umas 7), dei com o nariz na porta. Como não sou homem para desistir perante o primeiro obstáculo, pus pés ao caminho e resolvi descer o resto da magnífica artéria, com seu plátanos frondosos, em direcção à Caldeiroa, na esperança de socializar, em perfeita lusofonia, na Tasca da Perigosa.

Ia eu a modos que mergulhado nos meus pensamentos, em profunda meditação transcendental, quando colidi, de maneira violenta, lastimável e dolorosa, com objecto até aí não identificado estacionado no passeio. O que se passou a seguir decorreu numa fracção de segundos que durou, aproximadamente, uma eternidade. Tinha acabado de esmurrar o joelho direito contra uma mesa, ali plantada com seu par de cadeirinhas, em frente à montra de uma pastelaria com nome de flor promovida a casa de pasto. Sem que tivesse tempo de dizer um ai!, senti o meu olho esquerdo vazado pela vareta do guarda-sol que protegia, sob sua copa magnífica, os eventuais utentes de mesa e cadeiras da memória dos ardores do Sol, que por ali passa de manhã. A dor, aguda e cruciante, induziu-me a pronunciar uma carreirada de expressões, no mais perfeito calão carroceiro de que sou capaz, que aqui não reproduzirei para não chocar os leitores, que sei sensíveis, mimosos e de educação esmerada. Estava eu ainda a admirar o magnífico céu negro e estrelado que se abriu à frente dos meus olhos, quando ouvi alguém aos berros, verbalizando o que eu tinha calado para poupar os leitores:

- Ai os meus colhões! Foda-se, puta que pariu, esta merda dói pra caralho!

Abri o olho direito e vi um senhor aninhado no chão, agarrado aos baixios do vente e a urrar como um boi à entrada no matadouro. Ao cair, a ponteira do guarda-sol tinha ido embater nas suas partes mais dolorosas.

Acabei a noite, mais o meu parceiro de infortúnio, nas urgências do Hospital, de onde acabo de sair com um olho à belenenses e um imenso nevoeiro no hemisfério esquerdo. Dizem os médicos que, com o tempo e umas gotas de colírio, o meu olho recuperará a plenitude da sua função. Já quanto à função das partes do outro infausto senhor, o diagnóstico foi bem mais reservado.

sábado, 5 de julho de 2008

A Minha Teoria da Conspiração ou da Cautela e dos Caldos de Galinha


Se, a certa altura, alguém se lembra de começar a espalhar por aí uns escritos canhestros onde lê, entre outras coisas que eu julgava bem piores, “O Aldo Nim é comuna”, e se, logo a seguir, se começam a erguer vozes sinistras que incitam à expulsão de Guimarães dos “cumunas”, tenho motivos de sobra para me sentir sob ameaça. Por isso, e porque não sou menos do que tu, Carolina, nem do que a viúva do Berto Maluco, nem do que a chama olímpica, acabo de requerer protecção ao Corpo de Segurança Pessoal da PSP.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Diz Que...

...há pr' aí uns marotos que são uns troca-tintas, perdão: uns troca quintas.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Desportivismo e Chávenas Voadoras

Sempre me pareceu que, quando se lhes tocava na corda do bairrismo, os nossos idolatrados vizinhos, os que deixam sempre a porta aberta, revelavam escasso sentido de humor e nenhum fair-play. Afinal, enganei-me pela metade, quanto à idiossincrasia dos bragueses: fair-play não têm, mas têm alguma queda para um humor vagamente british, a resvalar para o nonsense.

Também têm falta de chá. As chávenas é que pagam.

domingo, 29 de junho de 2008

Última Hora: Vitória Contrata Grilo Falante


Senhoras e senhoras, eis José Marinho, na primeira pessoa:

“Inicio aqui uma colaboração com o Eterno Benfica que coincide com a minha renúncia ao jornalismo. Após vinte e cinco anos atrás das ideias dos outros, acho que chegou a altura de construir o meu próprio património ideológico. Faço-o nesta altura em que ainda desconheço o que farei no futuro para manter bem alimentadas as duas pequenas bocas que tenho em casa, mas que gritam desde a sua nascença pelo mesmo refrão que forrou a minha ascendência futebolística: «slb, slb, slb, glorioso slb, glorioso slb».”

“Dizem os meus amigos mais chegados – benfiquistas claro, de outro modo não seriam os mais chegados (…).”

“Em tudo na vida, eu digo, não contradigo, eu faço, não desfaço, eu monto, não desmonto. Em suma, eu sou público, não sou anónimo.”

"Há pessoas que comem, comem, comem e nunca engordam e há outras que comem pouco e continuam a engordar, assim como há jogadores que precisam de muitas oportunidades para fazer um golo e outros que uma chega."

“Este Barcelona parece que está a sofrer de jet lag por antecipação."

"O Boavista é um novo monstro do futebol português que vai nascendo todos os dias um pouco!”

"Henry não é um homem, é uma manada!"



Ainda há dias era dado como certo no clube do Bartolomeu das margens do Lis. Antes, tinha estado com os dois pés na cidade dos arcebispos. Cá para nós, até seria engraçado, mas a notícia logo levantou ferocíssima açougada entre os adeptos bragueses, que, desdenhando da felicidade com que seriam insuflados, logo desataram a praguejar, em linguagem muito mimosa e aprimorada. Aqui ficam algumas citações da algaraviada, com a devida vénia:

“***** que pariu! Será que neste clube alguém tem cabeça para pensar?”

“Este gajo é aquele esticadinho magricelas de cabeça pequenina que só dizia disparates durante os jogos que comentava. Um Gabriel Alves pouco original, e muito artificial.”

“O que é que o gajo vem para aqui fazer?? deve ser para fazer concorrência ao Manuel Machado, porque quem acompanha os jogos na sportv narrados por este gajo sabe que ele tem uma linguagem ao nível do "machadês", ou até mais erudita.”

Por desgraça, ao que consta porque abriu a boca demais na hora de falar no vil metal, o ex-locutor pernóstico não ingressou no Arsenal dos Pequeninos. Para nós, esta foi uma notória adversidade, mas, afinal, ainda havia de ser pior. Chutado para canto em Braga, veio ter a Guimarães aos rebolões.

A coisa parece irreversível, sendo certo que o contratado, em matéria de verborreia e palavrosidade, encaixa na perfeição em certa tradição vitoriana, dando continuidade à linha linguística, ou até mais erudita, que teve na dupla Pimenta & Machado os dois principais cultivadores.

É provável que, ao contratar tão prolixo palrador para chefe do gabinete de comunicação, o Vitória esteja a pagar o suficiente, não para um homem, mas para sustentar uma manada, mas, cá por mim, aplaudo, com pés e mãos, esta contratação. Não porque me pareça que a imagem do Vitória tenha alguma coisa a ganhar com o contributo comunicacional deste amigo do José Veiga, mas porque tenho cá uma fé de que trará algum benefício aos nossos nem sempre bem tratados fígados.

sábado, 28 de junho de 2008

Onde É Que Assino?


Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória
Os Lusíadas, I, 13, 97-100

No dia 24 de Junho de 1128, depois de desbaratar a mãe e os galegos na célebre refrega que ficaria conhecida para a posteridade como a Batalha de S. Mamede, o jovem Afonso Henriques fez uma entrada triunfal na vila de Guimarães, subindo a rua de Camões à frente das suas tropas. Terá sido aí que, pela primeira vez, se ergueram vozes que o aclamavam como rei de Portugal, um país que ainda haveria de nascer. Como, na altura, o rigor do registo civil era bem menos apertado do que hoje, o jovem guerreiro decidiu perpetuar esse dia memorável no seu próprio nome, que passou a ser Luís Afonso Henriques de Camões.

Mais tarde, aquele que seria o nosso primeiro rei-poeta, construído o país, ainda teria tempo para escrever uma obra sublime, Os Lusíadas, na qual narrou, em decassílabos heróicos, a sua gesta, assim como a dos reis que se lhe seguiram pelos séculos adiante. Estes factos acabariam por cair na penumbra do esquecimento e a obra-prima da literatura lusa, por ele obrada, acabaria por ser atribuída, séculos mais tarde, a um outro Luís de Camões, do qual pouco se sabe para além de que se finou no dia 10 de Junho de 1580.

Vejo agora que a verdade histórica está em vias de ser reposta, correndo uma petição ao governo e à Assembleia da República para que seja transferido para o dia 24 de Junho “o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”.

A César, o que é de César. A Afonso o que não é de Camões.

Assino onde?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Nota da Gerência

A Gerência informa todos os que atiram biscas para a caixa dos comentários que o Café Toural já eliminou, há muito, esse adereço grotesco, de esmalte branco e outrora muito em voga nos espaços públicos, conhecido por escarrador. Aqui, preservam-se a civilidade, as boas maneiras e a boa higiene.

Em local bem visível, temos afixada uma placa com o aviso seguinte:

“Avisam-se todos os nossos clientes que a tabuleta onde se lê RESERVADO O DIREITO DE ADMISSÃO tem uma função meramente decorativa. Neste café pratica-se a liberdade de expressão, absoluta até certo ponto. Qual ponto? É o que falta saber.”

A Gerência informa que, neste momento, já sabe qual é o tal ponto

O ponto não é o que se diz: aqui, cada um é inteiramente livre de dizer o que muito bem entender.

O ponto é o como se diz: quem aqui atira postas tem que saber dar bom uso à língua e afagar as palavras com meiguice, desvelo e delicadeza, o que manifestamente não tem sucedido com certo(s) quadrúpede(s) que, nestes últimos dias, se têm entretido a conspurcar as caixas de comentários.

Este é um princípio de que não prescindimos. Damos de barato o conteúdo, mas atribuímos um valor inestimável à forma.

Sim, somos libertários. Mas, antes de tudo, somos estetas irredutíveis.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Diz que...

...há pr' aí uns marotos que gostam de ir passar férias a Vila Nova de Cerveira...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

terça-feira, 24 de junho de 2008

24 de Junho Visto Por José Mattoso


José Mattoso

24 de Junho de 1128

Todos os anos, por esta altura, sinto algo que vai para além do cheiro a sardinha assada, algo que vai para além das dúvidas que pairam sobre a naturalidade de D. Afonso Henriques, algo que vai para além de ideias estapafúrdias de quem governa e da oposição (por exemplo construir um parque de estacionamento no Toural ou fazer a “Casa da Memória” no Castelo). Mas afinal o que sinto eu, pobre provinciano de Oleiros, pobre urso da ilha do mesmo nome?

Agora fora de brincadeiras:

Nesta data sinto por um lado um imenso orgulho, por outro, uma profunda tristeza.

Comecemos pela tristeza que, apesar de ser um sentimento menos concreto, neste caso é mais fácil de explicar. A minha tristeza prende-se em primeiro lugar com o facto de há 880 anos termos feito algo que é inigualável e de sermos uma cidade condenada a nunca poder repetir tal feito, pois nada do que se possa alguma vez conceber igualará a “Primeira Tarde Portuguesa”. Em segundo lugar entristece-me ver esta data ser muitas vezes ignorada pelos mais jovens (que a confundem com um santo qualquer) e, muito pior do que isso, entristece-me ver esta data utilizada como arma de arremesso político (pelos mais diversos motivos) numa cidade em que todos temos culpa de esta data não ser celebrada e recordada como devia ser…

Passemos agora ao orgulho, esse sentimento que parece começar a desaparecer do imaginário português ou, pior do que isso, a ser desvirtuado por razões que de momento não interessa referir. Falemos agora do enorme orgulho que é sabermos que, há muito tempo atrás, nesta nossa Guimarães, se fez Portugal. Sim, meus caros compatriotas vimaranenses, fomos nós que construímos este país! Orgulhemo-nos disso como o nosso maior feito! Orgulhemo-nos de termos feito algo que sendo nosso logo se transformou em Portugal inteiro!

Chegou a hora de fazermos deste “nosso” acontecimento aquilo que ele verdadeiramente é: O acontecimento nacional!

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Raça Dominante

“Hoje eu tenho de sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça”.

Aníbal Cavaco Silva, na véspera do 10 de Junho de 2008



Raça s.f. : divisão tradicional e arbitrária dos grupos humanos, determinada pelo conjunto de caracteres físicos hereditários (cor da pele, formato da cabeça, tipo de cabelo, etc.).


Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Separados à nascença?


António Guterres, Alto Comissário para os Refugiados, ONU.



Mulher sentada num banco, Feira de Barcelona (imagem de Graf & Co.).

terça-feira, 13 de maio de 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Toda a Verdade Sobre o Guimarães das Duas Caras

A propósito da estátua do Guimarães que toma conta da praça da Oliveira, muito se tem dito em desabono do carácter dos vimaranenses. Que temos duas caras, dizem por aí alguns à boca pequena, o mesmo que outros dizem à boca grande. Para dourar a pílula, houve quem lançasse mão a uma patranha mui mal amanhada, na qual se misturam barcelenses em retirada na conquista de Ceuta com vereadores de vassoura na mão e barrete vermelho na cabeça. A verdadeira história daquela estátua, com as suas duas caras, é bem diferente e eu vou contá-la.


Era em Suaken, no sul de Marrocos, no ano de 1578, quarto dia do mês de Agosto, em que se travava a para sempre memorável e trágica batalha de al-Kasr al-Kebir. A peleja ia rija, com os ventos a correrem de feição às hostes portugueses, quando começa a correr a notícia de que sultão Mulei Maluco tinha sido varado por um tiro, indo entregar a alma a Mafamede. Já os gritos de vitória! vitória! vitória!* atroavam, em uníssono, nos céus marroquinos, quando os súbditos de D. Sebastião foram apanhados de surpresa pela inopinada arremetida da infantaria mourisca, saída de onde só Mafoma sabia.

Do que se passou a seguir, os relatos não coincidem.

Dizem uns que se escutaram incitamentos à resistência:

Ter! Ter!

Outros contaram que os gritos que se ouviram ordenavam a retirada:

Retira! Retira!

Por último, há quem garanta que a ordem não era para resistir, nem para retirar, mas sim para regressar (mas ninguém soube dizer para onde):

Volta! Volta!

O que parece certo é que todos os relatos estavam dentro da verdade e que todos aqueles gritos ecoaram em simultâneo. As vozes misturavam-se, pois, vindas de todas as direcções:

Ter! ter! Volta! Volta! Retira! Retira!

Os que se acharam naquela babel ficaram, naturalmente, confundidos, baralhados e, até mesmo, algo indecisos. O caos e a desordem instalaram-se entre as hostes de Sebastião. Com tanta balbúrdia e tamanho alvoroço, as tropas portuguesas logo se viram cercadas e vindimadas pela arcabuzaria sarracena. E então, as areias quentes de al-Kasr al-Kebir tingiram-se de vermelho, lavadas pelo sangue dos portugueses.

Com a derrota eminente, narram as crónicas que apenas Sebastião e um pequeno grupo de homens resistiam. Ficaram para a História as palavras de D. João de Portugal:

Que pode haver aqui que fazer, senão morrermos todos?

Muito se tem escrito sobre o sentido da resposta que então lhe deu D. Sebastião:

Morrer, sim, mas devagar!

O que sucedeu a seguir é um mistério que, até ao dia de hoje, ficou por contar.

A certa altura, levantou-se um vento agreste e sufocante, fazendo cair sobre al-Kasr al-Kebir uma névoa seca e espessa, um limometeoro, enfim, uma tempestade de areia. D. Sebastião, que não tinha vontade de morrer depressa, aproveitou o ensejo para abandonar o campo de batalha, acompanhado apenas por sete dos fidalgos que o acompanhavam. Entre os que seguiram o rei fugitivo, ia um Baltazar Pacheco de Alcoforado, a quem, segundo uso militar antiquíssimo, chamavam o Guimarães, por ser natural desta santa terra.

Seguiram rumo ao Sul, pelas quentes e secas areias do Saara, escondendo-se nos dias claros e tórridos daquele Agosto quinhentista, caminhando nas noites gélidas, com os seus passos guiados pela linha do mar e pela cintilação das estrelas. Entre eles, já não havia rei, nem súbditos, todos eram iguais: cansados, esfomeados, sequiosos e fugitivos. Não se sabe quantos dias andaram nesta retirada. No limite das forças, tiveram de tomar uma decisão dramática, empurrada pelo instinto de sobrevivência. Precisavam de comer, mas não tinham o quê. Decidiram que um deles seria sacrificado, para que os outros se pudessem salvar. Tiraram as sortes, e a mais aziaga calhou ao rei. De nada lhe adiantou invocar a sua majestade nem o direito divino. Foi esquartejado e repartido entre os sobreviventes, que se banquetearam com as carnagens reais.

Mais uma vez, como tantas outras, o destino zombou dos homens. Por uma estranha ironia, quando ainda estavam mergulhado no torpor pós-prandial que os atacou depois de tão extraordinária refeição, avistaram ao longe uma nau, que só podia ser portuguesa. Correram à praia, acenando, furiosos, com a bandeira real que um deles tivera a lembrança de trazer consigo.

Foi assim que se viram de regresso a Portugal. Antes de embarcarem, juraram guardar segredo quanto ao acontecido com o rei D. Sebastião, o qual lhes poderia ter sabido bem melhor, tivessem eles sal e pimenta.

Como a tragédia daqueles homens parecia não ter fim, quando já chegavam a Lisboa, depois de atravessarem todo aquele mar, levantou-se tamanha tempestade, que fez o navio naufragar. Nenhum deles se salvou, a não ser o Guimarães, que deu à costa na praia de Carcavelos.

Em Guimarães, Baltazar Alcoforado foi recebido como um herói. Era ele, afinal, um estóico sobrevivente de uma aventura insana cujas consequências Portugal pagaria com a sua própria independência. Nunca contou a ninguém a verdade do que se tinha passado com ele naquela praia da Mauritânia.

A ninguém, excepto ao padre Inácio Laranjo, claro, mas foi como se o não tivesse contado, posto que o assunto ficou resguardado por segredo de confissão.

Quando morreu, decidiram fazer uma estátua que perpetuasse a memória daquele herói vimaranense. Na altura, alguns estranharam o alvitre insistente e enigmático do Padre Inácio, homem que tinha tanto, ou menos, de piedoso como de gaiteiro, para que o representassem com uma cara na barriga. O mestre-pedreiro não viu nenhum mal na pilhéria, e fez-lhe a vontade.

E lá ficou o Guimarães, para a posteridade, imponente, sereno e majestoso.

Ao contrário do que por aí dizem, não tem duas caras. Mas tem o rei na barriga.

*Grito que os vimaranenses repetirão tantas vezes, séculos mais tarde, mesmo quando o barco se afunda.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Província

As leituras dos jornais deixam-nos muitas vezes espantados. Tal como o meu caríssimo companheiro de café (Honoré), fiquei perplexo por saber que na Guimarães Capital Europeia da Cultura, se vai gastar um pouco mais do que se gastou com a Casa da Música. Afinal, como é possível gastar-se mais a requalificar dez hectares de uma cidade de província do que a construir um edifício no cosmopolita Porto?

Muito tenho reflectido sobre a nossa condição de “província”. Realmente estamos muito longe de tudo o que possa ser vagamente urbano. Estamos a 30 minutos do Porto, a 2h de Vigo, a 3h de Lisboa e a 5h de Madrid. Contudo, o nosso ego põe-nos a 0 minutos do centro do mundo, pois este é o local onde nós gostamos de viver, ainda que esse local seja na “província” e que a nossa vontade seja “provinciana”.

Após estas reflexões algo descabidas, soube de uma notícia que muito me agradou: os 15000 habitantes de Alcântara vão ver, também em 2012, a sua freguesia requalificada com um investimento de 600 milhões de euros.Finalmente uma cifra digna de uma Capital d’Império! A minha satisfação prende-se com o facto de saber que Lisboa está já livre dos problemas que assolam as cidades comuns (bairros sociais, degradação de edifícios históricos, etc) e que ainda não se encontra suficientemente endividada para se desviar do encantador caminho dos mega investimentos!

Também fiquei imensamente feliz por saber que a nossa cidade não tinha sido contemplada com uma verba excessiva para 2012 e que (apesar de GMR20012 poder vir a vergonhosamente superar o custo da Casa da Música) o país ganhou bom senso e decidiu pôr o dinheiro no seu devido lugar: Alcântara.

E assim corre o tempo numa das províncias mais pobres da Europa: o nosso belo Portugal.

domingo, 27 de abril de 2008

Quando Tanto É Muito, Mais Pode Ser Pouco

O meu exercício quase diário de leitura dos jornais costuma resumir-se a uma passagem de olhos pelas primeiras páginas, à porta do quiosque Cuca. Quem, como eu, das notícias já não consegue passar dos títulos, não raramente fica baralhado. Muitas vezes, lendo as gordas, percebe-se que os acontecimentos acontecem de maneira radicalmente diferente, em função dos jornais que narram o acontecido. Nada de anormal: cada um gosta de contar os contos à sua maneira, acrescentando-lhe cada qual tempero a gosto. Agora, se o mesmo jornal, no mesmo dia, em dois títulos que remetem para a mesma notícia, diz coisas diferentes, já acho um pouco estranho. É assim no Público de hoje. No rodapé da primeira página, apontando para a página 14, li o título: “Capital da Cultura / Guimarães vai custar mais do que a Casa da Música”. Tive um súbito assomo de vimaranensidade, fiquei em pulgas, quis saber mais, comprei o jornal, desfolhei-o até à página 14, li o título: “Capital Europeia da Cultura de 2012 vai custar tanto como a Casa da Música”. Fiquei confuso: vai custar mais do que? Ou vai custar tanto como? Entre o mais e o tanto, que diferença vai? Custando mais ou custando o mesmo, vai custar muito? ou vai custar pouco?

Depois de pensar um pouco, concluí que, se Guimarães só tivesse para gastar, com toda a festa de 2012, o mesmo que o Porto gastou com só um item do programa de 2001, isso não seria gastar pouco, seria um insulto. Não, não e não! Jamais poderíamos aceitar tal ultraje, tanto menosprezo, tamanha ofensa, semelhante agravo.

Depois de pensar mais um pouco, deu-me para fazer contas e fiquei com este sorriso quase obsceno, de orelha a orelha. A Casa da Música tinha um orçamento inicial de 16,25 milhões de euros e, no fim de contas, mais derrapagem, menos derrapagem, ficou por 100 milhões. Ultrapassou, portanto, mais de 6 vezes o orçamentado. Para Guimarães está previsto um orçamento de 111 milhões de euros. Acreditando que ninguém ousará impedir-nos de praticarmos um dos desportos nacionais predilectos, a derrapagem orçamental (quem poderia ousar?), e dando como adquirido que a Casa da Música será o nosso termo de comparação, temos o direito inalienável de aplicar o mesmo multiplicador ao orçamento inicial. Vamos, pois, gastar 683 milhões. Se a quantia não é estratosférica (diria mesmo que será um tanto ou quanto módica, se não modesta), sempre deve dar para umas dúzias de foguetes.